De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O diamante que JJ ainda não lapidou

Já lá vai o tempo em que, à frente da defesa, os treinadores preferiam não futebolistas da cabeça aos pés mas empregados de limpeza sem soluções técnicas, funcionários que passavam hora e meia a varrer a zona sem pudor, ação que os aproximava até da delinquência – o conceito de eficácia passava muitas vezes por grosserias inqualificáveis na abordagem aos lances e, principalmente, aos adversários. Durante algum tempo foi recorrente ver defesas-centrais a jogar dez metros à frente, interpretando com limitações de toda a ordem uma das mais nobres funções do futebol. José Antonio Camacho afirma com convicção que o futebol começa no médio-centro. A ser verdade (e convenhamos que é difícil não concordar com ele), William Carvalho é um excelente início de conversa.

O sportinguista cumpre os requisitos básicos da tarefa: é o avançado dos defesas e o líbero dos avançados; zela por equilíbrio estrutural e segurança do coletivo, sendo também a origem de muitos desequilíbrios lançados a partir de trás; é um gestor do talento dos outros mas traça a rota, conduz o barco e leva-o a bom porto. Por viver no centro nevrálgico dos acontecimentos, cabe-lhe ainda regular emoções, marcar ritmos e assumir a liderança em sintonia com o plano mais amplo definido pelo treinador. E esse é o busílis do problema, porque mesmo aqueles que excederam a exigência básica da função (Guardiola, Paulo Sousa, Redondo, Pirlo e Xavi, citados de memória) não revelaram o talento instantâneo das grandes estrelas.

Se os artistas, ainda que ligados à ideia global definida pelo treinador, precisam de um palco, da bola e de adversários para se expressarem, o médio-centro faz da equipa a sua casa e trata dela com o esmero possível; se os primeiros vivem de génio, instinto e improvisação, o segundo impõe-se por convicções fortes, estudo e poder de observação; se a arte de uns nasce no momento, as preciosidades dos outros são pensadas de véspera e obedecem a uma aprendizagem feita de inteligência e rapidez de raciocínio. William tem cumprido quase todas as etapas na construção de um jogador de nível mundial. Mantém a excelência do posicionamento e a capacidade para jogar a um ou dois toques; técnica para entregar a bola com intenção cada vez mais ofensiva e visão para cortar sucessivas linhas de passe. Tem-lhe faltado disponibilidade física para a luta (receio em alguns duelos), argumentos para consolidar o estatuto de líder e firmeza para fazer ouvir a voz que todos respeitam. Assenta no potencial dos melhores mas falta-lhe assumir cumplicidade com o treinador para cumprir o desígnio máximo de quem vive na zona intermediária: ser o administrador da equipa e o governador do jogo.

William é um médio de ida e volta, que defende, ataca, não perde posição e aumenta as soluções criativas na sala de máquinas que é o meio campo. Por falta de confiança tem optado pelo conforto de um raio de ação curto, assentando o seu futebol a partir de uma ideia mais estrita e, por consequência, menos expansionista. Não é de crer que seja esse o plano de Jorge Jesus, até porque não é dos seus hábitos limitar a expressão máxima de quem lhe passa pelas mãos. William tem condições para ser muito mais abrangente e influente na equipa do que limitar-se a um mero pólo de segurança e equilíbrio. JJ tem o condão de potenciar quase todos os grandes jogadores com quem trabalha e, entre os habitantes da zona central do terreno, já deu expressão estratosférica a projetos consolidados como Adrien e João Mário. William é o diamante que JJ ainda não lapidou. O treinador precisa de paciência e persistência; o jogador de ser sensível ao toque do mestre e tornar-se cúmplice dos seus segredos táticos. Quando o processo ficar concluído, será um jogador muito mais completo. E o Sporting uma equipa ainda melhor.

Renato e Pizzi são decisivos

O fogo de artifício encarnado tem sido detonado por Jonas e Mitroglou.

Mas o Benfica vive impulsionado pelo futebol superior de Renato Sanches e pelo modo como Pizzi dimensiona o talento individual à condição coletiva. Um é o pulmão que dá inteligência à dinâmica global, o outro é o mago do último passe, que coloca a bola onde põe os olhos e eleva a produção de todos quantos entram em conexão com ele. A melhoria que colocou a águia na luta pelo título passou por eles.


Julio Velásquez cheio de ideias

Mesmo goleado no Restelo, o Belenenses mostrou que está no bom caminho.

Julio Velásquez criou uma identidade e imprimiu uma nova dinâmica. Frente ao Benfica foi demasiado atrevido e transmitiu a convicção de que podia jogar olhos nos olhos com o bicampeão nacional. Enganou-se, pecou por otimismo e foi goleado. E agora? Uma das vantagens em acreditar nos jogadores e manter fidelidade ao projeto de jogo é justamente evitar que as derrotas se transformem em tragédias.


A competência de Lito Vidigal

Vencer campeão e vice-campeão no mesmo campeonato não é para todos.

Lito Vidigal está a dar novo passo numa carreira sem falhas. O Arouca tem a permanência quase assegurada a mais de três meses do final da Liga e dele se pode dizer tudo menos que é um conjunto improvisado, ao sabor do instinto e da inspiração dos jogadores. Lito não precisava de tamanha demonstração de competência para ser reconhecido como um dos melhores treinadores portugueses da atualidade.




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