CR7 sai? É bem feito para o Madrid
Em 2000, quando inaugurou a dinastia galáctica no Real Madrid, Florentino Pérez exibiu por corredores, salas de Imprensa e tribunas presidenciais um troféu de caça milionário que valeu cada peseta do que custou; durante quatro anos exibiu a imagem de inovador estadista da bola fazendo gala de cada anel de ouro que trazia nos dedos. No fim, fez com Luís Figo o que repetiria com outras lendas do seu reinado: empurrou-o porta fora, convencido de que já não tinha utilidade para a sua visão do futebol. Para tanto, contratou um treinador medíocre e entregou-lhe a missão de o matar aos poucos, servindo-se do manual de indignidades – a perda de influência, o banco de suplentes, as entradas tardias, as declarações miseráveis…
Cristiano Ronaldo devia estar preparado para a leveza com que Florentino aborda a veterania das estrelas. Aos 32 anos de pouco lhe serve receber a Bola de Ouro, ser um dos melhores de sempre e o terramoto mais devastador da história do Real Madrid. CR7 deixou de ter respaldo institucional nas pequenas vicissitudes do dia-a-dia; nunca ouviu uma palavra de conforto pelos assobios impensáveis da burguesia que comanda o clube e vive com a barriga cheia de glória. Ninguém está acima da nação blanca mas esta não pode também ignorar a obra faraónica levada a cabo por quem já só pode comparar-se a Santiago Bernabéu e Di Stéfano.
A degradação dos vínculos começou quando a relação se fazia de sorrisos, apertos de mão, palavras de circunstância e palmadas nas costas. CR7 saiu sempre por cima porque mantém o nível e os números que apresentava aos 25. O que lhe fez saltar a tampa foi ter conhecimento de uma das primeiras reações do Real Madrid à acusação de fraude fiscal. Em vez de manifestar disponibilidade para a defesa incondicional do seu maior símbolo, solicitou aos jornais amigos que a ilustração do caso fosse sempre com CR7 equipado à Portugal e não à Real Madrid. Uma apela à nacionalidade, a outra à entidade que representa – o instinto foi afastar-se de um eventual ilícito do seu jogador.
Poucos estarão em condições, como Fernando Santos, de colocarem as mãos no fogo por CR7. Mas também só crápulas encartados e parvalhões mal-agradecidos se atrevem a expressar dúvidas recriminatórias e indiferença assassina perante figura tão grande e a quem tanto devem. Não é digno, perante caso tão atentatório do caráter de um homem, que os principais beneficiários do seu génio, em vez de irem à luta para provarem a sua inocência, comecem por limpar as mãos no caso de as coisas correrem mal – as declarações de Florentino, na defesa do jogador, foram tardias, mal-amanhadas e, por isso, pouco sinceras. Parece que o madridismo está a aproveitar o conflito para se ver livre de CR7. Este, por orgulho, não perdoou a desconfiança; por detestar hipocrisias, foi autêntico e recusou a indiferença mentirosa perante o sucedido. Sentiu-se injustiçado e reagiu com violência: "Vou-me embora e não há marcha atrás." É bem feito para o Madrid.
A xenofobia não é chamada ao triunfo esmagador de um português na entidade que é, ela própria, um dos maiores símbolos do império castelhano. O fanatismo tende a manifestar-se com independência da razão, ainda que vitórias e derrotas estejam sempre ligadas a heróis ou vilões – neste caso, a diferença é que o vilão merengue é o ser divino que lhes alimenta o êxito. Se no início do século anunciassem aos adeptos que, em breve, chegaria ao Bernabéu um jogador capaz de bater os recordes das maiores figuras da história, um fenómeno que superasse em golos, regularidade e exuberância criativa Di Stéfano, Puskas, Raúl, Santillana e Hugo Sánchez, responderiam à heresia com a esperança de que não estivessem a enganá-los. No fim, recebida toda a informação, fariam pergunta sofrida, à espera de uma resposta que os satisfizesse: "Mas tem mesmo de ser português?"
Bruno Fernandes é estrela madura
É o capitão dos sub-21 de Portugal e, já agora, um jogador fabuloso
Bruno Fernandes tem autoridade, pensa bem e executa melhor; desequilibra por coordenação motora e leva golo nas veias; conhece as regras de todas as zonas do campo e revela maturidade excecional para os 22 anos que tem. Brilha em Itália, onde o comparam a Rui Costa e tem feito uma carreira a crescer. É titular indiscutível da Sampdória. Em Portugal atuou no Pasteleira e no Boavista. Parece impossível.
Cédric Soares está no ponto
O futebol inglês deu-lhe outra dimensão: a total consistência defensiva
Cédric é um lateral a quem falta o golpe de asa que é a imagem de marca de Nélson Semedo e Cancelo, por exemplo. Nunca será extremo por lhe faltar magia para ganhar terreno, driblar e associar-se regularmente ao golo. Mas tornou-se um jogador de fiabilidade absoluta, que não comete erros de posicionamento, no ataque à bola, na defesa do espaço e nas decisões face ao adversário direto. Está no ponto.
Regresso de Lima em cima da mesa
A transferência faz muito mais sentido do que parece à primeira vista
Lima é o avançado perfeito para o futebol moderno: participa, desgasta, é inteligente, cumpre os requisitos emocionais do adepto e satisfaz a estatística. Quando saiu para o Dubai, a decisão teve mais a ver com o dinheiro do que propriamente com a idade. Agora que, aos 34 anos, se fala do regresso à Luz, deve contar, acima de tudo, o talento e o estado de um jogador que se cuida como uma flor de estufa.
