De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Chegou o momento de Óliver

Há jogadores especiais que acedem à história pela vantagem genética do talento; consideram-se indestrutíveis e nem um desaire relevante põe em causa a convicção de que são melhores do que os outros. Acreditam neles até à insolência e nunca temem o ridículo. No Mundial de Espanha, em 1982, no final do jogo com a Itália, que valeu a eliminação do maravilhoso Brasil de Telé Santana, o enorme Sócrates entrou na cabina indiferente ao pranto coletivo: "Pessoal, o que é isso? Jogámos como deuses. Perdemos? Pior para o futebol, porque ninguém foi melhor do que nós." Recordemos a imagem de Óliver Torres na solidão nostálgica do banco azul e branco (e às vezes nem isso) e tentemos adivinhar o seu pensamento. Quando o jovem espanhol olha para o relvado, a primeira conclusão é de que ninguém é melhor do que ele. A equipa perde com ele de fora? Cabe ao treinador, à equipa e ao clube lastimá-lo.

Aos 22 anos, Óliver viaja em contramão com a tendência do jogo; é exemplo perfeito de um futebol mais antigo, no qual talento, arte, estética e sentido de espetáculo eram imprescindíveis para obter o reconhecimento universal. Nas zonas onde exerce, se construiu como jogador e se fez homem, onde havia liberdade há hoje obrigações; onde havia reconhecimento pela diferença existe hoje recriminação; onde prevalecia a espontaneidade e o instinto hoje vigora a lei de hábitos assimilados. Em suma, o palco idílico dos grandes criadores transformou-se num inferno de exigência máxima, no qual só sobrevivem os mais fortes.

Ele deixou-se levar pela facilidade com que criava o assombro nas bancadas, a exaltação nos parceiros de caminhada e o temor nos adversários. Hoje, para exercer a mesma influência precisa de convicções mais fortes e de um elemento fundamental para a afirmação de qualquer futebolista, mais ainda se for jovem: a confiança incondicional de quem o lidera. E sobre isso pode até escrever uma enclopédia, tal a relação mantida com a esmagadora maioria dos treinadores que teve até agora.

Óliver parte para a nova época escudado na convicção de que será um jogador determinante para o FC Porto de Sérgio Conceição, o míster que parece disposto a fazer girar a sua fábrica de sonhos à volta do génio espanhol – esse talento sublime que eleva à condição coletiva a magia e o engano, armas normalmente consideradas como sendo de um homem só. Sérgio só tem de dar ao seu piloto a orientação que ele procura. Se o conseguir, para lá da cumplicidade garantida com um jogador único, não precisará de gritar para exercer a autoridade. O respeito chegará pelas vias mais nobres: a do conhecimento e do bom senso. Nesse processo de reconversão, há uma dose grande de responsabilidade de quem dá o conselho; mas para o êxito também contribui com quota elevada a atitude e o comportamento do aconselhado – neste caso, caberá a Óliver ouvir, entender, aceitar e agir em conformidade com as indicações do treinador.

Um FC Porto referenciado a partir de Óliver promete ser uma equipa deslumbrante. Exigente do ponto de vista conceptual mas capaz de arrebatar os amantes do bom futebol. O espanhol terá de assumir na plenitude a prova de confiança do comandante e entregar-se à causa portista; não poderá ser apenas mais um e mostrar-se indiferente ao resultado final da ideia, convicto de que ainda vai a tempo de recuperar o tempo perdido e confirmar-se como fenómeno do futebol europeu. Para o êxito da tarefa todos terão, afinal, de cumprir a sua parte: o treinador com convicção; o jogador com compromisso; os companheiros com a crença de que podem seguir o profeta; os adeptos com apoio incondicional. O FC Porto não fez aquisições mas o que tinha espalhado pela Europa e reuniu sob o comando de Sérgio Conceição é suficiente para construir um exército temível.


Podence vai ser
peça importante

Transforma-se instantaneamente de defesa em avançado. E vice-versa

Podence tem 1,65 m e apenas 21 anos. Contra todas as expectativas está a ganhar espaço no Sporting, partindo para a nova temporada como titular na equipa de Jorge Jesus. E não é um capricho do míster; é um ato de justiça face ao que tem feito até aqui. Estamos perante avançado frenético, com técnica, assente em impressionante velocidade de reação. Será peça importante em 2017/18.


Luisão está a dar
notável resposta

Há comportamentos do corpo humano cuja eficácia a ciência antecipa

Luisão está a validar opinião com base científica segundo a qual a pré-época de um jogador com mais de 30 anos é a longa carreira que tem atrás de si. O central brasileiro, que já vai nos 36, foi para férias, voltou, lesionou-se e não seguiu para estágio. A questão resumia-se aos meses que demoraria a recuperar o posto no centro da defesa. Jogou com o Betis e com Hull City. O futebol é isto mesmo.


O fora-de-jogo
que ninguém viu

O vídeo-árbitro está a dar os primeiros passos e já nem tudo corre mal

A interferência ativa de um jogador que se comporta passivamente contém subjetividade suficiente para que seja o árbitro a avaliá-la. Artur Soares Dias deu como boa a indicação do vídeo-árbitro (e a decisão foi acertada, diga-se de passagem) mas eu, se fosse o juiz, tinha preferido confirmar. Até porque, em Alvalade, não houve um só presente (incluindo jogadores) que tivesse percebido a infração.


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