O projeto Nélson Semedo
O futebol foi criando mecanismos para valorizar os defesas-laterais, procurando dotá-los com talento para atacarem ao nível de um extremo. Tirando uma fase em que era habitual desviar centrais para os lados, com a única intenção de ocupar espaço, a tendência mais vulgar é de, em função da casa de partida, onde o mais importante é ser moderado, responsável e bom defensor, saiam aventureiros que criem desequilíbrios do lado oposto do campo – no início, por norma, criam-nos à frente mas também atrás. Jorge Valdano conta a célebre história do treinador do Sportivo de las Parejas, Hugo Arduzzo, que exigia ao seu lateral-direito que disparasse para a frente mal a equipa ganhasse a bola e atacasse durante o jogo todo. ‘El Negro’ Cardoso, veterano de muitas batalhas, a quem já sobravam varizes para tanta correria, pôs as coisas no lugar: "Está bem míster, eu vou, mas a que horas volto?"
Ao contrário de outros que ainda não calibraram a intervenção no jogo (em voga estão extremos adaptados a defesas), Nélson Semedo já deixou de pecar por omissão. Vai mas volta. Está sempre. Pode cometer erros, é verdade, mas de outra índole: por más tomadas de decisão sem bola; dificuldade para entender o jogo em termos táticos ou desconcentração para adivinhar intenções alheias. Sendo rápido a reagir, retifica quase todos os deslizes que ainda vai protaginizando, desde logo muito menos comparados com os cometidos há pouco mais de um ano.
É surpreendente a frieza, a precisão e a visão quando surge do outro lado do campo, de olhos postos em potenciais finalizadores. Na zona de definição respira fundo e decide quase sempre bem, qualidade tanto mais notável quanto o momento corresponde à última etapa das sucessivas cavalgadas por todo o flanco. São pequenas-metragens magistrais de quem passa 90 minutos em máxima rotação e, no fim, baixa as pulsações, levanta a cabeça e oferece o último toque em forma de golo anunciado, à semelhança do que fez frente ao Chaves, com Mitroglou e Rafa – e vão 6 assistências na época. NS oferece matéria concreta para lá do encontro marcado com o esforço, do triunfo por insistência e da comoção provocada pela entrega. Transporta a virtude que leva de vantagem no ADN e só atinge a expressão máxima quando se cruza com a inspiração e apela à intuição que o empurra para ações suscetíveis de resolver jogos, adquirindo assim o estatuto de herói que, em princípio, não lhe devia caber.
NS é um dos projetos mais entusiasmantes em Portugal; um lateral munido de todas as armas requeridas pelo futebol moderno e que se tem completado com elementos do senso comum. É um prodigioso explorador pelo flanco direito, rápido, ágil, inteligente e coordenado; dono de técnica sublime para alimentar os gestos mais simples (passe, receção, toque, remate, cruzamento…), revelando suprema habilidade para criar assombro pelos dribles, pelo estímulo ao jogo combinado e pelo talento individual superior que lhe permite, pelo caminho, tirar coelhos da cartola como se fosse um artista deslumbrante capaz de fazer levantar o estádio. Aos 23 anos, precisa apenas de continuar com os sentidos despertos e agir como se estivesse a viver uma etapa transitória da carreira; e entender que o nível extraordinário já atingido não é o fim da corrida mas uma aproximação ao que pode alcançar.
Quando moderar os ímpetos criativos e mantiver no horizonte a necessidade de defender cada vez melhor, enriquecendo assim o disco rígido com argumentos táticos mais sólidos, terá tudo quanto precisa para ser um dos melhores laterais-direitos do Mundo. E o lugar de jogadores com essa dimensão é num dos maiores colossos do futebol. É esse o futuro glorioso que o destino lhe reservou. Para alcançá-lo já só precisa de manter a rota.
Gelson confirma que é um génio
Na época de afirmação nem os craques costumam ser tão influentes
Gelson perdeu algum do fulgor exibido na temporada. Isto é, deu sucessivas demonstrações como artista do futebol e um dos mais apetecidos jogadores do mercado; desceu um degrau e tornou-se, ‘apenas’ (e as aspas são mesmo precisas), o melhor jogador do Sporting. Cumpre assim os requisitos da exceção: nunca joga mal e é sempre a referência criativa da equipa. Simplifiquemos: é um génio do futebol.
Soares comanda ataque portista
Quem troca uma equipa média por uma grande demora a afirmar-se
Soares é exceção à regra: chegou ao Dragão vindo de Guimarães, foi logo titular (com o Sporting) e começou a fazer golos desde então – em 4 jogos consecutivos para a Liga já leva 5 tiros certeiros. Numa tarefa de difícil inserção, em que cumplicidades e rotinas contam, Tiquinho comanda o ataque do FC Porto como se ali estivesse há anos. Satisfazendo o senso comum e, ainda mais incrível, a estatística.
Segundo troféu de José Mourinho
Passada fase de indefinição, o Man. United tornou-se um exército temível
José Mourinho ganhou o segundo troféu da época. A equipa cresceu imenso: desde que perdeu com o Chelsea (0-4), a 23 de outubro, decorreram 16 jornadas sem derrotas na Premier League. O United é favorito na Liga Europa, jogará os quartos-de-final da Taça de Inglaterra e, apesar dos 15 pontos de atraso para o líder da Liga, só está a 2 dos lugares da Champions. As conquistas podem não ficar por aqui.
