De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Diogo Jota é craque sem limites

César Luis Menotti costuma dizer que o treino serve para que o jogador perceba a velocidade máxima a que consegue ser preciso nas decisões, nos movimentos e nos gestos técnicos. Seguindo o raciocínio do campeão mundial argentino em 1978 e eterno gerador de ideias sobre futebol, Diogo Jota é um fanático do treino porque, aos 19 anos, pensa e executa com rapidez supersónica. Nele coincidem explosão e pausa; instinto e inteligência; paixão e frieza, isto é, muitos dos argumentos necessários para triunfar nas zonas onde exerce. O seu raio de ação é toda a frente de ataque; a sua arma principal é revelar a visão de centro-campista e a habilidade nervosa dos grandes atacantes, que utiliza para desequilibrar muitos despiques. O seu estilo comprometido revela também um jogador ambicioso e de espírito empreendedor; que está sempre disponível para dar uma linha de passe aos companheiros.

Com a bola nos pés, tudo pode acontecer. O seu futebol, aliás, serve para tudo: é fabuloso a potenciar o bordado de aproximação à baliza, fomentando com critério as associações curtas de progressão participada (leva, toca, foge e recebe à frente) mas deslumbra também com a eficácia de épicas aventuras individuais. O mais importante é revelar extraordinário poder de síntese quando chega o momento de interferir com o jogo. Domina todos os caminhos para o golo, incluindo os atalhos menos conhecidos. Para lá do perfeito sentido de orientação, está apto a responder a qualquer dificuldade: joga de costas e de frente para a baliza; na direita, na esquerda e no meio.

Quando perde a bola, pressiona, rouba ou simplesmente interrompe a saída do adversário; quando a recupera, encara, dá luta, corre, engana, passa e remata. Em jeito de conclusão, Diogo Jota assenta em muitas das características imprescindíveis a um avançado: olfato, precisão, simplicidade, inteligência, coragem, oportunismo, personalidade... Aos 19 anos falta-lhe, como seria de esperar, estatuto para que todos acreditem no seu talento: principalmente os companheiros, para verem nele a solução, e os adversários, para temê-lo como potencial desequilibrador.

À medida que a baliza fica mais perto, o seu futebol enche-se de soluções inesperadas e contundentes. O fenómeno em que está a tornar-se baseia-se no golo. A intensidade com que aborda o jogo é interrompida pelo modo sereno como executa; o estilo frenético que imprime a cada lance leva incorporada a serena convicção de quem anda naqueles terrenos pejados de minas, armadilhas e barreiras eletrificadas como se estivesse a passear no quintal da sua casa. A iminência do êxito, que altera o sistema nervoso central da maioria dos atacantes, a ele dá-lhe para respirar fundo, baixar as pulsações e decidir com a serenidade de um monge budista. É impressionante como o afeto gerado pela entrega, pelos quilómetros percorridos à procura da bola e pela generosa contribuição para o equilíbrio da equipa evolui para o gelo de um assassino profissional, despojado de emoções, quando chega ao momento de testar a pontaria. Dono de articulação motora sublime com a bola nos pés, tem carisma para seduzir toda a gente, incluindo o guarda-redes que pretende superar.

Por tudo isso, o mais impressionante no seu futebol de vistas largas é a percentagem elevada de acerto no tiro, sinal de que é um especialista do último toque. De resto, há muito que Diogo Jota sorri face às conclusões precipitadas do senso comum: encantava no P. Ferreira mas ainda era cedo para jogar num grande; chegou ao FC Porto mas não se lhe via utilidade; um dia será titular do Atlético Madrid e uma estrela do futebol europeu e ainda vai haver quem se surpreenda. É melhor habituarmo-nos à ideia de que não há limites para este craque: tem quase tudo para se tornar uma estrela universal.


O herdeiro dileto da nobre dinastia

André Silva tomou conta de uma terra sem dono, é verdade, mas fê-lo com todos os argumentos para se tornar dono do lugar, Nuno Espírito Santo e Fernando Santos apostaram no seu talento goleador e fizeram-no com tanta confiança e consenso à volta que estão a torná-lo invencível. Parece estar no fim a reclamação de que Portugal não tinha um herdeiro dileto da nobre dinastia dos grandes avançados.


José Gomes não ficará por aqui

José Gomes aproveitou as oportunidades que lhe foram concedidas por Rui Vitória. Mais do que traduzir a resposta em números, importante é fazer o balanço do modo como passou pelo palco mais ilustre do futebol nacional e europeu. Aos 17 anos revela maturidade técnica e emocional fantástica: nunca o vimos ansioso ou deslumbrado. Fez sempre o que sentia mas também o que devia. Não vai ficar por aqui.


Todo o potencial de João Cancelo

João Cancelo cresceu longe dos nossos olhares e nem as Seleções jovens serviram para divulgar o talento que possui. É um defesa construído a partir de qualidades criativas (tomara muitos médios e avançados serem tão desequilibradores), cuja dimensão máxima só será alcançada quando agregar todas as armas defensivas. Falemos só de potencial: é o melhor lateral-direito português das últimas décadas.

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