De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Muito mais do que um simples xerife

Dizia um dos grandes centrais da história do futebol, que atravessou o Atlântico para triunfar na Europa e conquistar o Mundo, que o primeiro impacto com os padrões defensivos de referência no Velho Continente lhe travou a afirmação automática em Portugal. José Carlos Nepomuceno Mozer transportava, aos 27 anos, um fabuloso talento em bruto mas trazia o disco rígido quase vazio em termos táticos. Não lhe foi fácil assimilar a preenchida cartilha de Toni, que assumiu o cargo de treinador do Benfica em substituição de Ebbe Skovdahl (1987/88). A complexidade das combinações necessárias para harmonizar a ação defensiva não permitiu que se impusesse mais cedo. O próprio Mozer confidenciava que, em jogo, não conseguia processar a informação na totalidade, pelo que, quando tinha de tomar decisões (atacar o adversário, ter olhos na bola, defender o espaço, articular-se com as necessidades…), ia ao homem e travava-o de qualquer maneira. Era uma questão de sobrevivência.

Também com 27 anos, Felipe revelou alicerces suficientemente fortes para abordar o embate de trocar a América do Sul pela Europa e o Corinthians pelo FC Porto. Porque as diferenças são hoje menores do que há três ou quatro décadas, o choque teve efeitos menos comprometedores. Marinho Peres, capitão do Santos de Pelé e do escrete canarinho em 1974, tinha igualmente 27 anos quando foi contratado pelo Barcelona, referenciado pela esmagadora figura de Cruyff. No primeiro treino de conjunto em Camp Nou, marechal Michels gostou do que viu mas fez um reparo: teria de jogar 20 metros à frente. Isto é, tinha de refazer por completo o futebol que aprendera e consolidara.

Felipe tem o estilo guerreiro e o temperamento destemido de quem joga, a cada instante, não apenas a dignidade pessoal mas, principalmente, o bem-estar da comunidade em que está inserido. No início cometeu exageros nocivos, todos relacionados com a imprudência na abordagem aos lances – incapaz de avaliar as situações em toda a sua extensão, tornava-se perigoso nas duas áreas, autêntica montanha-russa entre acertos relevantes e erros comprometedores. Não é esse o registo do grande central.

O tempo está a conduzi-lo para patamares de excelência e a orientar-lhe o estilo para as novas exigências. Está a ultrapassar o culto do xerife, que encarna a autoridade máxima por delegação; para quem mandar é puxar dos galões, mostrar as garras e exorbitar da função que atribui a si próprio, agindo como se a lei fosse ele. Esse desejo perverso de demarcar o terreno e agredir potenciais invasores nem sempre corresponde a uma atitude eficaz. Ou inteligente. Não se trata de reverter a seu favor o sentido estético que nunca terá; de tratar por tu os craques que jamais olharão para ele como parceiro; ou de reclamar a descendência direta dos raros defesas que a história aceitou como figuras míticas. Cabe-lhe, isso sim, chegar onde as condições lhe permitem. E pode chegar muito longe.

Felipe aperfeiçoou a sobriedade dos gestos, o acerto dos movimentos e a eficácia nas ações; melhorou o jogo combinado com o outro central (importantíssimo o papel de Marcano), ocupa melhor o espaço e harmonizou a intervenção na perspetiva conjunta de quem o rodeia. Habituado a defender em permanente contenção, em linhas muito recuadas, reduzindo a finalidade ao sucesso individual, está a formar-se como central superlativo, à custa de talento, perspicácia e assimilação de princípios, beneficiando também da dimensão planetária de Danilo e da experiência dos laterais Layún, Maxi Pereira e Alex Telles. O FC Porto tem a melhor defesa da Liga e uma das melhores da Europa. Felipe está a apetrechar-se com argumentos que farão dele um central capaz de exercer na esmagadora maioria dos clubes europeus. Veremos onde a história vai parar.

Jonas melhora os companheiros
Há jogadores cuja análise deve ter em conta o que fazem pelos outros

Jonas costuma valer pelo que faz, pela genialidade das ações, pela inteligência dos movimentos e pela eficácia que, por norma, faz abanar as redes. Em termos absolutos é uma extravagância da Liga ter um jogador como ele. Com o Belenenses, e porque não está ainda a 100%, foi lutando contra os limites mas, no fim, fez um golo. Com ele em campo os outros jogam mais e melhor. E a equipa é muito mais forte.

Técnica sublime de Bas Dost
Com 4 golos em Tondela reconquistou privilégios na lista dos marcadores

Bas Dost é muito mais do que um avançado goleador. Com o decorrer da época tem aperfeiçoado gestos e movimentos, razão pela qual é hoje, seguramente, muito melhor jogador do que era quando chegou às mãos de Jorge Jesus. A aparente desarticulação motora é isso mesmo: aparente. O holandês não é habilidoso mas tem uma técnica incrível na receção, no domínio, no passe e no remate.

O pé esquerdo de Iuri Medeiros
As boas notícias oriundas do Bessa têm quase sempre o mesmo mensageiro

Iuri Medeiros voltou a ser deslumbrante no jogo com o Marítimo. Vistas as coisas a esta distância, com aquele pé esquerdo abençoado poderá jogar até aos 40, mesmo que seja só para marcar pontapés de canto e todos os livres, mais perto ou mais longe, na zona central ou de qualquer dos flancos. Até lá, será criminoso se não tiver uma oportunidade a sério no Sporting. Se a agarrar, pode ser um fenómeno.


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