De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Gelson e o fim da espécie

A copiosa e surpreendente derrota do Sporting em Vila do Conde confirmou que Jorge Jesus ganha sensatez nos momentos maus. De resto, esse desaire foi apenas um acidente de percurso, porque a sua proposta encerra a grandeza de uma ideia sedutora, cumpre o legado histórico do passado leonino e é, ela própria, uma fonte geradora de esperança. JJ tornou-se uma figura esmagadora no futebol português, que todos compreendem, muitos não alcançam e outros denigrem insistindo na irrelevância de episódios menores. Para esses, que vivem no rés-do-chão, JJ voa alto de mais para ser atingido por caçadeiras fora de época, muito menos pelas fisgas primárias de argumentos que nada têm a ver com o seu talento. Como sucede há quase uma década, JJ faz as delícias dos clubes que representa. Na presente época encontrou nova fonte de riqueza da cantera de Alvalade: Gelson pintou a manta com o campeão europeu e foi o melhor leão com o Rio Ave.

Agora que a Seleção Nacional atingiu a máxima glória com alas a jogar no eixo do ataque (CR7, Nani e Quaresma) e entrega os flancos a médios de zona central (João Mário, Renato Sanches e André Gomes); que Pizzi (Benfica) e Otávio (FC Porto) são centro-campistas com golo incorporado, iniciando a ação pelas bandas, cabe a Gelson mostrar que vale a pena ser extremo num futebol sem extremos; que pode ser tremenda mais-valia resistir ao repetidamente anunciado fim da espécie, até porque estamos perante um jogador com todas as virtudes e nenhum dos defeitos dos virtuosos que, ao longo da história, fizeram vida nas faixas laterais: sendo apenas um projeto, já definiu um estilo e revelou argumentos que lhe permitem escapar às acusações vulgares de extravagância, exibicionismo, intermitências, individualismo…

Num meio em que todos se empurram para alcançar o êxito; onde a competitividade excessiva legitima qualquer indignidade para se atingir a glória, Gelson responde com a genuinidade dos 21 anos e um talento sem idade nem limites. Agora que tudo conta para alimentar o mercantilismo desorbitado que orienta o futebol, ele é um extraterrestre que põe tudo no lugar e prova que o jogo se renova à velocidade do som. Sem aviso prévio, a grande sala de espetáculos do Bernabéu, uma das mais ilustres da história do futebol, rendeu-se à magia de um miúdo que teve o desplante de pisar o grande palco como se estivesse a jogar na rua dele; que levou ao limite a irreverência adolescente de entrar na catedral como se fosse a pastelaria do bairro e agir perante os venerados deuses do Real Madrid como se fossem homens de carne e osso; que assumiu o duelo com um dos melhores laterais-esquerdos do Mundo (Marcelo) e lhe infernizou a vida de princípio a fim.

É essa autenticidade que o leva a tornear as dificuldades e a dimensionar a fantasia; é a paixão pelo jogo que lhe permite ampliar o génio e acreditar nele até à insolência. Gelson é tão perfeito a executar que cumpre os requisitos da eficácia quer em quadros individuais como em soluções de envolvimento coletivo; tem tantas e tão boas soluções que é um fenómeno quando pega na bola, segue junto à linha lateral e executa cruzamentos apimentados à procura de um simples toque, mas também quando entra em diagonal no meio, onde revela tiro ao nível dos melhores goleadores. Sim, está no início da carreira e um jogador deve ser avaliado por toda a trajetória e não apenas pelos últimos 90 minutos. Mas há verdades que entram pelos olhos dentro: é um craque talentoso, rápido, inteligente, imprevisível, atrevido… Basta que continue assim (e vai melhorar em tudo) para ser uma das pedras mais preciosas da ourivesaria de Alcochete. Mesmo sabendo que o mercado tem regras específicas, com as quais tomarmos consciência da nossa insignificância, não precisa de um milagre para, no final da época, valer uma fortuna.


Gil Dias não é jogador normal

Gil Dias pintou a manta frente ao Sporting e foi o rosto da notável exibição do Rio Ave. Aos 19 anos, já tem uma história para contar: benfiquista, dispensado pelo Sporting, campeão pelo Sp. Braga, jogador do Monaco, internacional português nos sub-19. A exibição com os leões não faz dele um grande jogador – quanto a isso estamos conversados. Mas nunca um jogador vulgar atingirá nível tão elevado.


João Palhinha dará que falar

João Palhinha fez exibição deslumbrante em Guimarães e nem precisava do golo do empate do Belenenses para confirmar as expectativas que lhe apontam um futuro brilhante. No Restelo terá a possibilidade de jogar com regularidade e crescer. Aos 21 anos, o tempo correrá a favor da consolidação de competências e da experiência para atacar o grande desígnio da carreira: o lugar de William Carvalho no Sporting.


Imenso potencial de José Gomes

José Gomes não é apenas fruto de um novo paradigma, pelo que a sua aproximação à equipa principal não resulta da aposta cega em jogadores da casa. O miúdo tem muita qualidade (já se percebera no Europeu de sub-17) e frente ao Sp. Braga confirmou potencial em 10 minutos. Movimenta-se bem, recusa a ansiedade e nada faz ao acaso – podia ter feito golo num remate intencional, forte e bem direcionado.

Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação desportiva.
  • conteúdo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão epaper do jornal no dia anterior
  • conteúdos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.

0