De Pé para Pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Generais da grande batalha

O clássico é muito mais do que um jogo; é uma orgia de sensações que preenche o homem da cabeça aos pés e atravessa-o de um lado ao outro. O Benfica-FC Porto é daquelas raras ocasiões em que, ao mesmo tempo, as massas populares são impulsionadas por amor, ódio, vergonha, orgulho, medo, paixão, sadismo, tudo em nome das memórias de infância, da eterna busca de uma identidade, do desejo de vingança e até da catarse social. A abordagem pode parecer exagerada, porque o futebol é apenas a mais importante das coisas irrelevantes da vida; o problema é que tudo quanto afeta felicidade e frustração; alegria e tristeza; esperança e resignação; euforia e depressão assume relevância extraordinária para qualquer ser humano. O clássico não atribuirá o título mas pode encaminhá-lo, outorgando a um dos exércitos o estatuto de favorito.

Rui Vitória e Sérgio Conceição correspondem aos parâmetros ideológicos dos clubes que representam: os de sempre (uma estética centenária difícil de alterar) e os mais imediatos (mais formação para a águia, mais Porto para o dragão). RV tem esmagado pela elegância do discurso aqueles que se entretêm a desempenhar o papel de carrascos fracassados dos seus méritos; tem respondido às críticas, a maior parte das quais sem substância, com resultados, trabalho e criação de riqueza. Quando o direito de opinar se transforma em bullying, o melhor é seguir o raciocínio de César Luis Menotti. O mestre argentino, acossado pela "ignorância presunçosa" dos seus detratores, afirmou que cinco minutos à mesa de um café bastariam para os desmascarar. RV assumiu o comando benfiquista em tempos de desinvestimento mas foi certeiro na coordenação dos elementos técnicos, táticos e emocionais do grupo; criou harmonia, defendeu a cultura do clube e conquistou a confiança do exército pela via de saber, diálogo, bom senso e educação.

Na escola construída a partir de conflito e espírito de conquista que forjou caráter, definiu um perfil futebolístico e validou um manual de comportamento, SC começou por ser o lídimo representante da sensibilidade portista, que o tempo depurou como forma de estar na vida. Desde Julen Lopetegui que o FC Porto procurava um treinador cuja força incidisse, de imediato, na defesa do código genético do clube, que o pulsar dos adeptos guarda como um mandamento sagrado. Ao contrário de quase todos os líderes nos últimos 30 anos, que dirigiram a nau segundo a lógica da manutenção do sucesso, SC entrou para recuperar o que foge há quatro anos, com a agravante de fazê-lo sem recurso ao mercado. O primeiro impacto foi tremendo mas desfocou os verdadeiros fundamentos da empreitada. O seu trabalho excede em larga escala o papel de aglutinador da alma azul e branca. Não é pelo discurso certeiro ou pelo sentido de representação da pátria que merece os elogios pelo grande trabalho. O mérito maior está na qualidade do treino, no modo como aceitou impor os conhecimentos ao serviço de um grande clube e operacionalizar uma proposta ousada, sim, mas na qual todos acreditaram desde o primeiro minuto.

RV tem o penta para conquistar, SC um império para reerguer; um está às portas da história, consolidando a hegemonia encarnada, o outro assume com coragem o desígnio de fazer prova de vida que ressuscite a esperança e estimule o orgulho. Ambos são fruto do saber, do estudo, do treino, do caráter, da boa comunicação e do incrível talento a propagar as ideias pelos seus futebolistas. RV parte com duas vantagens: tem 1 ponto a mais e joga em casa. Nada que SC não possa reverter a seu favor. O clássico vai parar o país e o futebol confirmará toda a grandeza como negócio, espetáculo, expressão cultural e fenómeno social. Muito do êxito dependerá dos generais que comandam a grande batalha. Sendo RV e SC não temos com que nos preocupar: estamos em boas mãos.

A boa resposta
de Bryan Ruiz
O Sporting deu-lhe o Mundial; ele deu ao Sporting soluções que não tinha
Bryan Ruiz foi afastado do grupo e readmitido já em plena época. O modo como recuperou a confiança plena de Jorge Jesus suscita um mar de dúvidas para as quais nunca foram dadas respostas válidas. O costa-riquenho tem sido, por norma, um dos melhores e mais influentes jogadores do Sporting, confirmando o talento superior que o caracteriza. Em Madrid e com o P. Ferreira assumiu-se como o patrão da equipa.

André Horta é
grande projeto
Os Estados Unidos não parecem a melhor opção para um jovem com 20 anos
André Horta retomou em Braga o fio à meada de uma carreira muitíssimo promissora. Quando surgiu como titular do Benfica e pareceu eternizar-se no onze de Rui Vitória (início de 2015/16), tudo indicava que o futebol português conquistara um médio de zona central de qualidade superior. Desapareceu de circulação e foi emprestado ao Sp.Braga, onde Abel Ferreira reconstruiu o projeto e redimensionou-o.

A boa pinta
de Jhonatan
O Moreirense está em posição mais confortável. E o guarda-redes tem ajudado
Jhonatan está a fazer temporada notável, mais ainda por partir de duas situações delicadas: aos 26 anos, está a fazer a primeira temporada na Europa e representa uma equipa que tem vivido em permanente dificuldade desde o início da temporada. Está por definir com total precisão se o perfil de adapta a outras realidades mas, no Moreirense, é perfeito no modo como interpreta as necessidades da equipa. Tem pinta.

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