De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O tremendo crescimento de Bas Dost

O futebol aceita altos e baixos; frágeis e potentes; cavalheiros e bandidos; corajosos e medrosos; gordos e magros; ricos e pobres – porém, seja qual for a circunstância, nunca pode abdicar da inteligência. É o caso de Bas Dost, atacante que passa semanas, meses e épocas a fio confirmando a regra, prejudicado pela integração numa equipa cedo afastada das grandes conquistas. Na reta final da época, o Sporting sustenta um ponta-de-lança de nível europeu, o que suscita várias reflexões sobre o que falhou em 2016/17: às saídas de João Mário e Slimani, os dois leões em maior destaque na época passada, Jorge Jesus respondeu com Gelson Martins (o melhor jogador da Liga) e Bas Dost (o melhor marcador). Para lá de ajustamentos táticos, equívocos e prejuízos arbitrais, substituir Teo Gutiérrez foi o maior problema. Antes de cristalizar a opção em Alan Ruiz, ao lado de BD passaram Campbell, Bruno César, Bryan Ruiz, Markovic, Castaignos, André e até Podence já por ali andou.

É impressionante como um jogador de quase 2 metros consegue ser tão articulado no que faz, tão estético nos gestos e tão ágil nos movimentos; como sendo tão diferente de quem o rodeia é capaz de promover diálogos com linguagens futebolísticas distintas (participa no desenvolvimento do processo ofensivo) e acrescentar-lhe qualidades que só ele possui (precisão incrível em todos os elementos da finalização). Prova de que as mais requintadas habilidades só são purificadas quando alguém dá à bola o caminho da baliza, BD cumpre o seu papel de atirador inclemente: não é um virtuoso na condução ou um fantasista que tira coelhos da cartola mas nunca sugere intenções equivocadas; não mente, evita salamaleques e recusa truques de magia. É um pistoleiro de gatilho fácil e certeiro, protagonista de sucessivas explosões de clarividência.

BD concentra as armas que distinguem fatores destinados a confundir-se. Não tem habilidade para fintar, recriar-se com truques e encantar plateias sedentas de momentos extraordinários; mas tem técnica absolutamente cristalina e irrepreensível, com a qual alimenta um futebol sem pompa mas eficaz: sabe jogar de costas e guardar a bola; é perfeito a receber, dominar e a dar seguimento aos lances; raramente falha um passe, mesmo quando está apertado, e nunca se engana nos caminhos para chegar à zona que define como seu habitat; o remate é certeiro e a inteligência está presente no sentido posicional que lhe permite deixar assinatura no momento mais festejado do futebol: o golo. Como é habitual em jogadores com esta envergadura foi desdenhado sob a eterna acusação de tosco e desajeitado. Hoje é mais fácil reconhecê-lo pela ótima utilização do corpo e desmarcação com sentido prático. Não costuma falhar o encontro com a bola e é quase infalível nas ações de golo a um toque.

Aos 27 anos, assente em ideias claras, decisões rápidas e eficácia acima da média, está a deixar marca indiscutível no Sporting. BD é um avançado que resolve com simplicidade, força e potência, enquadrado por um mestre habilitado a melhorar-lhe o desempenho – com Jorge Jesus ganhou dimensão inexistente quando chegou a Alvalade e regista tremendo crescimento a todos os níveis. Pelo que já fez e ameaça conseguir daqui para a frente, o holandês revela-se um ponta-de-lança mais evoluído e completo do que Islam Slimani, seu antecessor no Sporting; um goleador que continua a dar satisfações à estatística (indispensável para quem muito depende dos números) e vai construindo um império grandioso de emoções, paixão e reconhecimento (joga cada vez melhor). Na luta pela Bota de Ouro europeia, a coroação internacional tornou-se agora uma causa coletiva para a família leonina. Que a época perdida no essencial sirva, ao menos, para ajudar à glória de um dos seus elementos.


Quando faltam nomes próprios

É difícil não concordar com as opções táticas do Benfica no Capital do Móvel

O carrossel encarnado aproximou da baliza pacense e nele seguiram todos os conceitos, combinações e cumplicidades coletivas – daí resultou um domínio absoluto que confirmou a intenção. Mas, aí chegado, faltou quem pegasse na bola, tirasse um ou dois adversários da frente e inventasse um golo. É assim mais fácil perceber que o futebol, sendo um jogo de conceitos, é também uma arte de nomes próprios.


Nuno utilizou sete avançados

O FC Porto falhou uma ocasião de baliza aberta para chegar à liderança

O Dragão mobilizou-se para ajudar à festa e a equipa procurou corresponder à relevância do momento. Num jogo de sentido único, o FC Porto atacou do princípio ao fim e utilizou a totalidade do poder de fogo disponível – não ao mesmo tempo, Nuno Espírito Santo recorreu a André Silva, Soares, Corona, Brahimi, Depoitre, Jota e Otávio. Trata-se agora de sarar as feridas que a enorme deceção causou.


O grande golo de João Carvalho

O jovem que o Benfica emprestou ao V. Setúbal foi decisivo no Dragão

João Carvalho é uma das jóias da coroa do Seixal – tendo 20 anos, é apontado há muito como potencial craque. Frente ao FC Porto assinou uma obra-prima. Tendo em conta a passividade defensiva do adversário e o azar de Felipe (escorregou), o golo podia fazer-se de muitas maneiras. Mas poucas seriam reveladoras de tanta classe como a escolhida pelo miúdo que, confirma-se, tem tudo para ser uma estrela.


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