De Pé para Pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Nunca houve um jogador como Iniesta

Quando se sentou diante dezenas de câmaras e microfones na sala de Imprensa de Camp Nou, Iniesta sabia o que o esperava. Nos dias, talvez semanas ou até meses, que antecederam o momento solene, preparou-se para o embate de emoções que acompanhariam o anúncio do fim da relação com o Barcelona. As lágrimas que verteu estenderam-se aos quatro cantos do Mundo, naquele instante em que os amantes do futebol perceberam que um dos mais brilhantes jogadores da história estava ali, em claro sofrimento, a pôr fim a uma longa e linda história. Na hora da reflexão, fica à vista que foi, de entre os maiores génios do futebol, o mais singular.

É impressionante que um dos principais mentores da grandiosa longa-metragem que o Barcelona promove há quase uma década; que o maestro da orquestra mais brilhante dos últimos 40 anos seja um homem tímido e simples, despojado de vaidade, incapaz de uma provocação ou de qualquer desvio comportamental. Parece impossível que figura tão esmagadora recuse as benesses, tantas vezes apetecíveis, da fama: nem um tique de vedeta, nem um adorno pessoal, nem uma simples tatuagem. O artista é, afinal, um cidadão comum, chefe de família exemplar e um homem como outro qualquer, simples, modesto, dedicado, digno e comprometido.

Sendo guerreiro de um exército em permanente conflito com forças externas, foi uma bandeira de paz e consenso; o rosto de uma ideia futebolística maravilhosa e o principal intérprete de uma opção estratégica arrojada, talvez até revolucionária. Iniesta é uma das maiores figuras do jogo, na história do qual entra sem votos contra nem adornos supérfluos; é um génio conceptual sublime que abrilhantou a máquina de sonhos que foi o Barcelona do tiki-taka e assumiu a condução (sempre ao lado de Xavi Hernández) da nave espacial que foi a seleção de Espanha entre 2006 (quando iniciou a qualificação para o Euro’2008) e 2012 (quando concluiu a trilogia de dois títulos europeus e um mundial).

Iniesta foi um oficial superior que exerceu esmagadora autoridade sem ferir sensibilidades; foi responsável por centenas de vitórias deslumbrantes sem beliscar as regras da boa educação; nunca polemizou, desrespeitou ou agrediu; não se lhe conhece um gesto irrefletido, uma palavra mal medida ou qualquer atitude menos digna. Por incrível que pareça, sendo elemento de um exército de grandes causas, foi exemplo consensual de nobreza, ética, generosidade, modéstia e elegância. Nunca fez concessões porque conhecia as regras da casa, os seus hábitos e o seu espírito: bastou-lhe, por isso, seguir a sensibilidade do povo e a estética em vigor; ser depositário de um vasto legado de emoções e respeitar a cultura guardada no símbolo que traz ao peito. Tornou-se líder inspirador e carismático de uma potência mas isso não fez dele figura odiosa para os inimigos da nação que representou.

Não convive com as mulheres mais desejadas do planeta; não é visto em passagens de modelos nas grandes capitais europeias; não fez milhões em publicidade nem se envolveu em qualquer tipo de escândalos. Iniesta é o ator de Hollywood, amado e reconhecido pela grande indústria, que vai levar os filhos à escola, frequenta os mesmos restaurantes e cumpre as rotinas da adolescência. Joga futebol como um deus e isso bastou-lhe para ser feliz e arrebatar a paixão de todos nós, incluindo os adeptos hostis que, pelo menos uma vez na vida, já o aplaudiram de pé. Na hora do adeus, chamou os holofotes para anunciar a saída de cena, com palavras trémulas e arrastadas, sorriso de criança nos lábios e lágrimas comoventes nos olhos. Iniesta é um jogador irrepetível, a quem foi recusado, indecentemente, o ouro correspondente ao melhor do Mundo. Mas levará uma certeza para o resto da vida: nunca a centenária história do jogo teve um intérprete tão grande, altruísta, inteligente, visionário e inspirador como ele.

Justiça divina
bafejou Marega

Está encontrada a mais incrível história de superação do FC Porto 2017/18

Marega tornou-se o herói portista nas celebrações prévias de um título virtualmente conquistado. O maliano, que oscilou entre a decisão de não festejar frente à equipa que lhe abriu as portas da glória (Marítimo) e a importância de um golo decisivo, sentiu o afeto dos adeptos. E bem. Há justiça divina quando um homem totalmente desacreditado chega ao fim da época como ídolo absoluto da comunidade.

Bruno Fernandes
é um fenómeno

Há jogadores que não precisam de tempo para atingirem a excelência

Bruno Fernandes está a tornar-se um jogador cada vez mais influente. Se não marca, deslumbra pelo talento que expressa de modo quase fantasmagórico; se joga um pouco abaixo do génio que possui, faz dois golos sublimes e oferece à equipa uma vitória fundamental (2-1). O futebol português ganhou o melhor médio desde Rui Costa e Deco. Vítor Oliveira não anda longe da verdade: é o melhor jogador da Liga.

Salah tem direito
à luta pelo ouro

O egípcio tem conjugado na perfeição as emoções e as estatísticas

Salah ganhou direito a discutir a "Bola de Ouro" de 2018 e quanto a isso não há a menor dúvida – se o Liverpool for campeão europeu pode até entrar na luta com algum favoritismo. A questão é só essa e já não é pequena. O faraó ultrapassou Neymar na corrida (pelo menos até ao Mundial) mas tem ainda de comer muita sopa até discutir um lugar na história ao nível de CR7 e Messi. Leva dez anos de atraso.

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