De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Os luxos sublimes de Jonas

Na rua iluminava o quarteirão com a aura de um talento infinito, acompanhado pela maturidade de quem conheceu o futebol antes mesmo de alguém lho ensinar. Hoje, reclama liberdade e confiança para se expressar, as mesmas que, nos tempos idos da infância, lhe permitiram evitar a anunciada derrota social. Antes para alimentar o eterno sonho da prosperidade, agora para recuperar as melhores recordações de menino, Jonas atribui à bola e ao jogo a importância da vida: não pode viver sem eles. É um génio do futebol que se apetrechou com o luxo de criações sublimes, a solidez do compromisso com as comunidades que o acolheram e o orgulho de ser profissional, sem beliscar a força dos elementos que lhe definiram o perfil: atrevimento, provocação, revolta e ambição.

Jonas podia ser um dos capitães de areia de Jorge Amado, o malandro para quem o pequeno delito não é propriamente crime; um pouco de batota e informação equivocada, emitida em cada gesto e movimento, são apenas parte do seu padrão criativo; iludir os carrascos espalhados pelo espaço ofensivo obedece ao estilo e aos princípios de quem luta por sobreviver e ser feliz. Tudo em nome da autoestima, da causa que defende, da comunidade que representa e dos amigos com quem reparte o suor, a dedicação e os objetivos. Sendo um jogador pouco escrupuloso com as regras vigentes – se puder ludibriar a autoridade máxima em campo não hesita um segundo –, não custa imaginá-lo de boné com a pala para trás, olhar enigmático e roupas despreocupadas pronto a qualquer malfeitoria menor. É para isso que ali anda: para evidenciar a arte de que é feito e aproveitar os erros alheios.

Pode perceber pouco de etiqueta mas sabe tudo sobre paixão, engenho, picardia, aventura e solidariedade. Se o futebol é engano, ele é o futebol, porque poucos são tão perfeitos nessa arte de mentir com todo o corpo; de dar informações equivocadas aos adversários e de, entre um monte interminável de opções para cada lance, escolher precisamente aquela que mais cedo abandonou como solução. Numa equipa de tendência atacante, tem marcado a ritmo alucinante (26 golos na época, 57 em ano e meio de águia ao peito), mais do que seria suposto atendendo à correlação de estilos e de funções com Mitroglou, seu parceiro de ataque – João Pinto pincelava as obras-primas mas era Jardel quem as assinava; Saviola encantava a plateia e multiplicava a produção mas os golos eram de Cardozo… Sendo candidato à ‘Bota de Ouro’, cabe-lhe, acima de tudo, assumir-se como denominador comum da dança coletiva que antecede o remate final.

César Luis Menotti disse um dia, pensando em futebol, que o Mundo também devia estar grato a quem levou o piano a casa de Mozart, relevando a importância do músculo na expressão artística. Em muitos casos entendidos como fracassos de Jonas importa reconhecer que nem sempre os carregadores de piano cumpriram o seu dever; que o facto de não ter havido concertos grandiosos se deveu mais aos solavancos que afetaram o instrumento do que à desinspiração do criador. O brasileiro melhora o futebol daqueles com quem entra em contacto; é um goleador temível mas também um jogador sublime, que alimenta o enlace criativo da equipa e dá perigo, malícia, brilho e emoção a cada bola em que toca; um génio que combina a frieza dos números e o calor de quem deslumbra e exalta as bancadas com invenções deslumbrantes que põem a máquina funcionar. Com muitos ou poucos golos, em palcos de maior ou menor dimensão, perante adversários mais ou menos categorizados, só por preconceito ou ignorância alguém se atreve a discutir-lhe os méritos, recusar-lhe a influência e não o reconhece como um dos melhores avançados da história do Benfica. Negócio da China é não aceitar que o mercado o leve.


Otávio caminha para o Dragão

Aos 21 anos, está a desenhar com precisão notável o regresso à casa mãe

Otávio é a prova de que o talento requer sentido de orientação, liberdade e confiança para atingir patamares de excelência. Num cenário de escassez, Sérgio Conceição inventou e lapidou a pérola que deu dimensão superior à equipa que comanda. Se encontrar no FC Porto quem der seguimento ao que já conseguiu em Guimarães, será ele o artista que tem faltado aos azuis e brancos nesta temporada.


Resposta de Suk em cima da hora

A epopeia com o Moreirense teve efeitos positivos automáticos no Dragão

Suk preparava-se para ficar em branco, aumentando as dúvidas se é suficientemente bom para o FC Porto. Apesar da participação em muito do que a equipa estava a fazer bem na frente, continuava a zero e Aboubakar preparava-se para entrar, muito provavelmente para o substituir. O golo do empate salvou-o das críticas injustas, esclareceu dúvidas e ainda recuperou Evandro como 10 que o plantel não tem.


O pé esquerdo de Iuri Medeiros

Por vezes chega a parecer um astronauta em filme de desenhos animados

Iuri Medeiros tem os atributos técnicos de uma estrela: habilidade, visão e descaramento; arte para ser maestro e frieza de goleador. Aquele pé esquerdo tem utilidade, fantasia, eficácia e dimensão à altura das mais modernas invenções da tecnologia. Pode não transportar logo para uma grande equipa a influência que revela no Moreirense. Mas se alguém o lapidar como génio absoluto pode ser um caso sério.





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