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SEXTO SENTIDO

Boavista 2000/01

1- EXISTE um catálogo de emoções que ilustra estes casos de entrada na galeria dos imortais. Preto e branco são as cores de um trajecto que desafiou a lógica e explodiu na festa que é pecado interromper e sobre a qual ainda é inútil fazer perguntas. Boavista Futebol Clube, campeão nacional 2000/01. Feito extraordinário nascido de projecto arrojado e que terminou na consistência de uma equipa criada a partir de conceitos genéricos mas que termina a época suportada em nomes próprios que enchem esta página. Uma vitória indissociável da figura de João Loureiro, que entre outros méritos geriu presença (amparou nos momentos difíceis) e ausência (não reclamou a sua parte nos momentos bons).

2- VIAM-LHE apenas a simplicidade que o acompanha desde o berço, acentuada pelo sorriso franco e a pronúncia que não perdeu. Durante anos foi olhado como ex-jogador saudoso de um passado brilhante, ao mesmo tempo treinador aventureiro que queria conquistar o Mundo sem o suporte dos livros. Dele se dizia que era apenas um irmão mais velho que não ficava bem na cadeira de professor. Jaime Pacheco concluiu o manifesto que põe tudo no lugar, concebido a partir de uma inteligência prodigiosa e do jeito para ensinar próprio de quem passou mais de 40 anos a aprender. É a obra brilhante de um homem que sem frequentar cursos universitários guiou o Boavista ao título nacional e é, há meia dúzia de anos, o melhor comunicador do futebol português.

3- O BOAVISTA descarrega em cada partida energia capaz de electrocutar qualquer adversário, estilo ao qual associa conceitos como a paixão pelo jogo e pela camisola, o poder de sedução expresso através do respeito pelo adepto e a perfeita noção de quem sabe estar a fazer hoje a história de amanhã. Uma equipa que confia nas suas possibilidades mas não subestima o adversário, prudente na atitude e no posicionamento mas que não chega a ser tímida, composta por gente simples mas não subserviente. Um conjunto equilibrado na ocupação dos espaços, cuja preocupação prioritária é mostrar que tem ambição - e sejamos educados em tempo de festa, atirando para segundo plano os pormenores do vírus que a atacou em Alvalade e na Luz.

4- CADA jogo foi encarado com a solenidade de uma ópera ou de uma peça de teatro. Sem se aperceber, Jaime Pacheco deu todos os passos de um mestre: valorizou a importância do treino, estimulou o cumprimento escrupuloso de um plano e tornou sagrados os pequenos detalhes sem os quais a ideia maior podia até desagregar-se. Nunca especulou e só alimentou a esperança quando percebeu ter encontrado a rota certa para o paraíso. Nesta época de alta tecnologia em que o futebol é um produto bem vendido antes e depois, o Boavista recuperou a sua essência competitiva e foi ganhando durante os 90’ de cada jogo. Até se transformar num campeão que quando não deslumbrou teve ao menos o condão de nos emocionar.

Figuras: Duda - Martelinho - Sanchez

COMPATIBILIDADE - É sempre de desconfiar quando o único rosto de uma equipa vencedora é o do seu treinador. O êxito do Boavista assenta numa ideia que potencia o peso de ordem, concentração, físico, disciplina e motivação. Mas todos sabemos que não é possível ganhar um campeonato apenas com esses conceitos: não são compatíveis um ano inteiro ao mais alto nível.

HARMONIA - Sendo um campeão nascido da harmonia de virtudes distintas, o Boavista cresceu porque nunca deixou de alimentar os argumentos regulares que o empurraram para o título. Havendo nomes que explicam a extraordinária solidez defensiva, do meio-campo para a frente a combinação entre consistência e explosão foi determinante.

DUDA - É um especialista dos flancos. Ao contrário de muitos companheiros que na dúvida correm e lutam, ele, se não sabe o que fazer, dribla. Por vezes dribla à toa, mas sem perder de vista a equipa e sobretudo o golo. Duda é um provocador cuja arma é o ascendente moral criado sobre o adversário, que perde a cabeça e o castiga com entradas que por vezes doem só de as ver.

MARTELINHO - Faz tudo depressa. Quando coordenou os movimentos com a bola, com o passe, com a acção imaginada por quem o solicita, tornou-se um extremo temível. Não sendo muito hábil com a bola nos pés, tem vantagens sobre muitos outros: gosta do que faz e tem um faro especial para definir o sítio certo à hora certa para marcar golos decisivos (FC Porto e Sporting).

SANCHEZ - Dirigentes, treinador e público elegeram-no como figura maior da equipa. Eleição justa, porque o boliviano é um senhor do futebol, máxima referência de equipa enérgica e muitas vezes frenética, à qual acrescentou desaceleração, pausa e raciocínio. Se a vitória do Boavista foi o triunfo da classe operária, pois então que Deus abençoe o novo príncipe do povo.

Passe Curto

Ricardo chega ao fim da época como o melhor guarda-redes do campeonato, o mais regular, o mais confiante e feliz. E aquele que, já agora, sofreu menos golos também. Grande surpresa para quem abordou a temporada com apenas 14 jogos nas duas últimas épocas e sob a ameaça de tornar-se crónico suplente de William.

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Litos foi a voz de comando do sector defensivo, o capitão
respeitado e decisivo. É hoje um central mais maduro, que adicionou maturidade à picardia, experiência à velocidade, saber à contundência do choque. E aperfeiçoou a capacidade de desequilibrar, de cabeça, na área contrária (5 golos).

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Rui Bento, o pequeno Baresi de há dez anos, é hoje um jogador adulto e um médio indiscutível. Introduziu inteligência e serenidade numa equipa enérgica e musculada, através da perfeição como interpreta cobertura, ocupação do espaço, marcação e compensação. Uma das grandes figuras do campeonato.

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Martelinho e Duda têm presença pouco constante no jogo mas dão-lhe golpes mortais; Sanchez ilumina, Rui Bento dá serenidade, Petit dá tudo. Se é preciso escolher uma imagem de marca do Boavista campeão, é justo que seja ele o escolhido, incansável e solidário, apressado mas lúcido e sempre determinante.

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Silva (10 golos) foi o pistoleiro inesperado que na parte final da temporada devolveu a pontaria que começou a faltar a Whelliton (7 golos), mas que sempre acompanhou Duda (10 golos) e Sanchez (8). Questão de confiança acima de tudo, de quem trouxe o último toque a uma equipa que soube jogar sempre bem pelos flancos.

Lá por fora

Ion Timofte veio da Roménia para assistir à grande vitória do seu clube do coração. Um dos melhores estrangeiros da história do futebol português e símbolo máximo dos melhores anos do clube axadrezado comentou o jogo com o Desp. Aves para a Sport TV. Um espectáculo inesquecível ouvi-lo sofrer em voz alta, gritar nos lances mais quentes e quase enlouquecer nos golos, repartindo a tarefa de comentador com a de adepto. Timofte é apenas o melhor representante de um grupo de jogadores que falhou por pouco o encontro com a história, lote do qual fazem parte Paulo Sousa, Mário Silva, Hélder, Luís Manuel, entre outros.
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