De Pé para Pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O menino que joga em bicos de pés

Num desporto coletivo como o futebol, que implica a harmonização de cada uma das onze parcelas que compõem o todo, correr é o primeiro instinto, por norma em função da bola. O jogo, porém, encarrega-se de mostrar que esse apelo muscular só faz sentido respeitando duas orientações: quando e para onde, caso contrário instala-se o caos e, a partir daí, é quase impossível retomar o rumo. Raphinha revelou em Braga ter o disco rígido bem preenchido nessa rara gestão de tempo e espaço, porque uma das suas principais qualidades, que outros só revelam mais tarde, é a de saber esperar pela sua hora. Assente em talento deslumbrante, não confia só na inspiração; tem um reportório ilimitado mas não se diminui quando interpreta o jogo sem o apoio das musas. Aos 21 anos comporta-se com a maturidade das grandes estrelas e espera pela genialidade trabalhando como operário – menos um capítulo com o qual tem de preocupar-se na enciclopédia que precisa de aprender e assimilar.

Para Raphinha, travar tem o mesmo impacto de acelerar. O seu jogo é feito de pára-arranca e sucessivos ziguezagues em campo aberto, mas não é caracterizado pela vertigem da velocidade. Sendo rápido em todos os sentidos (a pensar, a deslocar-se, a conceber e a executar) é um bom exemplo do raciocínio que distingue futebolistas e atletas, nas palavras do argentino Angel Cappa, um dos grandes pensadores do futebol moderno: "O atleta quando chega acaba, o futebolista quando chega começa." Iniciando as ações a partir das faixas laterais, é um notável criador de desequilíbrios e um gerador constante de situações de apuro. Como esquerdino, as diagonais da direita para o meio, com a bola controlada, em tabelinhas na aproximação à zona de tiro, são diabólicas e constituem momentos de grande exaltação coletiva (em Braga teve remates que não passaram longe do alvo); na esquerda, porque nunca perde a lucidez, não se distrai e mantém o foco na ação, provoca estado de alerta máximo, porque o caminho em linha reta vai acumulando veneno para ser descarregado na chegada ao destino.

Jogador com soluções para cada dificuldade, mantém a atitude, recusa a urgência e ainda nem sequer sabe o que significa ansiedade; sendo rápido, articulado e muitíssimo talentoso, guia-se pelos parâmetros dos grandes futebolistas: nunca tem pressa, não comete erros por precipitação e está sempre alerta para aproveitar deslizes alheios traduzidos em centésimos de segundo de atraso na chegada aos lances ou em milímetros de folga em marcações tantas vezes impiedosas. Raphinha é hábil a participar em ações combinadas de progressão participada, que melhora a cada toque na bola, e faz disparar as sirenes que prenunciam a desgraça quando pega na bola, vai direito ao assunto e assina quadros esplendorosos nos quais todos têm um papel a cumprir: ele como protagonista, a bola como instrumento da emboscada e os adversários como vítimas da desgraça.

Claro que não é ainda um projeto concluído; que a técnica escandalosa precisa de ser apetrechada com melhor entendimento tático; que jogar em bicos de pés, como se não quisesse fazer barulho, muito menos concessões imorais à tresloucada dinâmica dos choques e demais decisões heróicas, precisa de contundência em determinados gestos e movimentos. Aos 21 anos, Raphinha tem tudo para vir a ter uma carreira excecional, de que a passagem por Alvalade poderá ser apenas uma etapa transitória. Agora, basta-lhe progredir naturalmente e não ter azar para se tornar figura maior no Sporting. Correndo algum risco na perspetiva de futuro (é ainda muito cedo), numa análise a médio prazo, se tiver sorte pode mesmo vir a tornar-se um dos grandes jogadores do futebol moderno, figura de uma qualquer potência europeia. E estrela da reserva espiritual do futebol mundial que é a seleção do Brasil.


Um João Félix
a cada 40 anos
Agora até a estatística está do lado dele: 2 golos em 83 minutos na Liga
João Félix não engana – era o que faltava. O futebol costuma ser generoso na descoberta de talentos jovens que, aliás, estão sempre a aparecer. Este é diferente: com tanta classe a resolver e um poder de influência no jogo tão forte, existe um João Félix de 40 em 40 anos. Dirão os mais céticos que os golos a Sporting e ao Desp. Aves foram sorte de principiante. Pois para mim, podia nem tê-los marcado.

Desfrutemos
de Éder Militão
Há jogadores que utilizam a Liga portuguesa como trampolim para outros voos
Éder Militão chegou ao FC Porto como um dos melhores defesas do Brasil, jogador de seleção e com enorme futuro (só tem 20 anos). Mesmo sem estar a jogar na posição perfeita, já revelou o essencial do valor que possui e, com pouco tempo para se mostrar, à sua volta começam a movimentar-se alguns tubarões europeus, Barcelona à frente de todos. É desfrutar dele porque, para o ano, dificilmente cá estará.

Quando Iniesta
perdeu para Messi
A FIFA pretendeu emitir um sinal de mudança mas escolheu mal o momento
Ronaldo perdeu o "The Best" para Modric e a derrota no troféu da UEFA, que parecia exceção, evoluiu para tendência. CR7 foi muito mais relevante do que Luka nas conquistas de ambos pelo Real Madrid e, no Mundial, campeões foram Griezman e Mbappé. Em 2010, Messi e Iniesta ganharam quase tudo, com a diferença de que D. Andrés foi campeão do Mundo e marcou o golo da final com a Holanda. Perdeu. Nunca se soube porquê.
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