O que Sérgio tem para dar ao FC Porto
Na construção do vasto império de conquistas, definido ainda nos anos 80, estão traços genéticos de superação e conflito; a escola, feita universidade na definição de um perfil, orientou-se por manual de comportamento que está na génese do ciclo vitorioso mais longo e dourado em Portugal. No futebol, o estilo corresponde à sensibilidade depurada com o tempo e acaba por espelhar um modo de ser e estar na vida. Em meios com raízes tão profundas, é impossível abdicar da ligação sentimental ao clube, omitir as regras que lhe dão forma e contrariar o código genético de que os adeptos são a máxima expressão. Desde André Villas-Boas que o FC Porto não tem um treinador que concentre todos os elementos ideológicos que o orientam, apesar dos títulos de Vítor Pereira e da qualidade intocável de Paulo Fonseca, Julen Lopetegui, José Peseiro e Nuno Espírito Santo.
Sérgio Conceição está habilitado a validar o futebol como cultura que, no Dragão, corresponde à sensibilidade coletiva que desenhou um estilo e edificou uma história. O ideal, comprometido pela uniformização em curso nas últimas décadas, é que as equipas joguem de acordo com os parâmetros exigidos pelo seu povo. Quando essa era a regra, o futebol parecia-se com o lugar onde nascemos, crescemos e nos tornámos homens. Nos tempos de hoje é difícil chegar ao FC Porto e, num estalar de dedos, recuperar a estética que o identifica. Mas valerá sempre a pena lutar contra a evidência de as equipas estarem a transformar-se, em exclusivo, no reflexo de um conjunto de profissionais unidos pela linguagem universal do jogo, pelo desejo de ganhar e pelo talento expresso em Portugal, na China ou no Pólo Norte. Também por isso SC terá de remeter parte do trabalho para as mais profundas raízes do portismo.
A meta não é só jogar "à FC Porto" mas convocar um vasto exército, composto por todos os elementos da família, que se una nas ideias, no compromisso e no discurso. SC esclareceu que já não se ganha no grito. Decisivo é edificar uma proposta indiscutível, aglutinadora de todas as sensibilidades e que os seus pressupostos galvanizem a nação azul e branca. Em causa está o reavivar da alma do dragão e, assim, cativar hierarquia, povo e adeptos neutros. SC é um eterno insatisfeito, com gene competitivo do tamanho do mundo, que concilia saber e coragem; estudo e intuição; emoção e racionalidade; paixão e independência; compromisso e irreverência; ambição e realismo; justiça e revindicação; linearidade e sofisticação.
O novo FC Porto está obrigado a ganhar. Mas esse não é, por certo, o único objetivo do seu mentor: sendo o passo mais seguro para o afeto, o êxito pode também ser um mero dado estatístico. Para cumprir na plenitude o sonho que o acompanha na mais importante etapa da carreira, SC está impelido a dar vida a uma equipa apaixonada, orgulhosa e com sentido de representação da sua base de apoio; uma equipa que consolide referências definitivas e garanta um lugar na memória coletiva. O terreno perdido foi tanto que travar o penta benfiquista é o mínimo exigido. Para unir a família e devolver-lhe a esperança, porém, vai precisar de mais. Lá chegará o dia em que à eficácia do resultado terá de juntar a beleza que enche a alma e abre as portas da eternidade.
SC não vai descurar as verdades mais simples, a principal das quais conquistar os jogadores para a causa, de modo a entenderem os benefícios do guião e da harmonia para construírem um final feliz. A abordagem ao FC Porto 2017/18 é, por enquanto, mera previsão. Ganhe ou não, desde que mantenha fidelidade às ideias e ao estilo, não vejo inconveniente em renovar-lhe confiança e admiração. E revelar publicamente a convicção plena de que terá sucesso na empreitada de risco neste regresso ao reino do dragão.
Enorme desafio de André Silva
Nuno Espírito Santo não vacilou nas opções. Mesmo nas mais discutíveis
André Silva cumpre na Seleção o futuro que, de um modo geral, todos lhe atribuem como destino final. Na Seleção ele é, de corpo inteiro, o ponta-de-lança que faltava ao futebol português e a promessa do fenómeno que vai herdar a chama goleadora de CR7. O troço final da época não lhe foi favorável: passou a suplente de Soares que, entrando bem, se apagou com o tempo. O Milan será um enorme desafio.
O preço certo de maestro Pizzi?
Há jogadores cujas características não cumprem os requisitos do mercado
Pizzi é o maestro a quem falta magia instantânea para cumprir as regras em vigor. Valorizar um talento altruísta, que eleva ao coletivo a arte do engano, obriga a tê-lo debaixo de olho uma época inteira. Jogador de difícil inserção, não lhe basta estar: estando, precisa de ter responsabilidade no rumo da expedição. O Benfica pede 35 milhões. É um número como outro qualquer. Cá para mim, Pizzi não tem preço.
Gelson acima dos grandes
Se tudo correr normalmente, está por fazer o maior negócio do defeso
Gelson Martins construiu um futuro brilhante. Numa equipa em dificuldade permanente a partir de certa fase da época, o jovem extremo leonino revelou qualidades extraordinárias e atingiu esplendor assente em qualidades raras. Por talento, regularidade, estilo e eficácia situa-se num patamar acima daqueles que são apenas grandes jogadores. Estará no centro de um dos maiores negócios de sempre em Portugal.
