De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O último fôlego de um génio

Em mais de três décadas de hegemonia, o FC Porto seguiu linha ideológica e desportiva orientada pela estratégia visionária de um homem sem tempo: Jorge Nuno Pinto da Costa. Durante anos, o dragão refletiu o sentir dos adeptos, porque presidente, treinador e jogadores partilharam elos de ligação emocionais e expressaram-se segundo uma estética e um estilo que os identificou. Foram equipas que conquistaram o país, a Europa e o Mundo jogando de acordo com os padrões exigidos pelo meio em que viviam, segundo a história que os suportava e a fase de exaltação por que passavam. Em confronto com adversários que cedo revelaram manias de grandeza que os conduziram ao fracasso, no FC Porto quase todos os futebolistas souberam entender que a verdadeira grandeza do compromisso com a profissão se traduzia não só em jogar por algo (a vitória) mas acima de tudo por alguém (os adeptos).

Resistente ao tempo de uniformização, que foi pondo em causa a romântica visão de outrora, JNPC cometeu erro estrutural raro (todos juntos, desde 1982, contam-se pelos dedos de uma das mãos): delegou poder absoluto a um treinador capaz de enriquecer o plantel com joias de talento ilimitado – Tello, Casemiro, Óliver, Brahimi, Indi, Casillas, Corona, Imbula… – mas que também apostou em peças de pechisbeque a quem vamos poupar os nomes, porque o espaço tem limites e ainda há muita coisa por dizer. Julen Lopetegui não esteve à altura das expectativas. O seu FC Porto foi um grupo de profissionais unidos pela linguagem universal do futebol, empenhados em ganhar mais por interesse individual do que pelos elos de ligação à bandeira; por atributos técnicos e táticos que até podem ser de excelência mas cujos vínculos aos alicerces do clube se revelaram voláteis ou até inexistentes.

Não é fácil esclarecer a dúvida sobre o que levou o presidente mais ganhador da história do futebol a colocar-se nas mãos de um treinador sem provas dadas; entender como pôde um homem ligado a todos os títulos conquistados pelo FC Porto (22 campeonatos nacionais e 7 conquistas internacionais) em quase 60 anos, precipitar-se só porque o fracasso lhe bateu à porta em 2013/14; avaliar a motivação que impeliu o maior génio do dirigismo desportivo nacional de todos os tempos a dar um salto no escuro, ele que, mesmo quando pareceu correr riscos ao longo da carreira, raramente se equivocou, orientado pela velocidade de ponta da inteligência que é o instinto. Aqui chegados, é indigno e de uma ingratidão sem limites denegrir quem está para a governação institucional como Eusébio e Cristiano Ronaldo estão para a bola ou José Maria Pedroto e José Mourinho para o treino; é de uma baixeza aviltante desvalorizar a obra e os méritos de quem elevou o clube de uma cidade a um dos maiores colossos do futebol mundial.

JNPC cometeu erros e excessos que o juízo do tempo não deixará de registar como episódios obscuros de uma história grandiosa. Mas se a nação azul e branca validou uma liderança que nem sempre olhou a meios para atingir os fins; se não relevou o incumprimento de alguns ditames de ética, elegância e, em certos casos, da própria legalidade, tudo em nome de um sucesso nunca antes alcançado, falta-lhe agora legitimidade para discutir o futuro apenas em função de um curto lapso temporal sem vitórias. JNPC tem direito a assumir o combate e acreditar que vai ultrapassar um ciclo descontextualizado do percurso que o trouxe das trevas ao céu dos deuses mais respeitados e venerados do futebol mundial. Terá de encontrar um último fôlego para mostrar que, mesmo atrás de rivais que se fortaleceram a todos os níveis, ainda dispõe de condições para construir uma equipa campeã. A parada está alta e não permite deslizes. Se me permitem a opinião, o FC Porto 2016/17 será um exército temível.

Uma referência de bom futebol

Pizzi deve ter gelado quando colocou Arnold diante Ederson no último instante do jogo com o V. Setúbal. O médio encarnado continua a ser um dos jogadores mais injustiçados da equipa de Rui Vitória, na qual desempenha papel fundamental. Sendo o principal interlocutor de Jonas e Gaitán, por talento e autoridade cada vez maior, há quem só lhe veja as limitações. É uma das referências do Benfica 2015/16.

Schelotto ganha pontos no onze

Schelotto consolidou lugar no Sporting e a opção de JJ faz sentido. Numa zona ocupada por João Mário, cuja ação passa pelo apoio à zona central do meio-campo, é importante que alguém ocupe o flanco em posse. A importância começa pela mera presença; mas o ítalo-argentino está a tornar-se cada vez mais participativo, influente, preciso e talentoso nos movimentos no último terço do campo. Uma aposta ganha.

Espiral de erros deu em escândalo

Jonathan Moss entrou numa espiral de disparates . Não foram erros de circunstância: foram falhas grosseiras acentuadas pela incoerência. O jogo terminou com um penálti ridículo a favor do Leicester. Mas antes houve interminável lista de decisões escandalosas: a expulsão de Vardy, a grande penalidade para o West Ham, outra escamoteada ao líder. Em Portugal, dava para uma década de discussão.

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