De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O efeito de Coates no Sporting

Sobram os exemplos de defesas-centrais que, bem cotados nos países de origem, se perdem quando atravessam o Atlântico. O talento não se esvai, trata-se apenas de adaptar qualidades genéticas desenvolvidas com o tempo a uma nova forma de entender a função. Nos anos 70, Marinho Peres gelou quando, no primeiro treino de conjunto no Barcelona, mestre Rinus Michels lhe disse para jogar 20 metros à frente do que fazia no Santos de Pelé e na seleção do Brasil, equipas das quais era capitão. Na década seguinte, um craque mundial como José Carlos Mozer levou meses a adaptar-se à complexa articulação coletiva dos movimentos defensivos porque só conhecia duas formas de jogar (em espera e no recurso ao contacto físico); Bermúdez, Luisão, Otamendi, Lisandro, Rojo (com breve passagem pela Rússia) confirmam que entre a chegada à Europa e a afirmação há um período de dúvida e aprendizagem.

Num jogo em que intimidar por presença, estilo, ação e prestígio pode fazer a diferença, Jorge Jesus preferiu estabelecer no eixo central defensivo correlação de forças entre um líder (Coates) e um jovem em formação que o complementa (Rúben Semedo) do que formar dupla a sair de um trio (Paulo Oliveira, Naldo e Ewerton) composto por jogadores mais evoluídos tecnicamente mas menos influentes na manobra coletiva. Coates é um central imponente, altivo, de presença dominante, cuja influência tem alastrado ao funcionamento da própria equipa. Não é só o comandante do sector recuado, é um futebolista de grande fiabilidade que não comete erros em ações relevantes e decide bem em mais de 90% dos lances em que intervém. Dono de personalidade forte e excelente jogo de cabeça (que exerce nas duas áreas), revela ainda articulação de excelência e técnica apreciável atendendo aos seus quase 2 metros (1,95 m).

Quando chegou a Alvalade, Coates já ultrapassara a fase de aprendizagem dos princípios que orientam o jogo no velho continente; tinha assimilado os padrões de referência de um futebol taticamente mais evoluído e posto no devido lugar a cultura desenvolvida em quase todos os países da América do Sul, baseada na ideia de que defender bem é, acima de tudo, um problema individual. Durante décadas, os centrais oriundos desses países agiram como quem podia viver desempenhando missões estritas e avulsas, isto é, viver de cadeirinha à espera dos invasores para depois fazer apelo ao instinto muscular, de choque e perseguição sem qualquer estímulo à inteligência ou às mais elementares noções de equilíbrio e segurança. Aos 25 anos, está hoje preparado para uma potência europeia, certo de que terá de seguir as regras apertadas de uma ampla cooperativa com a qual tem de se comprometer, desenvolvendo um sólido espírito de solidariedade.

Mesmo depois de ter passado por Liverpool e Sunderland, poucas dúvidas restarão: Coates nunca esteve numa equipa tão estruturada como o Sporting de Jorge Jesus, cuja organização é composta por elementos táticos sustentados em combinações complexas. JJ escolheu-o por qualidades técnicas, físicas mas também emocionais, de afirmação perante os companheiros e de intimidação sobre os adversários – é uma espécie de governador do território, que cumpre e faz cumprir em campo as leis definidas pelo treinador. Coates não é um craque analisado por parâmetros artísticos de relação com a bola e raramente se dá por ele nas tantas vezes deslumbrantes longas-metragens verdes e brancas. Mas é titular há mais de três meses e ainda não cometeu um erro grave, daqueles que outros, muito mais aclamados e com cotação de mercado superior, fazem semana sim, semana não. Com ele o leão defende melhor. Prova de que um excelente central também pode construir-se a partir de inteligência, discrição, eficácia, bom senso, físico e autoridade.

Fejsa tremendo com o Rio Ave

Fejsa fez em Vila do Conde uma exibição inversamente proporcional à ausência de Pizzi e ao desacerto de Renato Sanches: foi o primeiro a entender aquilo que o jogo exigiu e o único a executá-lo até ao fim. Quase sozinho equilibrou as forças no miolo e foi tão perfeito na ação que empurrou o jogo para o meio-campo contrário. O Benfica só permitiu ao adversário 4 remates. E isso teve um nome: Ljubomir Fejsa.

Muita esperança em André Silva

André Silva é ave rara num futebol que desespera por um grande ponta-de-lança – Gonçalo Paciência é outra opção mas perdeu tempo na Académica. Fenómenos à parte, os pontas-de-lança demoram a despertar os instintos para a função. Aos 20 anos, o jovem atacante está a percorrer o seu caminho. E já mostrou armas para vir a ser avançado-centro de um grande FC Porto. Se calhar já a partir de 2016/17.

Diogo Jota é um fenómeno

Diogo Jota é dos jovens mais deslumbrantes revelados pela Liga portuguesa – e só jogou no P. Ferreira. Aos 19 anos, para lá da qualidade, revela o descaramento dos predestinados: pega na bola, vai direito ao assunto, mete por atalhos ou autoestradas e chega sempre em condições de fazer a diferença. Não é um goleador mas o tiro tem assinatura de especialista – 12 golos na Liga. Está na forja um grande jogador.

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