De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O príncipe do futebol português

O espaço descobre-o num abrir e fechar de olhos; as ideias são claras e os objetivos estão sempre muito bem definidos; a visão é escandalosa e a orientação de cada movimento é feita muito à frente do que estamos a ver; observa mais longe, como se houvesse um atraso de pelo menos 15 segundos entre o que os nossos olhos alcançam e o final da ação. A abordagem aos adversários confirma o estilo, marcado pelo engano sempre presente em tudo quanto faz – jogadores como ele não podem ser observados nos olhos, porque são mentirosos, emitem intenções todas elas equivocadas. Muitas vezes Bernardo Silva dá imagem de arrogância: tem uma fé insolente nas suas capacidades e acredita nele próprio com tanta convicção, que chega a parecer orientado por sentimentos narcisistas. Nada disso corresponde à verdade. Como depois se verá.

A bola segue sempre colada ao pé esquerdo, por norma da direita para o meio, e todos percebemos que não se engana no caminho; o perigo aumenta a cada centímetro que conquista no trajeto que o aproxima da baliza contrária. É como se ele e a bola fossem um corpo uno e indivisível que só ele separa quando dispara para o golo – e foram perto de 40 no Monaco e no Man. City – ou solicita companheiro em melhor posição.

Não é um projeto concluído, e ele sabe-o, mesmo tendo consciência de que já tem requisitos sublimes para figurar entre os melhores da atualidade: técnica individual ao nível do último grito da tecnologia; imaginação ilimitada como artista sublime; precisão milimétrica em cada gesto, perfeita gestão da velocidade e domínio absoluto dos segredos do futebol como desporto coletivo. BS assombra com a genialidade de invenções individuais de todo inconcebíveis mas a dimensão total do jogador que já é e do que pode vir a ser no futuro, só a expressa pelo modo como integra e potencia o exército de que faz parte.

BS responde cada vez melhor à estatística, sem ferir a sensibilidade do adepto. A grande arma desde sempre tem sido a capacidade para interpretar cada passo da carreira: foi um espírito livre quando o pôde ser, que jogava para ser feliz e mostrar a arte que nasceu com ele; não se deslumbrou nem se deprimiu com a montanha-russa de emoções por que passou no Benfica; aprendeu todas as lições de Leonardo Jardim no Monaco; prossegue a graduação tática, completando todos os elementos que faltam ao puzzle, sob o comando de Pep Guardiola, para quem "é impressionantemente bom em tudo quanto faz". A prova da sua extraordinária inteligência ao serviço do campeão inglês é o modo lúcido e sem polémicas com que reage a qualquer decisão do treinador: pode estar dentro ou fora; entrar a 5 minutos do fim ou sair ao intervalo; jogar todos os minutos ou passá-los no banco. No fim é sempre um jogador feliz.

A caminho do primeiro grande palco da carreira, BS já conquistou direito a ser visto como o príncipe do futebol português; a esperança maior como herdeiro do trono de CR7; o génio mais arrebatador de uma geração com escassas referências definitivas. Talento superior, que chega à Rússia com 23 anos, BS tem pela frente um longo caminho para cumprir o destino que o seu talento pressupõe. Para isso, precisa de não dar por concluído o processo de crescimento e continuar a aprender com Guardiola e Fernando Santos; de dar continuidade à revelação de um talento cada vez mais arrebatador e universal; de se prestigiar ao ponto de aumentar o duplo efeito no jogo, como inspiração e intimidação. Se sintetizar numa competição curta como o Mundial o génio que revela avulso durante a época, é preciso que os inquilinos do patamar mais elevado da hierarquia se acomodem. Não se trata de atacar lugar entre os melhores da sua geração. Trata-se de delimitar o espaço entre os maiores da história.

Quando Cristiano disse "boa-noite"

CR7 conquistou a 5.ª Champions e, no fim, parecia desenquadrado da festa. Aproveitou, então, contra a todas as expectativas, para lançar uma bomba na celebração: "Foi muito bonito estar no Real Madrid." A frase e o seu efeito planetário tiveram um problema: é impossível que a grande estrela do maior clube da história se despeça como se estivesse a dizer "boa-noite". Terá de fazer melhor e ser mais convincente.

A renovação dos centrais

Pepe não é apenas o melhor central da Seleção: é o único com dimensão internacional, aquele que, apesar da idade (35 anos), lidera a lista destacado. Tê-lo nesses moldes é um risco permanente (é exemplar único), mas não tê-lo pode tornar-se uma tragédia. Para já, Portugal vive com o que tem – e nem pode queixar-se. Mas depois do Campeonato do Mundo, como já disse Fernando Santos, é imperioso renovar.

A boa resposta de João Mário

João Mário viveu época difícil. Não teve sorte: foi parar às mãos de treinadores que não entendem o seu futebol requintado e que, por certo, o criticaram pela falta de faísca sempre que disputava um lance. Fernando Santos não abdica dele e faz muito bem. Frente à Tunísia, num jogo que acabou mal, atuou com a serenidade de um grande, pautando o jogo de Portugal. E ainda fez um golo fantástico.

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