De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O exército desarmado da Catalunha

Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), escritor, poeta e jornalista espanhol, nascido em Barcelona, escreveu orientado pela perspetiva histórica de uma rivalidade: "Quando o Barcelona ganhava um jogo de futebol ao Real Madrid, considerado o clube do governo, a Catalunha ressarcia-se um pouco de todas as guerras civis que perdeu desde o século XVII." Destas palavras ressalta a substância de um lema ("Mais que um clube") e a singularidade da conexão política, militar e social que sustenta o belicismo expresso no título do artigo: "Barça: o exército desarmado da Catalunha." Também por isso, o FC Barcelona é um caso à parte, pelas origens da sua fundação e por motivações futebolísticas com origem nos anos 70, quando Rinus Michels e Johan Cruyff (como jogador e, mais tarde, como treinador) chegaram a Camp Nou. O upgrade introduzido por Pep Guardiola, já no século XXI, concluiu o processo: ao mais alto nível, o Barça é a única equipa alicerçada numa linha ideológica identificável, à qual podemos chamar cultura.

No futebol há um estilo e um saber acumulado, cuja informação está diretamente ligada às origens de quem os põe em prática. Andrés Iniesta, mais do que um jogador, é o mais eloquente depositário da estética deslumbrante que une um povo e funciona como pátria de quem ama o futebol. É um general de armas suaves e ternas, símbolo de paz e figura universal; um homem que, em pleno campo de batalha, nunca traiu os princípios de uma escola orgulhosa e definidora de caráter, que conquistou o coração de milhões de adeptos nos quatro cantos do Mundo.

Iniesta despoja o futebol de todas as impurezas. Joga com tanta elegância, nobreza e cordialidade que até os adversários se sentem honrados em repartir o relvado com ele; é um artista que interpreta o jogo segundo a carga social que o distingue e dignifica o espetáculo propagando o bom gosto pelos companheiros – para lá de gerar admiração em todas as trincheiras. Para tanto, encara a profissão com a seriedade que merece; é futebolista de manhã, à tarde e à noite, todos os dias da semana; conhece a história por trás da camisola que enverga, sente-se bandeira da comunidade e, desde que tenha a bola nos pés, tem coragem para enfrentar um comboio. É um líder silencioso, que exerce pelo exemplo, pela orientação de toda a vida e também por um talento individual peculiar, sempre ao serviço do coletivo, que faz sobressair a genialidade com que purifica a ação e melhora os parceiros que entram em contacto com ele.

Num tempo em que o fenómeno cede ao apelo global da sociedade de consumo (fama, riqueza, ostentação…), Iniesta dedicou a vida a valorizar o interior do mundo que abraçou (camisola, bola, balneário, treino, jogo…). O maior símbolo do FC Barcelona, herói da maior glória futebolística espanhola de sempre (fez o golo do título mundial em 2010), é refratário aos holofotes implacáveis da imprensa cor de rosa; renitente a qualquer honraria pessoal (e o futebol ficou a dever-lhe uma Bola de Ouro) e esquivo a adulações de poder. O ar inocente, genuíno e simples, de cidadão comum, esconde um ser superior e enquadra um dos melhores jogadores da história do futebol.

Neste momento agitado em termos políticos, o Barça decidiu que Iniesta devia ter um contrato vitalício com o clube. Percebe-se que os máximos responsáveis pelo "exército desarmado da Catalunha", para não perder de vista as palavras de Manuel Vázquez Montalbán, queiram manter para sempre um dos seus mais importantes generais, símbolo absoluto de grandeza, ética e dignidade enquanto futebolista e soldado de uma causa. É, também, um piscar de olho à divina providência para que o génio se mantenha jovem até ao fim da vida. Deus ouviu por certo a sugestão – terá ficado até sensibilizado com a ideia. Mas não pode abrir exceções. Infelizmente.

Confiança total em Alan Ruiz

O talento de Alan Ruiz é enquadrado por uma estética preguiçosa. A indolência faz parte do seu código genético e, muitas vezes, como todos sabemos, é até boa ideia não ser devorado pela tensão do jogo. Mas há situações em que o argentino vai longe de mais, numa equipa que, para lá de inteligência, exige intensidade. O Sporting acredita no craque e a confiança é geral. Veremos se a paciência também.

Sérgio Oliveira ganha embalagem

Sérgio Oliveira é um jogador especial porque, para lá da qualidade técnica, precisa de sentir-se importante. Nas camadas jovens foi líder de quase todas as equipas que representou, sinal de que não era apenas um passageiro do comboio mas o homem que o conduzia e levava a bom porto. Aos 25 anos está em boa idade para se expressar na plenitude mesmo sem dispor, ainda, das condições perfeitas para fazê-lo.

A despedida de Andrea Pirlo

Pirlo anunciou o final da carreira, aos 38 anos, embora se tenha afastado do grande futebol em 2015. Os adeptos despediram-se aos poucos de um dos maestros mais sublimes da história, que introduziu pausa, reclamou inteligência e dimensionou o conceito de arte numa época de choques correrias loucas e despudor. O futebol, para sempre melhorado com a sua contribuição, lamenta o fim de um jogador especial.
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