De Pé para Pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Duelo entre o maestro e o líder

Decorria a época de 1993/94 quando o Benfica recebeu o Parma, em jogo da primeira mão das meias-finais da extinta Taça das Taças. No dia em que completava 22 anos (29 de março de 1994), Rui Costa pegou na bola, avançou com ela da esquerda para o meio; levantou a cabeça, travou e, sem demoras, executou passe magistral com o pé direito, colocando Isaías na cara de Luca Bucci. O brasileiro não traiu a confiança do Maestro e deu seguimento à obra-prima – a águia adiantava-se no marcador aos 7 minutos de um jogo que venceria por 2-1. Passados 24 anos, o milagre teve réplica no Restelo, quando Bruno Fernandes ousou melhorar a pincelada genial de Rui Costa. Poucos seriam capazes de levantar a cabeça, ver a desmarcação e acreditar que, a tão longa distância do destino, poderiam colocar a bola nos pés do avançado (Bas Dost). Nem um centímetro atrás ou à frente; com a força correta e o efeito adequado à receção. Simplesmente maravilhoso.

BF continua a crescer e em breve atingirá grau de maturação superior. Para lá do talento natural, ao nível das mais sofisticadas invenções tecnológicas deste Mundo em permanente evolução, tem ainda no disco rígido espaço para enriquecer em termos táticos. Aos 23 anos, evolui para novo maestro do futebol português, certo de que pode melhorar a já indiscutível expressão internacional que possui. Máxima referência criativa do Sporting e alvo de algumas das maiores potências europeias é um fantástico instrumento de trabalho para JJ, que se prepara para construir um extraterrestre. A exibição frente ao Belenenses foi assombrosa, como novo episódio exaltante de um artista como há muito o futebol português não produzia. Por características mas, também, por dimensão.

No clássico de hoje, frente ao Sporting, que ditará a presença na final do Jamor, Sérgio Conceição apresenta Hector Herrera como bandeira do sucesso. A vitória do mexicano, na qualidade de capitão, futebolista e recente herói do portismo, constitui lição de vida extraordinária; é uma prova de superação feita a partir da firmeza do caráter, do orgulho em ser profissional de futebol e da honra em defender o dragão que traz ao peito; é a capacidade de sofrimento a prevalecer sobre a dúvida, o desrespeito e, claro, a ignorância de sentenças sumárias nascidas nas bancadas e expandidas por essa nova espécie de gurus clubísticos que são os comentadores televisivos.

Acusado de frágil, disperso e pouco talentoso, HH passou a jogar sob tortura. Herdando um jogador recuperado por José Peseiro (que lhe deu a braçadeira) e por Nuno Espírito Santo (que o responsabilizou como cúmplice em campo), SC moldou-lhe a liderança, fê-lo entender os princípios básicos da equipa e transformou-o no capitão operacional no campo de batalha. HH é impressionante no modo como deteta desequilíbrios posicionais; como escolhe a melhor saída para o ataque, mede a temperatura do jogo e antecipa, um pouco por todo o lado e nas mais diversas situações, o cenário que as circunstâncias da luta vão definir mais à frente.

O genial maestro leonino e o arrebatador líder do dragão cruzam-se hoje em Alvalade no auge da expressão individual. BF chega ao clássico com o dragão saído de uma das mais brilhantes exibições que algum jogador efetuou na Liga – incrível o festival de requintes técnicos ao serviço da eficácia e do cumprimento escrupuloso da estratégia definida pelo treinador. Quanto ao FC Porto, tinha vários candidatos a heróis na Luz, porque muitos são os protagonistas de histórias de superação no plantel. Mas nenhuma faria mais sentido e seria tão justa como a de HH, o homem que resistiu à incompreensão dos seus próprios adeptos e abriu as portas do céu à família azul e branca. O duelo, naquele amplo território onde as batalhas se decidem, pode ser um espetáculo inesquecível.

Fejsa chegou
a fazer milagres
O meio-campo do Benfica passou por dificuldades quando perdeu a iniciativa

Fejsa encheu o campo no clássico. Foi tanto e tão bom que limitou ao mínimo os efeitos da superioridade adversária no miolo, mais notória no segundo tempo. Quando a equipa perdeu iniciativa, jogou por ele e um pouco por Pizzi e Zivkovic, que perderam influência, fulgor e capacidade desequilibradora a partir do momento em que jogaram correndo atrás da bola e dos adversários. Fejsa chegou a fazer milagres.

Wilson Eduardo
sem contemplações
Abel Ferreira construiu uma grande equipa, que joga cada vez melhor

Wilson Eduardo não esteve com meias medidas: na noite em que Paulinho levou a desinspiração ao limite de um penálti falhado (remate à barra), assumiu a responsabilidade e fez os 2 golos que lançaram a impressionante vitória do Sp. Braga em Paços de Ferreira (5-1). Os minhotos têm reagido a sucessivos infortúnios como equipa grande que são: se falha um, aparece logo outro a fazer o mesmo. Ou até melhor.

Tomané está
cada vez melhor
Pepa construiu o melhor Tondela de sempre em três anos no primeiro escalão

Tomané está a ser o jogador mais emblemático desse enorme feito que é garantir a salvação a quatro jornadas do fim. O ex-vimaranense depurou qualidades inatas e apetrechou-se de outras que não tinha, ou seja, está a jogar como sempre e a marcar como nunca – atingiu máximo de 8 golos. O ponto da situação é simples: aos 25 anos domina cada vez mais elementos da função que desempenha. E isso é muito bom sinal.

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