De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O parceiro de CR7

O jogo com a Espanha está à porta e, para esse duelo inicial, Portugal terá de adaptar-se à força e às características do adversário. Face a uma equipa que vai reclamar a bola quase em exclusivo e obrigar a Seleção a cuidados defensivos suplementares; em que a distância entre a equipa e os seus avançados vai ser maior do que costuma ser, é importante saber quem acompanhará Cristiano Ronaldo na frente de ataque. André Silva cumpriu esse papel com eficácia na fase de qualificação mas Gonçalo Guedes, por versatilidade tática e características globais, parece levar a melhor.

Numa equipa em que a distância entre a retaguarda e a frente será maior que costuma ser, cabe melhor um jogador como GG, de traços largos, que alimenta melhor o jogo longo e dá saída mais acutilante às transições ofensivas. É um jogador mais impreciso e menos criativo do que AS, por exemplo, mas que satisfaz a exigência de deslocamentos mais amplos e constantes. Apesar dos 2 golos à Argélia, o passado diz-nos que tem o instinto goleador danificado, embora as virtudes sejam mais relevantes do que os defeitos. GG é um puro-sangue entusiasmado e fresco, que acredita nas suas qualidades até à insolência; duplicou a largura de ombros e não perdeu nem velocidade nem agilidade; tem a vertigem nas pernas e um conceito próprio de distância. Não inventa, corre; não teatraliza, vai direito ao assunto; não dribla, acelera; não engana, derruba.

Nani era perfeito como parceiro de CR7, porque conjugava, como nenhum outro, daquele e deste tempo, as obrigações do futebol direto com o requinte técnico dos desequilíbrios fomentados em posse. Agora que, no final de uma época em que nada lhe correu bem, ficou fora da lista, é preciso reconhecer-lhe a excelência da contribuição para o título europeu e o talento sublime como delfim de CR7 durante quase uma década.

O Mundial da Rússia surge na vida de GG como a primeira montra da carreira. Aos 21 anos interpretou com perfeição todas as etapas vividas desde os tempos em que cumpria apenas o guião para não se distrair. Só mais tarde se emancipou das ordens do treinador, quando percebeu que a força, a explosão, perigo e a aceleração eram armas que ele próprio teria de manejar. Em Valência, numa equipa em que há muitos quilómetros para fazer do meio campo para a frente, comprou a Ducati com que gere o jogo sempre a alta velocidade. A máquina nunca o deixou ficar mal mas, quem inventou a história, recorda que também já o viu andar na motorizada das pizzas. Esperemos que não precise de fazê-lo na Rússia.
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