Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

Muito deve o futebol ao V. Guimarães

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Face ao desprezo cultural que o diminui, a grosseira utilização do poder político e a indiferença social que pretendem atribuir-lhe, o futebol luta pelo respeito que merece, exigindo ser tratado de acordo com a capacidade de mobilização massiva que o caracteriza. O jogo primitivo adaptou-se à condição de novo-rico , razão pela qual sobressai o fantasmagórico exemplo vimaranense, feito de orgulho, compromisso e referências sociais. No Jamor, o imenso exército branco de Pedro Martins suscitou aviso automático ao futebol negócio e à ideia de que tudo se resume a perder ou ganhar; os adeptos encheram as bancadas e mostraram, à custa de apoio incondicional, que o pontapé na bola também pode estar na génese de lições que ressalvam a sua condição de escola de vida, acentuando o clube como exemplo da identidade cultural da cidade, do povo e da sua história.

A final da Taça de Portugal confirmou o futebol como vínculo sentimental para recuperar os alicerces do meio que representa. Só assim se pode atingir grandeza – e desenganem-se aqueles que acreditam em magnatas salvadores com segundas intenções, que desvalorizam o passado em nome do lucro, convencidos de que a entidade coletiva do clube é, afinal, coisa de um homem só e seus interesses pessoais.

O estilo no futebol corresponde a uma sensibilidade, prossegue como vínculo ao sentido de representação e acaba como reflexo de uma cultura. O V. Guimarães continua a mostrar a sua essência de escola que forjou caráter e criou uma estética na relação entre palco e plateia – nada de extraordinário, não fosse o caso de a base de apoio ter força e dimensão só comparáveis às maiores potências. A relação é tão intensa que o resultado deixou de ser tudo e só um clube especial pode encarar a competição segundo a ideia de que nem todas as vitórias servem e nem todas as derrotas constituem tragédias. A resposta à derrota com o Benfica foi um rude golpe na habitual divinização do sucesso – perder pode não ser uma catástrofe se o trabalho for bem feito e houver noção generalizada de dever cumprido.

A camisola branca com o símbolo de D. Afonso Henriques está incorporada no mais singelo sentimento que une os vimaranenses à vida e às suas raízes. É como se pertencessem a uma tribo, unida à volta dos seus mitos, dos seus ritos e dos seus heróis. São milhares e milhares de cidadãos fiéis pelas memórias da infância, pela eterna busca de uma identidade, pelo desejo de afirmação, vingança, catarse social e felicidade. A manifestação na final da Taça foi emocionante, comovente até; empolgou a família, contagiou os adeptos neutros e ainda seduziu alguns benfiquistas, sinal de que a paixão pode ser um espetáculo sublime, mesmo quando é executado por quem vive em pleno campo de batalha. Foi impressionante a confiança depositada na equipa, a convicção revelada num resultado vitorioso e a gratidão pela entrega dos gladiadores na defesa da bandeira, mesmo vergados a uma derrota que, em vez de desiludi-los, lhes consolidou o orgulho.

O percurso vimaranense nas últimas quatro décadas é orientado pelo desenvolvimento de uma grandeza evidente e incomensurável, entrecortada com episódios menores que devolveram a nação à estaca zero. O percurso teve paragem em muitas estações e apeadeiros, sinal de que nunca foi possível conjugar todos os elementos de que é feita uma potência. A espantosa demonstração no Estádio Nacional transportou mensagem indiscutível: quando conjugar essa monumental força popular a uma gestão que conduza à prosperidade financeira (a de Júlio Mendes está no rumo certo) e formar uma equipa capaz de atingir a perfeição, será uma potência excecional e temível. Um dia, e pode demorar 10, 20 ou 30 anos (só gostava de ainda cá estar para ver), cumprirá o destino que desenha há anos e vem consolidando com armas cada vez mais fortes: ser campeão nacional.

A importância de Raúl Jiménez

Marca menos do que Mitroglou mas isso tem a ver com a diferença de estilos

Raúl Jiménez é um avançado de traços largos, com vasto campo de ação e energia para hora e meia. O mexicano, com deslocamentos amplos e constantes, dá saída ao futebol direto que o Benfica utiliza com parcimónia – jogadores como ele são tão úteis quanto imprecisos nos gestos da finalização. De qualquer modo, quando está em forma, contraria toda a lógica: é mais frio do que parece na cara dos guarda-redes.

Pedro Martins está identificado

Superou sempre as expectativas: no Marítimo, no Rio Ave e no V. Guimarães

Pedro Martins é um treinador assente em convicções de ferro e enorme capacidade de adaptação a realidades distintas. É também um homem com inexpressão facial, que dá um sorriso de seis em seis meses e cujo discurso tem sempre conteúdo. À vontade perante câmaras, microfones e qualquer outra exigência comunicacional, o que melhor o identifica como excelente treinador são as equipas que dirige.

Sérgio Conceição reabriu as portas

O notável trabalho ao serviço do Nantes reabriu-lhe quase todas as portas

Sérgio Conceição nunca será uma surpresa. Ganhará ou não como todos os outros mas há elementos da sua personalidade e de entendimento do treino e do jogo que são conhecidos. Quem o contratar pode alegar tudo menos desconhecimento em relação ao homem e treinador que é. Para lá do domínio cada vez mais consistente da função, tem ainda uma vantagem: é um soldado das causas que defende.

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