De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O preconceito que Ronaldo não merece

O futebol é cultura porque a ele está associado um modo de ser; corresponde uma sensibilidade, um estilo e até uma história. Tomemos o exemplo de Cristiano Ronaldo, que cedo entendeu que o Bernabéu não suporta meia dúzia de passes seguidos, enquanto Camp Nou dá conta do seu desagrado se um só jogador insistir em resolver sempre sozinho o que todos aprenderam a solucionar em conjunto. CR7 encarnou a idiossincrasia do madridismo e por isso entrou na história com números e médias mais exuberantes de todos os tempos. A estatística, de resto, não ficará por aqui.

CR7 não é ainda o crepúsculo de um génio; mantém ligado o motor de motivação, competitividade, orgulho e glória, porque ser o melhor continua a fazer parte da matriz que o enquadra. Por continuar a ser tão bom naquilo que faz não precisa de resgatar nostalgias: no presente revela as marcas de um fenómeno como a história do futebol nunca teve e o futuro, mesmo aos 32 anos, configura-lhe prazo de validade razoável para poder ainda acrescentar argumentos à lenda eterna. CR7 continua a render tributo ao império majestoso e definitivo que construiu e a recolher os merecidos louros de um percurso magistral, alucinante, arrasador, único. Está a fazê-lo mais sereno, assente na maturidade de quem se aproxima da veterania, embora com a certeza absoluta de que ainda faltam quatro ou cinco capítulos ao livro de ouro do seu legado futebolístico.

Exemplo de um artista que consolidou em vida o reconhecimento e a fama de que outros só beneficiam em glórias póstumas, CR7 teve a ousadia de encarar a carreira pensando sempre em grande. A perfeição, essa donzela inatingível para os homens normais, nunca foi quimera para as suas ambições de extraterrestre. A luta homérica trouxe-lhe os dissabores da incompreensão por determinadas atitudes e declarações intempestivas, desassombradas, algumas até chocantes. Ao fim de tantos anos, devemos reconhecer que por trás dos trovões houve (e há) uma luz de ternura e genuinidade a iluminá-lo. CR7 prepara-se agora para uma das últimas etapas da grande corrida: o combate heroico contra os estragos do tempo. Acabará por perdê-lo. De nada lhe valerá ser um deus dos relvados e nunca se dar por vencido: os divinos, como os cidadãos normais, não escapam ao inexorável destino imposto pelos limites da condição humana.

Símbolo maior de um pequeno país, a quem faltam expoentes mundiais na maior parte das atividades da vida (as fundamentais e as supérfluas), CR7 é monstro de um jogo que é espetáculo, indústria e fenómeno social. Está num patamar superior, longe dos terrestres, mas nem essa evidência geradora de orgulho lhe proporciona o reconhecimento consensual dos compatriotas. Talvez devesse tocar piano e falar francês; recitar Pessoa e ouvir Bach; ver Truffaut e admirar Picasso; ser humildezinho e pedir desculpa pela ousadia de ser um dos melhores do Mundo de todos os tempos.

No nosso imaginário, o cumprimento de alguns feitos suscitavam frase alusiva ao ciclismo: "É como passar de camisola amarela à porta de casa." CR7 saiu engrandecido na noite de gala em que pisou pela primeira vez o relvado do deslumbrante novo estádio do Marítimo, em festa na qual se conjugaram vontades e interesses da FPF e da ilha que o viu nascer. Mas a bondade de decisões esbarra no habitual preconceito em relação ao futebol, oriundo de uma intelectualidade sem sensibilidade para entender os gostos populares. Assim se explica a divergência relativa à intenção do Governo Regional da Madeira conceder ao seu aeroporto o nome de Cristiano Ronaldo. Para os contestatários, CR7 não passa de um rapaz bem-parecido, musculado, excêntrico, que dá uns pontapés na bola. É-lhes difícil, quase impossível, entender que estão na presença do madeirense mais relevante de todos os tempos.

Pizzi continua sem ter Seleção
O médio-centro gosta de assumir o papel ditando ordens desde o início

Pizzi tornou-se um jogador de referência no Benfica (muito influente na equipa) e no futebol português (exerce o talento na melhor orquestra nacional dos últimos anos). O novo maestro da Luz obrigou o tricampeão a jogar à sua volta e poucos atingem essa dimensão congregadora. Falta-lhe agora a Seleção. O máximo que tem conseguido, porém, é integrar uma carruagem menor no último troço das viagens.

A consistência de André Silva
Há jogadores cuja consistência global os faz resistir a qualquer golpe

André Silva perdeu protagonismo no FC Porto, vendo assim travado um processo de afirmação galopante no futebol português e europeu. A chegada de Soares implicou inversão de prioridades para a frente de ataque do dragão, com prejuízo do jovem ponta-de-lança e potencial maior negócio da história azul e branca. Uma situação transitória, como faz sempre questão de mostrar na Seleção Nacional.

Guerreiro da cabeça aos pés
Bênção para treinadores, a polivalência pode ser nociva para jogadores

Raphaël Guerreiro é um caso à parte. Quando joga na Seleção sugere a ideia de que é dos melhores laterais-esquerdos da Europa; pelo Dortmund, em zonas mais adiantadas e centrais, confirma a suspeita de que tem talento para intervenção mais abrangente. É um defesa com sentido ofensivo e um médio criativo com perfeita noção de segurança e equilíbrio. É, afinal, um jogador completo. Da cabeça aos pés.

Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação desportiva.
  • conteúdo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão epaper do jornal no dia anterior
  • conteúdos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.