De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Novo desafio na carreira de um génio

Nunca um jogador com 33 anos esteve no centro de uma operação de mercado tão espetacular – mas também nenhum, entre os melhores de sempre, chegou a fase tão adiantada da carreira com físico intacto e tanta fome de glória. Cristiano Ronaldo trocou o conforto do Real Madrid, clube no qual já era o mais extraordinário futebolista da história merengue, pela proposta da Juventus, que procura acomodar-se como potência europeia; deixou para trás uma carreira fantasmagórica, levada a cabo num contexto que já dominava, para abraçar um futebol mais tático e rígido, menos livre e espetacular, suscetível de lhe levantar problemas de adaptação. Isto de aceitar desafio tão grande e arriscado aos 33 anos, com expectativa tão alta à volta, tem muito que se lhe diga: é o espelho perfeito de CR7.

A caminho da sexta Bola de Ouro, que fará dele o futebolista mais reconhecido da história do futebol, CR7 prolonga o desplante, que muitos continuam a interpretar como arrogância e má-educação, de invadir território sagrado: em Portugal (Eusébio posto em causa), no Real Madrid (vejam só, um português a discutir o trono com Di Stéfano…) e no Mundo (um deus a quem Pelé, Cruyff, Maradona e Messi já rendem tributo como parceiro). Vão tarde os pobres de espírito que julgam interferir no percurso imaculado com críticas despropositadas e irrelevantes para o que importa de facto. CR7 é, aos 33 anos (ou serão 25?), no início da aventura final da carreira, o maior fenómeno atlético e goleador da história do futebol.

Sendo incomparavelmente mais do que a monstruosidade estatística que o caracteriza, CR7 vai perceber que os números são o principal alimento dos interesses da nova realidade. O que fascinou a velha senhora foi marcar, há mais de uma década, ao ritmo dos grandes bombardeiros da primeira metade do século XX; é a expressão numérica evidenciada em produção individual própria de um extraterrestre fora de tempo; é o currículo repleto de distinções e honrarias personalizadas, como nenhum outro jogador na centenária história do futebol – cinco Bolas de Ouro e quatro Botas de Ouro, acompanhadas por cinco Ligas dos Campeões. Foram principalmente esses registos estratosféricos e o peso relativo nas grandes conquistas, Champions acima de todas, que levaram a Juventus a perder a cabeça por ele; é a associação à dinâmica vencedora do maior colosso futebolístico de sempre (Real Madrid) que lhe conferiu a imagem de profeta da sonhada glória europeia da Juve; de detonador da paixão do colosso italiano e alvo do maior negócio do calcio em muitos anos.

Em Madrid, mesmo quando não marcava, interferia no jogo, do qual era o sempre o epicentro indiscutível, como inspirador dos companheiros, ameaça para os adversários e eterno protagonista do espetáculo. Não é líquido que tal se repita agora em Itália. Foi a exuberância física, a impressionante regularidade e o talento grandioso que sustentaram a aura de génio absoluto, para muitos o maior de todos os tempos. Em Itália, onde só se glorifica a eficácia e rende tributo a dados concretos, como jogos, minutos, assistências e golos, CR7 está condenado a não descurar a estatística e os recordes; a manter a gloriosa capacidade para se construir com números e distinções individuais, ultrapassando limites cuja dimensão o tempo acentuou. Na Juve só cumprirá todos os requisitos da milionária contratação se, por exemplo, fizer mais de 30 golos numa época (só por duas vezes isso foi conseguido); se acrescentar mais títulos de campeão nacional (e vão sete seguidos para a Signora) e se conseguir liderar a Juventus à terra prometida da Champions (só duas no palmarés). Vai precisar, entre os 33 e os 37 anos, de repetir o que fez dos 20 até aqui. Ninguém o conseguiu. Mas os outros não se chamavam Cristiano Ronaldo.


Renato Sanches
voltou a sorrir

Tudo mudou com um golo, uma grande exibição e elogios do novo treinador

Renato Sanches leva dois anos de desilusões. O último sorriso foi no Euro’2016 onde, partindo da indiferença, se tornou peça decisiva na grande conquista. Atravessado o deserto, no Bayern e no Swansea, viu-se entre a vontade benfiquista em resgatá-lo e de Niko Kovac, o novo responsável bávaro, em vê-lo em ação. O jogo com o PSG, sendo só um episódio, é para ser tido em conta. A história ainda só vai no início.


O renascimento
de Rúben Semedo

Acabou o pesadelo de um homem que foi vítima dos seus próprios impulsos

Rúben Semedo assinou pelo Huesca, que subiu ao primeiro escalão espanhol. É uma grande notícia que o jovem (24 anos) prossiga a carreira, depois do enorme percalço que lhe aconteceu. Rúben não é um delinquente comum mas um cidadão que cometeu o crime (grave) de fazer justiça pelas próprias mãos. Mas um erro não pode legitimar outro, por sinal muito maior: acabar prematuramente para o futebol.


Enorme talento
de João Filipe

O Europeu de sub-19 mostra geração notável, da qual sobressai um talento

João Filipe pintou a manta com a Finlândia: jogou, fez jogar, marcou, deu a marcar e foi permanente fonte de exaltação. Há cerca de quatro anos era, para a comunidade técnica nacional, o maior projeto do futebol português. A afirmação foi travada por lesões complicadas e inibidoras mas valeu a pena esperar. Mantenha ele o compromisso e o orgulho profissional que pode estar aqui um verdadeiro fenómeno.
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