De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

André Horta como uma bola de neve

Há cerca de quatro anos, Fernando Chalana não teve dúvidas. Quando a conversa resvalou para os novos talentos do Seixal, mais concretamente para os irmãos Horta, o pequeno genial foi claro: "Ambos são muito bons mas, para mim, o André é ainda melhor do que o Ricardo." Significa esta memória que a imposição do mano mais novo na equipa principal do Benfica não é, propriamente, uma surpresa – e a hierarquização feita por Chalana corresponde ao que hoje se perspetiva de um e outro futebolistas. André Horta obedece a um conceito largo e reflexivo do jogo, prova de que o seu futebol parece espontâneo mas não é. Durante anos, o jogador de exceção era aquele que promovia a imprevisibilidade com magia e gotas de um génio aclamado por todos os lados. Hoje também é possível exaltar plateias executando com perfeição o que é previsível. Mesmo sendo capaz de assombrar com técnica primorosa e imaginação sem limites, AH agiganta-se pelo modo como deslumbra a partir do senso comum.

Tem incorporado o peso certo do manto sagrado que enverga e as necessidades táticas mais prementes do exército que representa; sendo um jogador capaz de respostas instintivas ao que o jogo lhe exige, o mais impressionante é vê-lo exercer com ações premeditadas. Na flor da idade, isto é, no momento certo para se deslumbrar com habilidades nocivas, realiza-se quando encontra em jogo as situações que estudou de véspera. Ninguém esquece o golo de antologia em Tondela e o espetacular lance em Arouca a que José Gomes chegou centésimos de segundo atrasado, sinal evidente de que tem argumentos para pintar brilhantes quadros solitários; mas a plenitude do seu jogo incide principalmente na inteligência com que entende a equipa como um cérebro coletivo; na paixão com que se entrega à causa, pondo-a ao serviço de uma geometria na qual a bola dança com precisão indiscutível; na solidariedade com que se posiciona sistematicamente para dar linhas de passe a companheiros em dificuldades em qualquer zona do terreno.

É notável que, possuidor de tantos argumentos para conduzir a bola, fintar e rematar, se realize jogando a um/dois toques, dando sucessivas aulas de critério e segurança no passe. AH tem habilidade para estabelecer diferenças mas prefere sobrepor as instruções do treinador ao desejo adolescente de ser ator principal. Nem todos os grandes talentos estão habilitados a incidir ambição, atrevimento e espírito de luta na defesa da comunidade como simples elementos da máquina. De qualquer modo, a austeridade da técnica não pode ser levada a sério, porque não passa de um meio para ocultar algumas das mais devastadoras armas do reportório. Não nos iludamos: essa indiferença por louros individuais e a forte componente de altruísmo na ação esconde o espírito competitivo de um iluminado que também pode ser cúmplice de obras-primas ou mesmo seu autor.

AH não exerce o poder de sedução automático de Renato Sanches; é menos entusiasmante à primeira vista, falta-lhe o lado selvagem que empolga a equipa mas que também pode desarrumá-la e é mais dependente do funcionamento coletivo. A verdade é que revela maturidade tática impressionante, promove o equilíbrio e, nas fases mais exigentes de cada confronto, sabe jogar de memória – melhor forma de pegar na bússola e não perder o rumo. AH é o caso raro de quem, aos 19 anos, revela a sabedoria, a calma e a regularidade (sejamos compreensivos com a má prestação em Chaves) de um veterano de muitas batalhas; que denota estofo físico extraordinário (quanto mais o jogo se aproxima do fim, maior é a sua influência) e já descobriu todos os segredos do futebol. É uma bola de neve que iniciou a descida montanha abaixo. Resta saber a dimensão que vai assumir e os efeitos que pode provocar. Cá para mim, é melhor estarmos preparados para o que aí vem.

Bas Dost vai fazer muito golo

Bas Dost não recorre a deslocamentos tão amplos como Slimani mas domina as regras do seu habitat; conhece os códigos de comportamento e o modo para ser eficaz na grande área. É um ponta-de-lança com soluções para tudo e, em equipa de vocação ofensiva, que se aproxima facilmente do ponta-de-lança, vai fazer muito golo. Não sendo de excluir que, sem percalços, possa mesmo superar o seu antecessor.

Marega mostra todo o potencial

Marega fracassou no FC Porto num contexto em que qualquer jogador dificilmente triunfaria. Em equipas infelizes e sem esperança, todos parecem piores do que são na realidade. O maliano tinha a seu favor os golos ao serviço do Marítimo mas isso não lhe chegou: "Uma coisa é triunfar numa equipa média, outra é fazê-lo numa grande." Está a mostrar que é um excelente avançado. Essa é a verdade.

O pé esquerdo de Hamzaoui

Hamzaoui vive a primeira experiência europeia. Na Argélia, apesar de atacante, não tem um lastro goleador exuberante, mesmo levando em conta as boas referências que dele existiam. Acaba de marcar 3 golos num só jogo pelo Nacional, tantos quantos fez em toda a época passada. Não é crível que venha a tornar-se num grande goleador, mas a técnica, a agilidade e aquele pé esquerdo vão fazer mais estragos.

Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação deportiva.
  • conteudo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão e-paper do jornal no dia anterior
  • conteudos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais