Elos perdidos entre a equipa e Jorge Jesus
A qualidade individual será sempre a base do futebol, embora a excelência só chegue com a coordenação de todos os elementos em causa numa equipa. Onze notáveis jogadores não são garantia de sucesso porque, para darem certo, precisam de unir-se à volta de uma ideia superior e congregadora. Foi essa harmonia que desapareceu do Sporting 2016/17 – a corrente de sintonia perdeu-se algures, como se as vias da relação tivessem ficado entupidas aos poucos. Ao fim de cinco meses, a dura realidade está à vista: Jorge Jesus não melhorou qualquer jogador da época passada; viu a deterioração de pedras chave como Bryan Ruiz, William e até Adrien; desaproveitou quase todos os novos jogadores e tornou definitiva situação que julgava transitória.
JJ transportou para Alvalade a superior qualidade do treino e a sedução de um projeto que encerra a conjugação de elementos convergentes como ordem, disciplina, compromisso e lucidez e outros como entusiasmo, talento, aventura e espetáculo. O Sporting foi uma equipa deslumbrante, que se uniu à volta da bola e deu rédea solta à intuição, ao instinto, ao prazer de resolver problemas em conjunto, num estímulo permanente à liberdade criativa. O clube pode só ter ganho uma Supertaça mas JJ conquistou crédito para se tornar senhor absoluto do futebol leonino. Com o amparo de competência nunca posta em causa, puxou dos galões e, sem contraditório, adornou com caprichos, provocações, extravagâncias e outros exageros esse estatuto incontestável. Alvalade assistiu ao melhor futebol das últimas décadas e isso era um bom início de conversa.
Para atacar o título, JJ recebeu Beto, Douglas, Petrovic, Meli, Elias, Markovic, Campbell, André, Bas Dost, Alan Ruiz, Spalvis e Castaignos. O problema não foi ter perdido João Mário e Slimani: a desgraça é que o elã coletivo se desfez, prova de que o treinador não sabia tudo sobre os jogadores ou não foi capaz de potenciá-los como fez noutras ocasiões. Todo um mistério que, no limite, não belisca o essencial: JJ tem uma vida entregue ao futebol, como se nada houvesse de mais importante; apurou o orgulho de pensar o jogo como treinador, não por obrigação profissional mas pela arrebatadora paixão que lhe guia a existência. Só não é perfeito, embora pense o contrário vezes em demasia.
A equipa desintegrou-se porque nunca revelou cumplicidade entre si e a mensagem do treinador deixou de chegar aos destinatários; porque se Gelson explodiu como um dos melhores extremos do Mundo e Bas Dost confirmou talento goleador indiscutível, Bryan Ruiz, Adrien e William Carvalho estão a jogar muito menos. Tem faltado harmonia, compreensão e felicidade em exército no qual nem os novos acrescentaram nem os outros mantiveram o nível. Não será caso para mandar tudo abaixo e fazer de novo. Mas, afastado de todas as competições a eliminar e a 10 pontos do líder, o Sporting terá de estabelecer outras regras para retomar a esperança entretanto perdida.
Bruno de Carvalho, que deu tudo ao treinador, cometeu erros imperdoáveis sempre que se vestiu de adepto privilegiado pela proximidade com a equipa – não lembra ao diabo entrar pela cabina dentro, no final de um resultado comprometedor e com JJ ausente, para recriminar os jogadores com maus modos. Sejamos justos: não foi pelo presidente que a equipa atingiu o ponto de saturação que a afastou de todos os objetivos. Mas mesmo que não seja fácil neste momento resistir a outro impulso para lá de dar nomes próprios ao descalabro, o futuro imediato do Sporting passa, entre defeitos (ego do tamanho do sol, que se julga acima do bem e do mal) e virtudes (infinito conhecimento do treino e instinto futebolístico magistral), por fazer a JJ a justiça de considerá-lo um extraordinário treinador. Dos melhores de sempre na história do futebol português.
Samaris deu
grande resposta
Entre grandes jogadores é sempre difícil dizer qual deles é o melhor
Samaris tornou-se discutível com a afirmação de Fejsa. As comparações fazem sentido só porque desempenham a mesma tarefa, embora o façam de forma diferente. O grego cumpre com valores aceitáveis de segurança e a tendência expansionista para iniciar a construção; o sérvio é exímio no equilíbrio que proporciona. Quem é melhor? É a equipa que deve responder, adaptando-se ao estilo de um e outro.
Notável exibição
de Alex Telles
Ninguém acredita que atingiu a glória com pontapés feitos ao Deus dará
Alex Telles validou, pela precisão de três passes para golo, a ideia segundo a qual ninguém marca ou assiste por acaso tantas vezes em tão pouco tempo. De resto, o brasileiro confirmou com o Rio Ave as qualidades pelas quais discute com o benfiquista Grimaldo o estatuto de melhor lateral-esquerdo da Liga. Cada vez mais integrado no FC Porto e seus automatismos, tem ainda margem para fazer melhor.
Hernâni espreita
afirmação plena
Aos 25 anos, está na idade perfeita para potenciar o talento ao máximo
Hernâni está a demorar tempo de mais a confirmar a qualidade que possui: um extremo de referência do futebol português, estrela do V. Guimarães, daqueles que podem até tornar-se candidatos à Seleção. É incrível a intensidade, a fantasia, a velocidade e a disponibilidade para agir hora e meia, criando desequilíbrios, defendendo, fazendo e oferecendo golos. Vai sendo hora de afirmar-se no FC Porto.
