Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Para já só precisa de sensibilidade

Nele sempre houve paradoxos irresolúveis: sendo um gerador de felicidade e assombro, a sua expressão facial transmitia tristeza e abstração; assente em raciocínio rápido e perfeito, transmitia o incómodo de um estilo preguiçoso e desapaixonado; foco potencial de luz que iluminava o estádio, encadeava-se com a claridade emitida e agia como quem se assustava no centro das atenções; foi o jogador de uma geração, um dos melhores da história e dos poucos que atingiram esse patamar de excelência sem ter no código genético os genes que beneficiaram outros parceiros de divindade.

Indiferente à paixão. Zinedine Zidane foi um fenómeno de talento individual mas, também, de inteligência na aprendizagem que fez pelo caminho. Foi um dos mais extraordinários chefes de orquestra da história, um general com sentido estratégico notável, um maestro que definia a participação no jogo desde o primeiro balcão e só tomava decisões em prol do coletivo. Quando os holofotes o encontravam depois das obras-primas que assinava, duas ou três por jogo (muitas estrelas ficariam felizes de conseguirem um feito semelhante em toda a carreira), lá estava um rosto inexpressivo e submerso em suor, indiferente à paixão que emitia.

"A síntese de um século". Ficou atrás da genialidade de Pelé, Maradona e Messi; não atingiu as marcas imperiais de Di Stéfano e Cruyff, muito menos a expressão goleadora de Platini, Zico, Rivaldo e Cristiano Ronaldo; faltou-lhe a liderança de Beckenbauer e Mathäus, a explosão de Eusébio e Ronaldo Fenómeno e o binómio drible-velocidade que caracterizou Garrincha, Best e Figo. Apesar disso, Jorge Valdano sintetizou-o de forma brilhante: "É a síntese de um século de futebol e, simultaneamente, uma das duas expressões plásticas mais exuberantes."

O que tem para ensinar. É este craque eterno, que chegou ao topo do Mundo pela generosidade de mãe natureza mas, talvez ainda mais, pelo talento superior com que se aperfeiçoou pelo caminho, que tem agora, aos 43 anos, depois de passagens como adjunto de Ancelotti no Real Madrid e de treinador principal do Castilla, a oportunidade de comandar um dos maiores colossos do futebol mundial. Talvez seja cedo. É quase certo que ao prestígio conseguido como jogador não corresponde o saber, a experiência e a bagagem para assumir tão grande responsabilidade. Ao contrário de outros ex-futebolistas de exceção, que ensinam pelo exemplo e não pela bagagem assimilada pelo tempo, Zidane tem para delegar os elementos que aprendeu pelo caminho e que fizeram dele um génio com menos talento natural do que muitos dos parceiros de viagem.

O míster virá depois. Zizou assume o comando do Real Madrid em condições especiais: a meio da época, em plena tempestade que varreu a harmonia no clube e lhe criou o embaraço de uma agitação imparável sob o comando de Rafa Benítez. Antes de se testar como treinador de corpo inteiro, vai ter de seguir o bom senso, apaziguar os ânimos, tranquilizar as hostes e salvar o que é possível de uma época ainda em aberto. Para tanto precisa apenas de inteligência e sensibilidade sem desmerecer o estatuto de eterna estrela do futebol. O grande míster virá depois. Ou não.

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