De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O conflito entre Jesus e Slimani

Diz a história que os goleadores são jogadores especiais, que pensam de forma diferente, não podem ser avaliados como os outros e devem ser entendidos, para o bem e para o mal, pela especificidade da função que desempenham. São especialistas que vivem à procura de uma alegria perfeita, de serem heróis e funcionarem como detonadores de loucuras coletivas que, na maior parte dos casos, não conseguem explicar. Se não cumprem o dever é vê-los tristes, deprimidos, entregues à fatalidade da imprecisão de gestos e movimentos, vítimas de todo o tipo de recriminações e da injustiça que é sentirem o Mundo equacionar méritos já creditados. Quando a vida lhes corre bem, são homens feitos com olhar esbugalhado, que regressam por momentos à infância e se expressam na exuberância de uma alegria que, de tão grande, até parece imerecida - e amarinham pela vedação, fazem de avião, dão mortais, deslizam como loucos pela relva, tiram a camisola, fazem até de toureiro…

A rebeldia nos festejos pode ser passiva - Nené fazia o estádio vir abaixo e reagia sem emoção levantando apenas o braço - ou apaixonada - sobram exemplos de quem sugere instintos agressivos ou remete a glória para forças divinas. Slimani é um 9 de generosidade sem limites que, até ao momento do disparo, percorre quilómetros que davam para fazer a maratona e assume todos os duelos individuais pelo caminho. Quando marca um golo suscita o afeto exterior por quem tanto lutou para ser feliz, prova de que o êxito não lhe cai do céu e tudo o que faz assenta numa explicação razoável. Reconhece, por isso, a importância que tem para a comunidade, porque sabe medir a extensão dos terramotos emocionais que provoca e levam a lugares idílicos no coração da gente mas que são igualmente suscetíveis de convocar maus sentimentos dos dois lados da barricada - o golpe fatal também pode estar impregnado de fúria, revolta e vingança sem destinatário.

Um jogador com o perfil de Slimani afasta-se, por estilo e temperamento, daqueles pontas-de-lança que têm a contabilidade em dia e vivem para manter atualizados os números da conta pessoal, orientados pela convicção de que o êxito coletivo depende da eficácia de um homem só. O episódio com o Arouca prova que até um homem altruísta, comprometido com a causa, reconhecido ao clube e agradecido ao treinador pode reagir mal a uma substituição que não compreende; até um avançado aparentemente desprendido do registo dos golos que marca se deixa enredar por raciocínios egoístas. A meia hora do fim, com o resultado em 5-0 e sem ter ainda assinado o ponto, não aceitou que Jorge Jesus o tirasse para dar minutos a Barcos; não soube medir as emoções por estar ainda a zero e entrar para o último troço com a ansiedade que o punha à mercê de um amarelo que o afastaria do jogo no Restelo.

Tal como o suplente que sofre e gosta de publicitar o sofrimento (exercita comportamento nostálgico e distante; modera a expressão das alegrias e é o primeiro a tomar duche e a ir para casa), também o substituído nem sempre esconde a discordância com a decisão superior. Depois, cada um utiliza estética de protesto adequada à personalidade, ao momento, à dimensão do conflito e ao desgaste que dimensiona a revolta. Slimani só pensou nele e não travou o impulso imparável da manifestação pública por ter sido afastado prematuramente do jogo. Muito menos mediu que o gesto encerrava, em si mesmo, a ingratidão por quem tanto tem feito por ele, pelo seu crescimento como jogador, pela sua valorização profissional. JJ podia ter sido mais moderado e pedagógico. Preferiu ser impulsivo e exercer a autoridade com maus modos. Para casos semelhantes não existem respostas tipo. O segredo para preservar o bem-estar coletivo é não incubar conflitos e resolvê-los na hora. Foi o que sucedeu.

Génios da bola são como Jonas

O Benfica manteve a liderança da Liga quando o gongo estava prestes a soar

Jonas conseguiu no Bessa o contrário do que tem feito nos jogos em que produz de mais para tão escassos resultados práticos - quase sempre sem golos. Frente ao Boavista, o avançado que Dunga recuperou para a seleção do Brasil não destoou do cinzentismo geral mas, no último instante, num lance de difícil execução, enquadrou-se com a bola, depois com a baliza e decidiu o jogo. Os génios são assim.

Sérgio Oliveira a marcar pontos

Se acrescentar golos à influência no jogo pode vir a ser um caso sério

Sérgio Oliveira tem argumentos técnicos, táticos e psicológicos tão vastos que nunca se entusiasmou com o cronómetro. Prefere impor-se pela pausa e pela serenidade; por uma liderança sustentada no exemplo e na perfeição com que executa as obras que concebe, quase todas com influência na produção da equipa. Está a convencer os companheiros de que vale a pena segui-lo. E vale mesmo.

Josué pode ser craque universal

Só os mágicos dão ao jogo a condição de espetáculo e expressão de arte

Josué está a confirmar-se um magistral gerador de futebol. O seu pé esquerdo executa os milagres que o cérebro concebe e o relvado é o palco de um manancial interminável de passes diabólicos, toques deliciosos e demais invenções, algumas das quais inconcebíveis e só ao alcance de jogadores que estão um degrau acima da nossa compreensão. Com confiança e enquadramento pode ser um craque universal.

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