De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Maxi Pereira é o futebol

Sendo cultura, porque a ele está associado um modo de ser e a ele correspondem uma sensibilidade, um estilo e uma história, o futebol não escapou ao crivo implacável do tempo. Em plena globalização do Mundo, a uniformização dos valores está a ganhar pontos à especificidade das paixões tradicionais. O Brasil é um bom exemplo: a seleção que passou décadas como reserva espiritual desvirtuou o código genético sustentado em magia, individualismo, fantasia e permanente aventura com os elementos europeus de pragmatismo, sentido coletivo, responsabilidade e maturidade tática. O FC Porto lamenta os desvios quase irreversíveis à identidade que o trouxe das origens modestas à máxima glória europeia e mundial; e não aceita que, depois de atingir o céu à custa de valores emocionais, compromisso e sentido de representação assimilados na escola azul e branca, se tenha rendido à força do mercado, naquela que foi a maior debilidade de Julen Lopetegui – ter uma grande equipa sem raízes ao meio que representava.

Foi neste contexto de aposta no presente, sem olhar para o passado nem cuidar do futuro, que surgiu Maxi Pereira, um daqueles jogadores que trazem respostas para quase todas as crescentes deceções dos povos que representa. Há cada vez menos produtos das escolas habilitados a detonar elos sentimentais que remetam para as mais profundas raízes das famílias, uns porque ficam na sombra e nunca adquirem estatuto, outros porque partem cedo de mais para assumirem a herança da alma construída pelos antepassados. No caso do FC Porto, André André e Rúben Neves não chegam para criar uma corrente, razão pela qual um jogador como o uruguaio é tão importante. Maxi tem o perfil de quem assimila, se adapta e executa os princípios do meio onde vive. Antes, as equipas refletiam o sentir dos adeptos, porque eram feitas da mesma matéria e correspondiam a um estilo que as identificava. Já não é assim.

Os futebolistas, na sua maioria, eram adeptos privilegiados, que faziam parte da família desde tenra idade, conheciam os cantos à casa e reviam-se nas preferências e na linha de raciocínio que unia a tribo. Hoje são exércitos de fé, compostos por gladiadores implacáveis, de quem as bancadas esperam sucesso, muitas vezes com surpreendentes exigências – há circunstâncias em que as vitórias não os satisfazem na totalidade. A condescendência diminuiu precisamente porque a maioria das equipas refletem apenas, e de um modo geral, o profissionalismo de quem fala a linguagem universal do futebol. Maxi é muitas vezes acusado de frívolo e volátil. Não falta quem atribua à sua intervenção persistente e esmagadora um afã demagógico que compromete a eficácia; que a sua oferta atlética mutila a expressão futebolística e o espírito empreendedor de quem luta para chegar aos lances como solução os transforma muitas vezes num problema. Acusação que, de resto, é muito injusta.

Nascendo do outro lado do Atlântico, Maxi aprendeu a sentir o pulsar das comunidades em que está inserido. Mais do que um jogador potenciado a todos os níveis (tático, técnico e físico), à procura de consolidar vínculos às equipas que representa, tornou-se peça fundamental dos alicerces emocionais desses clubes. Poucos no atual plantel azul e branco interpretam o dragão que trazem ao peito como ponto mais alto ou destino final da carreira. Numa equipa sem referências culturais, em contraponto com o império de glórias planetárias construído no passado, Maxi compensa a ausência desses símbolos perdidos pelo caminho. Ao fim de oito anos na Luz, dele se disse que era um jogador ‘à Benfica’; com seis meses no Dragão, consolida a imagem de um jogador ‘à FC Porto’. A mística dele, no fim de contas, é o futebol. O futuro também passa por aí.

Montero a fazer época tremenda

O suplente costuma viver infeliz e gosta de mostrá-lo à sua volta.

Montero perdeu o braço de ferro com Slimani. A questão, porém, é que o colombiano estava a fazer uma época tremenda, marcada por golos decisivos, todos em jogos iniciados no banco. Frente à Académica, deu a vitória ao Sporting e não festejou. São sempre difíceis de gerir os casos em que alguém faz explodir um estádio e depois se incomoda com o barulho dos foguetes. É grande jogador. Podia ser um fenómeno.

A bela resposta de André e Eliseu

É habitual que os adeptos definam alvos para mostrar alguma insatisfação.

André Almeida e Eliseu são vistos como elos mais fracos do Benfica de Rui Vitória. O primeiro porque não tem talento para desequilibrar, o outro por ser impreciso para a máxima responsabilidade de quem atua atrás. Nas últimas semanas, porém, ambos têm dado respostas de máxima segurança e alguma criatividade, prova de quem nem tudo o que se diz é verdade. Com o Moreirense estiveram irrepreensíveis.

Cosme Machado em duplo erro

O processo de validação do 2.º golo da Académica em Alvalade foi anormal.

Cosme Machado cometeu erro grosseiro ao não seguir a indicação de Alfredo Braga, o assistente que indicou (bem) o fora-de-jogo de João Real – claro que teve interferência no lance, mesmo sem tocar na bola. Mas pior ainda, e não era fácil piorar, foi a explicação posterior, aliviando a responsabilidade de um modo inacreditável. O juiz chegou a dizer que validou uma decisão do assistente. Ele há cada um!...


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