De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

João Mário no patamar dos deuses

Tem a expressão serena de quem recusa viver sobressaltado mesmo quando percorre as estradas armadilhadas do centro do terreno; é um condutor extraordinário, preciso, seguro, imperturbável, que sabe manejar a velocidade e nunca se equivoca nos caminhos. Em silêncio faz do futebol um espaço de liberdade (e responsabilidade); da bola um objeto de rebeldia pessoal (e comunitária); do relvado o palco predileto para se mostrar como é (um artista da bola). João Mário tem confiança quase insolente no talento que o abençoou, cujos alicerces consolidou e desenvolveu ao longo do tempo, de tal forma que já mandou fora o manual de sobrevivência a que os jovens recorrem para resistirem à pressão nos grandes clubes.

É incrível como, em silêncio e agora desviado do centro de comando das operações (entre a direita e o meio), desempenha papel tão preponderante na equipa. Aliás, se o Sporting pratica um futebol espetacular, articulado, amplo e equilibrado deve-o, em grande parte, à intervenção de João Mário. O seu jogo inteligente, seguro e grandioso tem como base a ciência inconsciente que advém de genes que o acompanham desde o berço e da orientação dos mestres que apanhou pelo caminho, com especial relevância para aqueles que o conduziram ao nível superlativo exibido nos últimos anos (José Couceiro, Marco Silva e Jorge Jesus). João Mário tem qualificações individuais sublimes mas não é efeito sem causa: precisa de contexto para se expressar e de uma equipa à volta para atingir a plenitude; não ganha sozinho (porque não é Ronaldo ou Messi) mas ajuda a resolver problemas que, sendo de todos, precisam da contribuição de quem ponha assinatura no passe, na assistência e até no último toque (já lá vão 7 golos na época). No Dragão, por exemplo, Slimani foi herói de um jogo no qual João Mário ditou quase todas as leis.

Ao recreio desenvolvido na juventude acrescentou os elementos de que são feitos os grandes jogadores: valorizou os antagonistas que o temem, as plateias que o adoram e os companheiros sem os quais o sucesso total é impossível de atingir. João Mário é tão brilhante no modo como entende o jogo que já riscou do reportório os valores supérfluos de exibicionismo e extravagância. Mesmo quando não recebe o sinal divino da inspiração e não acende a luz que ilumina o caminho para a glória, entrega-se e luta como qualquer operário da comunidade. É um dos melhores médios do futebol europeu e um futebolista de fácil inserção em qualquer equipa: que soma e multiplica (todos jogam melhor com ele por perto); que nos dias menos bons tem sempre algo para dar à equipa e nos melhores evidencia a maravilha que é vê-lo reverter a bênção de argumentos individuais num contexto mais amplo. Não tem magia nem perfil para ser "alegria do povo" mas aproxima-se tanto da perfeição que todos se curvam perante o seu talento. É um craque universal e indiscutível.

João Mário é uma brisa suave e refrescante que alivia o espetador, ameaça o adversário e inspira a equipa. É uma enciclopédia interminável, que elevou o amor pela bola à paixão pelo jogo; interpretou o egoísmo próprio de quem sente estar um degrau acima dos outros e transformou-o em solidariedade em nome do bem-estar coletivo; valorizou tanto o futebol em todas as vertentes (como jogo, espetáculo e indústria) que jamais o reduzirá a uma única parcela. Diz-se que o talento, quando ultrapassa determinada dimensão, oferece asas para voar. Aos 23 anos, como referência do Sporting de Jorge Jesus, já viaja pelo céu em busca do lugar sagrado que lhe cabe no altar dos maiores do seu tempo. Mesmo sem ter chegado ainda ao patamar dos deuses, já é um extraterrestre. Não tarda será génio de outra galáxia a ditar ordens numa das cinco ou seis melhores equipas do Mundo. O mercado não pode ficar insensível a um tesouro destes.


Renato Sanches é estrela maior

Sobre ele deve dizer-se que a procissão ainda nem sequer saiu do adro

Renato Sanches melhorou o Benfica, é o rosto da reviravolta na Liga e acabará, fatalmente, por dar nome ao campeonato. Entre o talento que mostrou e a imaturidade revelada em determinados momentos da época – o mais marcante dos quais a expulsão infantil no Funchal –, a balança pende para o que fez de melhor. A transferência para o Bayern é corolário do muito que jogou em 2015/16.


O grande legado de José Peseiro

Está a consolidar-se como bom ponto de partida para a próxima época

Sérgio Oliveira é a grande contribuição de José Peseiro para o FC Porto do futuro. Tendo começado como último de um vasto lote de médios para três lugares (Danilo, Rúben Neves, André, Herrera, Evandro, Imbula…), o capitão dos sub-21 que foram vice-campeões da Europa em 2015 acaba a época como um dos maiores projetos do futebol português. Deram-lhe confiança e ele soube geri-la. O resultado está à vista.


Vários modos de jogar bem

Barcelona e Bayern Munique falharam o acesso à final da Liga dos Campeões

Muitos defenderam a ideia de que, afinal, bom mesmo é jogar como Real Madrid e At. Madrid – sinal de que não falta quem prefira a mediocridade e o mau-gosto à grandeza e ao belo, desde que a essas opções corresponda uma vitória. Provado ficou, isso sim, que não existe apenas uma forma de jogar bem. E que o estilo, sendo muitíssimo importante, não chega para garantir vitórias por antecipação.



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