De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O comando que venceu o preconceito

É um pensador cuja especialidade são os espaços vazios; um gestor de ritmos que dá inteligência ao processo coletivo de aproximação à baliza; um visionário que vê crateras onde há meras fissuras nas muralhas erguidas à sua frente. Pizzi pertence à estirpe rara dos talentos que multiplicam a produção dos outros, logo conduzem o resultado do trabalho global muito para lá do que é suposto. Cristiano Ronaldo (como expoente dos grandes goleadores) ou Gelson Martins (como solista genial) acrescentam muitíssimo mas não fazem depender diretamente deles a produção da equipa. Quando CR7 faz uma grande exibição, é ele quem joga muito; quando é Pizzi a fazê-lo, a conclusão é outra: "Que bem joga o Benfica."

Pizzi é o Iniesta ou o Modric do tricampeão. Não é o mais amado, o que tem estatística mais exuberante, o que mais fascina as plateias; mas é o mais importante, por ser o denominador comum da equipa e o fiel depositário dos seus segredos e cumplicidades; por conduzir o jogo a um patamar inalcançável com prestações avulsas, consolidar a ideia inicial e abrilhantá-la sempre na perspetiva de uma visão abrangente. Como João Mário e Adrien, por exemplo, participa em cada lance projetando o que vai suceder cinco toques à frente; intui os momentos de perigo que exigem equilíbrio e segurança atrás e deteta com instinto fabuloso quando chega a hora de reclamar o auxílio das musas para clarificar as épicas aventuras à frente; nunca se engana nos caminhos e conhece as características de cada elemento que o rodeia – sabe de memória as preferências de todos eles.

O sua utilidade é o daqueles que oferecem dimensão coletiva ao conceito de engano, que costuma ser de um homem só: não se contenta com truques inconsequentes mas em elevar a mentira a toda a engrenagem. Quando faz circular a bola pela esquerda não é de estranhar que a intenção seja distrair para, depois, golpear pela direita; se faz 3 ou 4 passes curtos é porque está prestes a apunhalar o adversário com um passe longo; sempre que parece satisfazer-se alimentando a burocracia é porque tem na cabeça um momento de exaltação capaz de fazer explodir o estádio inteiro.

Nesse afã de criar surpresa, é fundamental que a equipa o entenda, lhe dê saída aos movimentos, compreenda os gestos, se comprometa com o seu talento e acredite na sua liderança. Para se expressarem na plenitude, jogadores como Pizzi não podem sentir reservas relativamente ao talento que possuem: não sugerem, ordenam; não propõem um caminho, traçam a rota; levam o exército a segui-lo e não esperam sentir reservas. E esse foi um problema na afirmação plena no grande exército da Luz: viveu muito tempo sob suspeita. Demasiado.

Grande parte do universo benfiquista duvidou da opção. Não era credível entregar o legado de Axel Witsel e Enzo Pérez a um jogador português, de Bragança, que não se fixou no At. Madrid, não contava para a Seleção e jamais pegara na batuta de um grande. Num futebol extremado pela clubite, a nação encarnada torceu o nariz ao novo comando; em vez de o defender como seu e dar-lhe apoio incondicional para melhor exercer a autoridade imprescindível ao desempenho da função, expressou desconfianças, recalcou a esperança de um futuro grandioso e aumentou a convicção de que estava perante maestro a exercer apenas enquanto não chegava outro, mais aclamado, oriundo de salas mais prestigiadas, para ocupar o púlpito sagrado. Hoje, ultrapassadas as tormentas suplementares para ser reconhecido como merece, Pizzi já convenceu não só a família encarnada mas os adeptos em geral de que é o homem certo para dirigir a melhor orquestra do futebol português. Vencidas reservas e preconceitos, é hoje um dos mais amados e reconhecidos jogadores do mundo benfiquista. Justiça feita.


Campbell será
figura da Liga

As mais recentes prestações do costa-riquenho têm sido animadoras

Joel Campbell tem crescido à medida que passa o tempo e consolida a adaptação a uma equipa altamente estruturada. Começou por ser ameaça de um mero capricho do treinador, prosseguiu exercendo influência quando saía do banco e é agora um titular consolidado que faz, na esquerda, aquilo que mais ninguém no plantel é capaz. Pelo que joga e faz jogar ainda vai a tempo de ser figura na Liga 2016/17.

A importância
de André Silva

É raro um jogador tão jovem ter preponderância tão grande numa equipa

André Silva tem cumprido escrupulosamente as expectativas com que iniciou a época: figura maior do FC Porto, titular da Seleção, goleador em todos os palcos e o desenho de um futuro brilhante. No Dragão, as bases do que aí vem estão há muito definidas: será histórico mais pelo que vai render em euros do que em futebol. E dele muito precisa Nuno Espírito Santo que, como alternativa, só tem Depoitre.

Fábio Martins
foi um gigante

Um golo e uma assistência não dizem tudo da exibição do médio flaviense

Fábio Martins foi um gigante e a figura do Desp. Chaves no grande espetáculo que foi o jogo em Vila do Conde, onde se defrontaram duas das equipas que melhor futebol praticam em Portugal. Sem Battaglia, os transmontanos mostraram conjugação impressionante de ordem e aventura; disciplina e prazer pelo risco. Isto perante um Rio Ave que, sob o comando de Luís Castro, é candidato à Europa.



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