De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

FC Porto em busca da perfeição

Há equipas que todos sabem como jogam e como travá-las mas que continuam a ganhar; assumem o risco de escolher um estilo, anunciar um modelo, definir uma estratégia mas, mesmo assim, ninguém consegue pará-las - e quando perdem, por qualquer sortilégio do futebol, causam ao adversário alegria só comparada à de uma vitória na Champions. O FC Porto 2017/18, que ainda não passa de um esboço, tem todos os traços de potência, incluindo a agitação emocional que está a provocar entre os seus apoiantes.

Sérgio Conceição está a construir uma equipa que trata bem o público; orgulha os seus, deslumbra os neutros e intimida os adversários; dá amplitude ao talento, rédea solta à intuição e valoriza a liberdade criativa como forma de atingir a felicidade, sem a qual esforço, organização e disciplina podem constituir uma tormenta limitadora da expressão individual de cada um. Até agora, o FC Porto tomou opções claras, colocado perante o dilema de ter ou não ter bola; jogar com esperança ou com medo; fazer do futebol uma festa ou uma guerra. Importante, a partir de agora, é calibrar conceitos complementares como ordem e entusiasmo; tática e liberdade; luta e talento; responsabilidade e ousadia.

A expressão mais forte da opção portista reside em dois pontas-de-lança que, em análise superficial, são mais redundantes do que complementares - Soares e Aboubakar não são Jonas, Rafa, Podence ou Alan Ruiz para combinar com avançados menos hábeis mas mais contundentes como Mitroglou, Jiménez, Seferovic, Bas Dost ou Doumbia. Com dois atacantes mais estritos, o FC Porto identifica o estilo pressionante, que imobiliza o antagonista com facilidade e procura logo (também com Óliver, Corona e Brahmi) provocar-lhe o erro. Uma equipa virada para a frente, com espírito coletivo, jogadores de talento, atitude atacante e ideia de jogo atrevida, orienta-se pelo generoso objetivo de levar em permanência o palco das operações para junto da baliza contrária.

Numa equipa assente no princípio de que o caminho mais curto e seguro para o êxito não é o reto (vai pelos atalhos com convicção, despojando o passe longo do reportório), a presença de dois atacantes fortes, rápidos, móveis, inteligentes e com faro de golo, com mais semelhanças do que diferenças, tem implicações na definição das prioridades: uma equipa que dá mais relevância à bola do que aos espaços; que conhece a importância do toque e sublinha a beleza da cerimónia brilhante e contagiosa da multiplicação do passe que, por norma, é a deslumbrante antessala do golo. Esse estilo recupera sentimento e tradição; gera entusiasmo e esperança pelo modo como atinge uma expressão plástica majestosa, pertença da identidade coletiva de que os adeptos são a base mais sólida. Um futebol que suscita tantas emoções tem a vantagem mobilizadora da paixão. Ver o FC Porto 2017/18 jogar tem sido um grande espetáculo.

A opção de Sérgio , no entanto, comporta riscos. Um exército tão aventureiro precisa de monopolizar a bola porque, se a não tem, sofre mais do que uma equipa normal. É verdade que usufrui dela na maior parte do tempo e a trata com esmero; mas se lha roubam em certas zonas e momentos do jogo pode conceder espaços fatais. Para que os defesas não sofram sucessivos ataques de nervos todo o cuidado será pouco. Uma equipa assim precisa de cuidar com esmero do seu equilíbrio estrutural e não abrir brechas; está obrigada a cuidar das suas costas porque o adversário, galgando a primeira linha de pressão, pode encontrar um latifúndio para explorar - se der tréguas este Porto tem a essência de uma extraordinária equipa mas, para lá chegar, não pode ficar pelas meias-tintas: necessita da perfeição. É para isso que Sérgio Conceição trabalha. E há fortes motivos para acreditar no seu êxito.

Jogador único
em Portugal

Pizzi é daqueles que chegam aos factos centésimos de segundo antes de sucederem e pensam duas jogadas à frente; onde outros veem muralhas inexpugnáveis, ele deteta-lhes buracos para criar pânico; onde quase todos lamentam a falta de condições para operar desequilíbrios, ele escolhe a melhor forma de aproveitar o espaço que só ele consegue inventar. É um jogador único em Portugal. E raro na Europa.

A titularidade de
Bruno Fernandes

Jorge Jesus cometeu um ato de justiça ao dar a titularidade a Bruno Fernandes na estreia oficial da época - deixar Podence no banco, apesar de tudo, não foi tão chocante. Mas colocou o médio numa função que não é a dele e o jovem acusou a mudança - sente-se muito mais confortável perto do jogo. Quando Podence o rendeu no apoio a Bas Dost, a equipa resolveu uma série de problemas. Como era de esperar.

Decisão será
sempre do juiz

Salvio fez-se ao lance, a bola bateu-lhe no braço e o jogo foi interrompido. Soares Dias esperou então por uma comunicação do vídeo-árbitro, recebeu-a e mandou seguir. A questão é simples: parecendo óbvio que o juiz viu o contacto entre a bola e o braço do argentino, quis saber apenas os moldes em que ele aconteceu. O árbitro entregou a decisão de interpretar o lance ao vda. Ouviu o que ele disse e deu o caso por terminado. Na prática não foi uma decisão sua. E tinha de ser.

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