De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O melhor da Liga em 2016/17

No final de 1997, Paulo Sousa foi alvo do interesse do Inter Milão, clube para o qual se transferiu em janeiro de 1998. Gigi Simone, o treinador nerazzurro, acreditava que o título italiano era possível e precisava de uma peça concreta para abordar a segunda metade da época. Ao cabo de três semanas de treinos, o desabafo não augurava nada de bom: "Ainda não percebi o que estou aqui a fazer." Depois de ver girar à sua volta os dois campeões europeus anteriores (Juventus em 1995/96 e Borussia Dortmund em 1996/97), Paulo via-se confrontado com um dilema para o qual não estava preparado: estava habituado a conduzir os aviões em que viajava e ali era um simples passageiro. Dizia ele que, até então, recebera apenas duas orientações, qualquer delas baseadas no pressuposto de que o adversário tinha a iniciativa. Primeira opção: roubar a bola e jogar direto em Ronaldo Fenómeno. Segunda: roubar a bola e galgar terreno em longas correrias.

Percebeu então que tinha sido contratado pelos méritos de geómetra que depurara com o tempo mas, afinal, queriam-no como empregado de limpeza; Simone enamorou-se por um dos melhores médios do Mundo mas idealizou para ele o que qualquer outro podia cumprir. Esse desfasamento é muito mais vulgar no futebol do que podemos imaginar, principalmente em futebolistas de forte personalidade e influência esmagadora nas equipas. Pizzi é um jogador de difícil inserção num conjunto, porque as funções que desempenha não servem só para somar argumentos. No Benfica de Rui Vitória não se limita a fazer parte de um exército, ao qual acrescenta saber, visão e técnica: é um oficial que orienta a manobra e nela deposita muitas das ideias e princípios do treinador. A sua arte não é somar mas multiplicar o rendimento dos outros; é elevar à dimensão coletiva o engano expresso avulso por cada um dos artistas; é unir todas as pontas e dar sentido à ação global levada a cabo por 11 elementos distintos.

Não é de estranhar, pois, que Pizzi não exerça preponderância e brilhantismo se for apenas mais um. Para se expressar com eloquência, precisa de criar uma relação cúmplice com o treinador, sentir o reconhecimento dos companheiros e o carinho dos adeptos. Não pode entrar em campo e cumprir instruções estritas, condicionado pela sensação de estar constantemente sob avaliação. O jogador que vemos, aos pedaços, na Seleção tem sobre os ombros a desconfiança latente de um treinador que demorou a convencer-se da sua utilidade e se sente mais confortável e seguro com outras opções. Fernando Santos não faz como Gigi Simone em relação a Paulo Sousa; conhece o estilo de Pizzi e respeita-o, apenas estabelece o desfasamento entre as suas convicções e o que pode oferecer-lhe o melhor jogador da Liga.

O esmagador sucesso de Pizzi realça a força do talento, do compromisso e de uma convicção consolidada em contramão com a reserva exterior, incluindo a própria família benfiquista. Herdeiro de uma dinastia personificada por estrelas como Witsel e Enzo Pérez, sofreu o preconceito da desconfiança e, mais tarde, sentiu na pele a indecente desvalorização do império que foi construindo, numa luta da qual saiu vencedor contra quase tudo e todos. Já era o maestro da orquestra, que traçava o rumo, geria tempos, harmonizava movimentos e regulava a temperatura quando muitos ainda teimavam em vê-lo como líder por exclusão de partes, transitório e sem autoridade para conduzir o ex-líbris da pátria encarnada. Pizzi salvou a pele porque não negociou convicções; porque Rui Vitória acreditou sempre nele e os companheiros validaram as suas sugestões como ordens vindas de um general obstinado. O craque da Liga 2016/17 é, ele próprio, uma lição de vida. E a prova de que o futebol não prolonga a injustiça eternamente.

Rúben Neves na 2.ª Divisão?

O mercado regista movimentações que sugerem estado de esquizofrenia

Rúben Neves, um dos mais promissores jogadores portugueses, está no centro de uma operação inacreditável. Como pode um craque em potência trocar o FC Porto pela segunda divisão inglesa? Mesmo que os 18 milhões de euros não tenham nacionalidade ou hierarquia, é difícil aceitar que o médio tenha de dar tantos passos atrás para conseguir chegar onde pode. Que é muito, mas mesmo muito à frente.

A sentença de Petrovic

É sempre arriscado emitir opiniões definitivas sem termos toda a informação

Petrovic saiu de Alvalade desacreditado e regressa como candidato a um lugar no onze; partiu sem esperança e reclama agora a qualidade que lhe permitiu ser internacional 44 vezes pela Sérvia. O próprio Jorge Jesus, que o escolheu, rendeu-se à evidência da fraca resposta inicial e quase não o utilizou. Meio ano depois, o médio vem dar-lhe razão quando o foi buscar ao Dínamo Kiev. O futebol é isto mesmo.

Quando o cedo pode ser tarde

Os clubes portugueses saem sempre prejudicados no mercado de verão

Salvio ainda pode sair do Benfica. A notícia foi dada pelo empresário, que tornou públicos avanços de vários clubes com o intuito de levarem o extremo argentino. Agustín Jiménez disse que Toto pode não ficar na Luz, fazendo-o tranquilamente, com um argumento de peso: "É muito cedo." O problema é o cedo para uma das partes ser tarde para a outra. E enquanto assim for…tramam-se os clubes nacionais.

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