De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O futuro pertence a Zivkovic

Jorge Valdano encontrou definição perfeita para os jogadores de baixa estatura, aqueles que desafiam as leis da mecânica e aceitam a marcha atrás mesmo quando metem a 6.ª velocidade. Chamou-lhes "personagens de Walt Disney metidos em coisas sérias", ele para quem muitos dos elementos que lhe faltaram como jogador tinham a ver com os centímetros a mais em jogo no qual uma das maiores dificuldades reside na distância entre a cabeça e os pés. Diz-se que os melhores perfumes se guardam em frascos pequenos. Parte do grande talento do futebol esconde-se em homens de físico pouco exuberante. São uma espécie de gladiadores em miniatura, cujo baixo centro de gravidade lhes permite travagens e acelerações violentas sem prejuízo do equilíbrio.

Servem estas linhas para introduzir Andrija Zivkovic, embora o sérvio esteja muito para lá de um simples jogador com 1,70 m. O benfiquista é um dos mais notáveis dribladores da atualidade e um jogador com o Mundo para conquistar. Apesar da juventude, há muito revelou dispor de tudo quanto precisa um extremo para se impor – é raríssimo ver alguém apetrechado com tantas parcelas fundamentais para desempenhar a tarefa a que se propõe: magia, reflexos, rapidez, intuição, regularidade, talento individual e prazer em jogar com os restantes companheiros.

Há nele o fascínio da velocidade, da intensidade, da invenção e de um sublime jogo de cintura. Muitas vezes limpa adversários da frente sem alterar o rumo da bola mas pelo bluff promovido por todo o corpo. Nunca automatizou qualquer finta nem estimulou a repetição de gestos e movimentos, opção que lhe podia conferir maior segurança na ação; o seu futebol deslumbrante está despojado de recursos mecânicos porque, à semelhança dos mais criativos, prefere fazer-se à estrada e inventar pelo caminho. Por ter instinto futebolístico apurado, Zivkovic também recusa a teatralidade, nunca se candidata a herói solitário e reprime tiques exibicionistas sem sentido prático. Quando toma a iniciativa e vai direito ao assunto não o faz para alimentar a relação perversa com a bola, muito menos para criar situações prejudiciais aos interesses da equipa.

Inimigo da linha reta, aumenta as soluções criativas do coletivo mas, aos 20 anos, vai conhecendo as obrigações com todos quantos o rodeiam em campo. Por estilo, perde em termos estratégicos e de abrangência funcional com Franco Cervi, cuja eletricidade lhe confere energia para ser também muito importante nas ações defensivas; mas Rui Vitória já o apetrechou de responsabilidade para não criar desequilíbrios à estrutura que lhe suporta os devaneios artísticos. O sérvio é, ele próprio, um tremendo contributo para o espetáculo mesmo não sendo essa a força orientadora do seu jogo; quando pega na bola e parte em ziguezagues constantes, galgando terreno e abordando adversários como se fossem meras sombras, o objetivo não passa por embriagar as bancadas ou equacionar as ideias do treinador. É a entrega plena à maravilhosa aventura de jogar futebol, utilizando armas inconcebíveis que a natureza lhe facultou e recusou a quase todos os outros.

Zivkovic é daqueles jogadores que, em condições normais, não trocará o Benfica e o futebol português por clubes periféricos no panorama europeu. Se a justiça se cumprir, em breve terá aberto as portas de algum dos maiores colossos do futebol. O sérvio só não será um dos mais extraordinários jogadores do Mundo nos próximos dois ou três anos por motivos exteriores ao génio que possui. Não precisa de sorte para se fixar no patamar divino dos deuses da bola; basta-lhe que a infelicidade não o atinja – lesões, guerras com treinadores, más decisões próprias... O resto está lá tudo. É um prodígio para quem o tempo corre a favor: nada lhe falta para ser um fenómeno.


Enorme Geraldes
regressa a casa

Tem tudo para ser um caso sério no Sporting, quem sabe se no futebol europeu

Francisco Geraldes regressa a Alvalade escudado em grandes demonstrações de talento ao serviço do Moreirense. O médio foi a grande estrela da final four da Taça da Liga, concentrando em dois jogos de grande visibilidade a qualidade como jogador de superior dimensão. A história começou cedo. O passe que permitiu a Dramé fazer o empate com o Benfica identifica um extraordinário jogador de futebol.


Gelson e Bas Dost
no topo das listas

No futebol há situações difíceis de explicar por mais que nos esforcemos

O Sporting afastou-se da luta pelo título mas chega à viragem do campeonato com o melhor jogador da Liga (Gelson) e o seu máximo goleador (Bas Dost). Se percebermos que a principal razão apresentada para o decréscimo de produção comparado com a época passada é a saída de João Mário e Slimani, não deixa de ser curioso que as maiores estrelas sejam os seus substitutos. O problema não passa por aí.


Os guarda-redes
foram generosos

Golo, assistência, desarme e erro clamoroso são coisas de um homem só

Matheus, guarda-redes do Sp. Braga, cometeu falha de principiante com o Moreirense: saiu aos pés do atacante e agarrou a bola; meteu-lhe os pitons na perna, virou-o ao contrário e fez um penálti infantil. Mas mais surpreendente foi ver Moreira (34 anos) não resistir à tentação de abordar André Silva e, em situação de privilégio, derrubá-lo quando o portista já só queria que o adversário fizesse asneira.




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