De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Gonçalo a cumprir o destino

O físico de sprinter e o espírito de lutador sugerem apenas sensações explosivas e vertiginosas; os blocos de partida para as loucas correrias a que se propõe podem estar à direita ou à esquerda, mais atrás ou mais à frente – o primeiro instinto é vê-lo mais como atleta pronto a ir ao fundo de si mesmo do que propriamente como futebolista, até porque a estética não ajuda quando arranca, de cabeça baixa, com a bola nos pés, aparentemente indiferente ao que o rodeia. Gregorio Marañón (1887-1960), médico, escritor e filósofo espanhol, não pensava no pontapé na bola quando verbalizou um dos grandes problemas do futebol nas últimas décadas: "A velocidade, que é uma virtude, cria um vício, que é a pressa." É precisamente na contextualização desse raciocínio que Gonçalo Guedes sustenta armas futebolísticas extraordinárias que o têm transformado numa das grandes figuras da liga espanhola. Ao contrário de outros, não é preciso dizer-lhe que nem todas as iniciativas acabam em golo; que há vantagens em jogar com os outros e a velocidade pode ser inimiga da precisão.

Por consistência tática, físico e talento, GG pode jogar nos dois flancos e iniciar a ação a partir de terrenos que o definem como extremo ou médio – está apto para o 4x3x3 e para o 4x4x2. Mas é tão abrangente e multifacetado que pode até evoluir na zona central, como ponta-de-lança puro ou como avançado mais recuado, estabelecendo ligação entre a equipa e o golo, à semelhança do que fez no Benfica durante os meses da época passada em que Jonas esteve lesionado. É um atacante de toda a frente ofensiva, por onde se move com visão e agressividade; que conquista pela entrega generosa mas só atinge o máximo quando toma decisões, a esmagadora maioria das quais contundentes. É um jogador para quem a travagem é tão importante quanto a aceleração; que não quer enganar, atropela; não lhe interessa chegar primeiro, mas chegar bem; parecendo simpático, não tem contemplações com os adversários.

Assumindo o perfil de constante detonador de armadilhas nos terrenos que pisa, GG assenta numa das principais armas dos jogadores de eleição: nunca tem urgência no que faz, mesmo quando dispara a 250 km/h, para galgar terreno e ultrapassar quem lhe surge ao caminho. Ao contrário de tantos outros, a velocidade supersónica de deslocamento, o frenesim dos gestos e os impulsos reveladores da obstinação que o comanda transportam a frieza necessária ao cumprimento da missão e a inteligência sem a qual o rasto de desgraça que para trás fica não teria consequências. No fim das loucas correrias, que deixam tudo fora do lugar, há sempre o momento das opções acertadas, refletidas e até estudadas. Não é normal que um cavalo selvagem deslumbrante conclua com a serenidade de um monge budista, que olha, vê, analisa e resume tanto esforço a um passe milagroso que deixa o golo à distância de um simples toque ou que ele próprio assina, tantas vezes com desvios subtis e surpreendentes.

Antes de despertar para a regular exaltação de um futebol superior, que conquistou Valência e o campeonato espanhol, GG revelou a consistência emocional de um jovem precocemente maduro, que entendeu cada missão tática que lhe foi concedida e nunca se diminuiu por lhe exigirem menos do que o talento criativo permitia oferecer. Picasso dizia que "a inspiração, quando chega, apanha-me sempre a trabalhar". A GG também nada lhe cai do céu: quando as musas acordam já ele está suado de tanto trabalhar para a causa como qualquer operário. Desde criança que ouve os elogios merecidos para a qualidade desde logo revelada. A sua grande vantagem foi saber interpretar cada passo da carreira até reunir condições para cumprir o destino de toda a vida: transformar-se num dos melhores jogadores portugueses.


A insatisfação
de Seferovic

Perdeu o lugar e, pior do que isso, tornou-se o 3º avançado da equipa

Seferovic não entende a opção de Rui Vitória. Como sempre acontece nestas circunstâncias, o suíço não se queixou para ouvir explicações mas para pressionar o treinador a mudar de opinião, tarefa normalmente condenada ao fracasso. Aliás, é evidente que as razões estão na mudança de sistema – e as táticas são um exclusivo do treinador. Perdeu uma boa ocasião para estar calado.


Bruno Fernandes
com boa resposta

O médio leonino não foi engolido pelo desacerto da Seleção Nacional

Bruno Fernandes foi, de entre aqueles que não estão garantidos no Mundial, quem melhor se expressou com a Holanda. É bom que o tenha feito porque, em comparação com as restantes opções, é o único médio a desempenhar a função de apoio ao avançado. Face ao desastre coletivo com a Holanda, seria injusto que alguém fosse riscado por isso. Mas há disponibilidade para enaltecer quem se salvou.


A convocatória
mais complicada

Se o Mundial fosse para a semana, Fernando Santos tinha muito que pensar

Abdiquemos de refletir sobre 11 (3 guarda-redes e 8 defesas) dos 23. Dos 12 que sobram, 8 estarão garantidos (William, Danilo, Moutinho, Gelson, Bernardo Silva, Quaresma, André Silva e CR7), pelo que só faltam 4. A sair do seguinte grupo: João Mário, Adrien, André Gomes, Manuel Fernandes, Bruno Fernandes, Gonçalo Guedes, Rony Lopes, Nani… Irra! Quem disse que o cargo de selecionador é fácil?

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