André Silva é a bandeira do portismo
O escudo na camisola, o reconhecimento exterior e a aceitação interna não têm poder para ganhar sem esforço, compromisso e organização; mas todos juntos constituem auxílio precioso para a afirmação e empurram para a vitória. O comportamento de André Silva até ao momento, em cada passo da ainda curta carreira, deixa antever rápida assimilação de valores morais, inteligência tática e argumentos futebolísticos à altura de um enorme avançado. Ter medo ou sentir o dever cumprido é, desde sempre, uma convicção individual, necessariamente autónoma de assobios, aplausos, críticas ou elogios. Essa capacidade para isolar o ruído à sua volta não configura, só por si, um futebolista de exceção. Mas quem consegue fazê-lo dá um passo fundamental na consolidação como homem. O que, para um miúdo de 20 anos, candidato a tarefa de tão grande exigência e responsabilidade, é uma vitória imprescindível.
O ofício de ponta-de-lança é dos mais complexos e de assimilação mais morosa no futebol, porque exige os valores adultos do entendimento do jogo como vasta cadeia de movimentos coletivos e a precisão cirúrgica dos gestos – por mais que o futebol caminhe para a universalidade há tarefas que exigem especialistas para serem cumpridas na plenitude. Fenómenos à parte, os goleadores demoram a construir-se e a consolidar competências. Para que um jovem se expresse ao nível do que promete, é preciso encontrar um contexto favorável, no qual é fundamental que os companheiros acreditem nele, no seu talento e no seu futuro. E que ele sinta, de igual forma, que os outros o olham como solução para cada instante, nomeadamente em fases de maior aperto. Futebolista com amplitude de soluções técnicas e táticas que o encaminham para o lote dos grandes avançados, precisa agora de agregar-lhes instinto matador, egoísmo e a obsessão goleadora que caracteriza os mais excecionais pontas-de-lança.
André Silva parece ter atingido maturidade precoce, porque venceu etapas na construção como jogador à custa do ensino académico sem ter sofrido a consequência nefasta da danificação do faro para o último toque. O lastro goleador que o precede nos escalões jovens, na equipa B do FC Porto e nas Seleções Nacionais, confirma a eficácia do seu jogo sem mutilar a imaginação, muito menos desviar o foco primordial da ação, sempre na perspetiva de valorizar a liberdade e o prazer que o futebol lhe oferece. Em causa estará o goleador de um tempo, candidato a deixar marcas na história do futebol em Portugal. Enquanto não conclui a construção com o manancial goleador adequado, aprimorando os valores adultos da finalização (frieza, poder de síntese, simplicidade e ideias claras), consolida argumentos como boa relação com a bola e apurado sentido de participação no bordado de aproximação à baliza; velocidade, articulação motora, boa técnica individual e capacidade para oferecer linhas de passe ao portador da bola, normalmente em diagonais profundas que constituem punhaladas nas costas das defesas contrárias.
O Dragão procura uma bandeira para o novo ciclo, de preferência quem cumpra os requisitos sentimentais, entretanto abalados, do portismo: alguém que identifique um perfil, impulsione um estilo, reclame uma estética e remeta para a história de glórias interrompida nos últimos três anos. Enquanto isso, o futebol português suspira por um ponta-de-lança que dê saída ao talento nas zonas de aproximação à baliza e à criatividade ilimitada com origem nas alas. André Silva pode ser a resposta para uma coisa e outra. Em nome de uma convicção é só preciso que a exigência não mate a esperança; que a paciência seja mais forte do que a dúvida e o bom senso resista à urgência: há um craque de 20 anos a caminho do palco maior do futebol nacional e europeu. E já era assim antes dos 2 golos na final da Taça de Portugal.
O sentido adeus a um génio da bola
Despediu-se em lágrimas um dos maiores génios que passaram por Portugal
Gaitán parte rendendo aos cofres benfiquistas uma verba avultada mas aquém do enorme talento revelado nos anos que passou na Luz – e poucos são aqueles que, valendo 25 milhões, parecem negociados abaixo do valor. Quando Zico deixou o futebol, Jorge Valdano imaginou o que os adversários pensavam do momento: "Dormiremos mais tranquilos mas os nossos domingos serão mais pobres." É isso mesmo.
Quando Josué se tornou herói
O seu regresso ao Dragão na próxima temporada já tinha sido noticiado
Josué desperta menos paixões do que as merecidas. Foi preciso defrontar o FC Porto e marcar-lhe um golo na final da Taça para agitar as hostes – saiu insultado pelos adeptos azuis e brancos. Se me permitem, tudo a favor dele: a coragem de jogar; a emoção de ter sido obrigado a fazer o 2-0; e, principalmente, a delícia de vê-lo aprimorar o estilo e a intervenção no jogo como futebolista de nível superior.
António Salvador fez uma potência
Treze anos à frente dos minhotos bastaram para dar dimensão aos bracarenses
António Salvador é o principal responsável pelo facto de o Sp. Braga estar a consolidar uma lógica de grandeza indiscutível. Atrás dos três grandes mas à frente de todos os outros, o futebol português encontrou uma potência desportiva indiscutível e um clube que é, em si mesmo, a promessa de uma fonte de receita capaz de atemorizar qualquer adversário. A Taça de Portugal é só mais uma acha para a figueira.
