De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O imperador já conquistou a eternidade

Johan Cruyff, que sempre entendeu o futebol como expressão criativa associada ao espírito ofensivo, emitiu pela vida fora opiniões surpreendentes. Em pleno reinado do Milan de Sacchi, referenciado pelo fenomenal trio que marcou a história do futebol – Rijkaard, Gullit e Van Basten –, decidiu remar contra a corrente e desvalorizar o que todos exaltavam. Um dia perguntaram-lhe o que seria do campeão europeu se perdesse uma das suas estrelas holandesas e ele respondeu, com desprendimento inusual, que a máquina italiana era tão perfeita que resistiria à saída de qualquer um dos seus compatriotas, com o argumento de que havia dinheiro para contratar craques do mesmo nível. Mas não ao fim de Franco Baresi, o defesa divino que, no início da década de 90, atingira os 30 anos. Cruyff alertou então para uma realidade pouco reconhecida no futebol e que se julgava distante das suas convicções: os artistas são caros, os grandes centrais não têm preço.

Tal como os maiores da história (Beckenbauer, Krol, Passarella, Baresi e Blanc são bons exemplos), Ricardo Carvalho deu outra dimensão ao defesa-central, numa altura em que o físico exuberante e o despudor marcavam tendências: ofereceu-lhe um horizonte de influência e perfeição, objetivo final da tendência revolucionária de quem se recusou a olhar para os homens da retaguarda como atores menores do jogo, do espetáculo e até da gigantesca indústria em que o futebol se transformou. RC é um dos grandes responsáveis para o consenso à volta do talento de quem defende e do reconhecimento pela beleza envolvida na dança de quem joga sem bola – o bailado da aproximação, da pausa e da ação fulminante sobre os antagonistas, quer em lances individuais como de jogo combinado, é a base de curtas-metragens tão brilhantes que podiam até ser candidatas ao Óscar. Essa foi, de resto, uma importante conquista das últimas três décadas: reconhecer criatividade a quem defende.

Contra as regras, RC aproxima-se dos 40 anos com todos os argumentos para honrar o passado grandioso que o suporta. Se a velocidade não é a mesma, os reflexos perderam eficácia e a agilidade não tem a exuberância de outros tempos, permanece um exemplo pela forma como trava os invasores e lhes rouba a bola com limpeza só comparável aos mais experimentados carteiristas, em hora de ponta, nos transportes públicos. É magistral vê-lo chegar aos factos antes de ocorrerem; obrigar os adversários a cometerem erros para, depois, os deixar a falar sozinhos; sair a jogar de trás em segurança (perde uma bola de seis em seis meses), com intenção atacante (agora um pouco menos), criando desequilíbrios graves na estrutura contrária. É essa habilidade natural para decifrar a inteligência dos avançados e desmantelar, uma por uma, todas as armas de quem lhe surge pela frente que faz dele um génio defensivo que, em Portugal, só pode ser comparado a Humberto Coelho e Germano Figueiredo.

RC parte para o Europeu como imperador veterano a caminho de uma das suas derradeiras batalhas – aos 38 anos continua a ser um dos melhores do Mundo e é nessa condição que deve ser visto e analisado. Porém, nos relvados franceses haverá desfasamento entre o jogador superior com as quinas ao peito e os olhares melancólicos de quem, olhando para o gigante intocável, o imagina de braços no ar e lágrimas nos olhos, agradecendo os aplausos de plateias gratas por tudo quanto dele receberam. O futebol despede-se com antecipada nostalgia de um fenómeno absoluto. RC já conquistou a eternidade mas em breve sairá de cena. Antes de vermos consumada a derrota fatal, usufruamos do muito que tem ainda para nos oferecer. A Seleção prepara-se para dizer adeus ao melhor central que o futebol conheceu nos últimos 20 anos. É pena. Mas é assim: o homem perde sempre a luta contra o tempo.

Renato Sanches marcou posição

Os jogos de preparação não foram conclusivos mas esclareceram alguma coisa

Se a expulsão de Bruno Alves em Wembley, por exemplo, criou reservas sobre os ímpetos de um jogador que, por experiência e idade, já não era suposto cometer erro tão grave, noutros casos há quem se tenha acomodado melhor no grupo. Renato Sanches melhorou a equipa nas duas vezes em que entrou. A concorrência é forte, o onze é ainda miragem mas o miúdo marcou posição. Não está lá para fazer número.

Quaresma como nunca o vimos

A amarga saída do FC Porto parece ter feito bem a um craque especial

Quaresma chega ao Euro’2016 candidato a um lugar no onze, isto é, prepara a presença numa grande montra assente em estatuto que nunca teve até hoje – é a conclusão do que fez com Noruega e Inglaterra. Aos 32 anos, atingiu a maturidade que lhe faltava para enquadrar o génio que possui. E isso nota-se em campo e fora dele – surpreendente a entrevista ao programa ‘Alta Definição’, de Daniel Oliveira.

Danilo e William para um lugar

Não são muitos os despiques individuais tão claros como o da posição 6

Danilo e William discutem um lugar. Desempenham de modos distintos a mesma tarefa, razão pela qual a escolha também depende da ideia do selecionador para o jogo. Face aos confrontos da primeira fase, a vantagem é do sportinguista, porque tem melhor saída e alimenta melhor o ataque. O problema estaria resolvido não fosse o caso de o portista, mais contido taticamente, estar em muito melhor forma.

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