Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

O empurrão de um milagre da natureza

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Não mostra qualquer sinal de gentileza ou condescendência; tudo nele é obstinação sem contemplações, um talento agressivo que só toma decisões contundentes e rende tributo à vitória. O ar de rufia parece infantil e despojado de maldade mas é preciso olhar e pensar duas, dez, vinte vezes: é um predador temível. Toca violino mas, se for estritamente necessário, também cumpre no bombo; deslumbra em permanência com a arte do engano que surpreende e encanta as plateias mas não se diminui quando executa o senso comum; preserva sempre as emoções, como gerador de sentimentos grandiosos, mas satisfaz os requisitos da estatística; é um criador compulsivo de ideias, assente numa estética de rua, em apelo constante à malandrice do bairro que lhe formou a personalidade e moldou o caráter, mas sabe que, naquela função, será sempre julgado pelos parâmetros da eficácia. Por tudo isso, é um futebolista generoso na entrega, comprometido com a totalidade das causas que defende, orgulhoso da profissão que escolheu e, ao mesmo tempo, divino naquilo que faz.

Perante um Estoril a crescer e um Benfica amedrontado com a iminência de dar mais um passo para o tetra, emergiu a figura imensa e arrebatadora de Jonas. Depois de uma perdida escandalosa de Kléber; de uma defesa monumental de Ederson, e de Licá e Mattheus terem atirado aos ferros da baliza encarnada, os canarinhos empataram na Luz com meia hora para jogar. O tricampeão parecia condenado a reeditar a desgraça de 2013, quando o mesmo adversário, mais ou menos na mesma altura da época, deu golpe fatal no sonho da conquista do título. Foi então que, do nada, logo contra qualquer previsão ou mesmo evidência, Jonas pegou na bola, correu da esquerda para o meio e desferiu um tiro fabuloso ao ângulo superior direito de Moreira. O golo fez explodir o vulcão sufocado que era o ninho da águia; o momento teve a intensidade das ocasiões inesquecíveis e a imagem não terá apenas uma semana de duração: será, muito provavelmente, uma das mais emblemáticas e significativas do próprio campeonato.

Foi impressionante ver um jogador em claras dificuldades físicas estabelecer diferenças tão claras e decisivas; só um génio, muito melhor do que os restantes parceiros de espetáculo, podia superar a desinspiração coletiva, ser sopro de esperança e conduzir à vitória um exército a desagregar-se. Jonas confirmou que não acrescenta soluções à equipa; multiplica a produção do todo e de cada um dos seus elementos. Não é de agora: com ele em campo todos jogam melhor e são mais perigosos. Mesmo se os reflexos não acompanham o instinto sublime; o corpo não dá saída às obras-primas que o cérebro concebe e a equipa se revela inexistente para desbravar caminho rumo à baliza contrária, Jonas é um fenómeno absoluto – um milagre da natureza, um toque de distinção no jogo, uma pérola preciosa, um talento tão grande que faz a diferença mesmo estando a pouco mais de 50% das suas possibilidades.

No fim de contas, ele é a marca de uma época no futebol nacional. Um jogador que, oriundo de outras paragens, dignifica e honra por presença a Liga portuguesa. Jonas funciona como culminar de uma geração de génios iniciada na década de 70 com Cubillas e Salif Keita, que nos trouxe aos dias de hoje através de estrelas da mesma grandeza, como Madjer, Balakov e Aimar ou dos goleadores de época que foram Yazalde, Jardel e Falcão. A grandeza do império de afetos e admiração que está a construir no Benfica e em Portugal talvez só possa ser medida em todo o esplendor daqui por uns anos. Deixemos que o tempo cumpra o seu papel e, na hora do adeus, nos molde a memória e coloque Jonas no pedestal que lhe pertence: o de um dos mais extraordinários jogadores que algum dia pisaram relvados portugueses.

Otávio esteve 

sempre próximo

Abandonou a equipa há vários meses mas, sabemos hoje, nunca esteve longe

Basta rebobinar o filme atrás e vê-lo, no banco, a sofrer e exaltar com o que o FC Porto ia fazendo em campo. Otávio esteve sempre comprometido com a bandeira azul e branca mesmo a partir da enfermaria. Em Chaves mostrou o que faltava: está mais do que pronto para reassumir o lugar, sinal de que esteve sempre por perto. É um jogador imenso, com técnica, visão, habilidade, presença e continuidade.

Podence será

um caso sério

Vê-lo a festejar com o gigante Bas Dost é sensação um pouco estranha

Podence tem 1,65 m, o que neste futebol de números não seria bom augúrio. Mas o jovem leão é um caso raro, para não dizer mesmo um fenómeno. Em Braga confirmou ser um jogador eletrizante, rápido a pensar, inteligente a conceber, perfeito a executar e versátil nas soluções que inventa. É notável explorador de espaços, em ações individuais ou combinadas. Tem mais futebol do que físico. Será um caso sério.

Um fantasista

chamado Hernâni

É a prova de que a exploração das faixas laterais fortalece a produção global

Hernâni está a consolidar o potencial que tem revelado avulso na carreira, isto é, sem a continuidade necessária. Aos 25 anos é um dos melhores jogadores da Liga e um dos maiores responsáveis pelo quarto lugar do V. Guimarães. Trata-se de um fantasista que desequilibra por velocidade, agilidade, instinto, golo e talento. Quanto mais o espaço diminui e o despudor aumenta mais ele joga e interfere na história.

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