De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Puro-sangue com magia nas botas

Tem cara de jogador de póquer: não se sabe o que está a pensar muito menos o que vai fazer. Prova também que o génio se avalia com independência da fita métrica (tem 1,69 m), apesar de haver opiniões contrárias. Conta Jorge Valdano que, na elaboração do plantel como treinador do Valencia (1996/97), um dirigente lhe leu a sentença para o ataque ao mercado: "Ande ou não ande, cavalo grande." Porque ainda há escolas espalhadas pelo Mundo que medem os seus futebolistas pela qualidade, não é por falta de centímetros que Franco Cervi deixará de atingir o topo do Mundo, confirmando de resto a profecia de quem o acompanha desde as ruas de San Lorenzo, onde começou a exercitar as habilidades que foram deslumbrando sucessivas plateias – ele, Gaitán, Salvio, Zivkovic, Gelson, Matheus Pereira, Carlos Mané, Corona, Brahimi e Rafa desempenham funções semelhantes, são jogadores de exceção e nenhum excede os 1,75 m.

O talento expressa-se maioritariamente pelo engano e pelo domínio dos segredos da velocidade – aceleração, travagem e saída para onde o instinto indicar. Jogadores como Cervi põem em causa o futebol metalúrgico que tritura a imaginação e os impulsos das grandes estrelas. A questão é que essa revolta contra o senso comum, sendo potencial fonte de benefícios, também pode criar problemas graves. Sendo assim, e de modo a evitar riscos desnecessários, é imperioso que continue a esforçar-se para consolidar a integração e aprimorar o cumprimento das tarefas básicas no coletivo, atitude sem a qual não confirmará os dotes que o tornam raro e valioso. Se a simplicidade é a velocidade de ponta da eficácia, ser prático é o objetivo principal de qualquer jogador – mesmo havendo quem consiga ser eficaz a partir da complicação.

É um puro-sangue em permanente estado de exaltação, com magia nos pés, que se avalia e projeta a ele próprio como simples milagre genético – e deve entender que prolongar essa visão egoísta só vai atrasar a consolidação da maturidade. Cervi tem ainda uma capacidade extraordinária para resolver situações delicadas que ele próprio cria. Pode tomar decisões desadequadas mas, por ser tão bom e ter tantos argumentos, estala os dedos, promove um golpe de magia e o estádio vem abaixo. Debate-se, por isso, com o problema de muitos jogadores caracterizados pela fantasia e liberdade: a falta de continuidade nos fluxos exuberantes de talento que lhe permitem invenções inconcebíveis, mesmo para quem já viu muitos artistas excecionais. Jogadores como ele geram às vezes a convicção automática de que são fogo de artifício que abrilhanta o espetáculo mas não altera o rumo dos acontecimentos; não interferem como deviam no fim da história e acabam por ter passagem transitória nos nossos corações. É esse desperdício que tem de evitar. Ouvir e aceitar os conselhos de Rui Vitória é sempre um bom início de conversa.

Cervi é uma peça solta da engrenagem, como são quase todos aqueles que se expressam infringindo as regras do coletivo em que estão inseridos. O mago costuma ser corpo estranho na grande fábrica que é uma equipa, razão pela qual é preciso explicar-lhe como pode contribuir para o melhor funcionamento da máquina. Mas também é fundamental convencer o exército das vantagens que podem advir das extravagâncias de um homem singular. Aos 22 anos, Cervi não é um projeto acabado. Pela frente tem agora um processo de adaptação aos padrões táticos e técnicos do futebol europeu; a imperiosa necessidade de moderar os ímpetos mais excêntricos e de acrescentar simplicidade, inteligência e poder de síntese à tendência para adorno, demagogia e brilho pessoal. Quando conjugar todas as peças e completar o puzzle que ele próprio já antecipou – e esta é a grande conclusão da meia dúzia de aparições pelo Benfica –, vai ser um fenómeno. *


Otávio vai ser um caso sério

Otávio fez uma época fabulosa no V. Guimarães. Para quem o acusava de leve nos momentos defensivos, o brasileiro deu resposta tremenda: continuou a tirar coelhos da cartola, normalmente na perspetiva abrangente de coordenar a equipa e apetrechá-la de mais armas para atingir o objetivo, e acrescentou intensidade tremenda na procura da bola. Os sinais são animadores. Vai ser um caso sério no FC Porto.

José Fonte é central de topo

José Fonte começou como tesouro escondido em Southampton e evoluiu para respeitado central na Grã-Bretanha até se transformar numa espécie de património do futebol e orgulho de Portugal. Os 32 anos não ajudam a abordá-lo como jogador de largo futuro mas o que fez em França teve impacto. A consolidação como central de topo foi tal que, imaginem só, tem o Man. United de olho nele.

A evolução de Schelotto

Schelotto não encantou à primeira vista por ser alto, pouco habilidoso e assentar numa estética de sucessivas correrias e poucas ações de grande brilhantismo técnico. Do alto dos seus 1,87 m dava a ideia errada de um jogador descoordenado e inconsequente. O tempo ajudou a analisá-lo melhor: derruba por insistência; desequilibra porque decide quase sempre bem e encanta porque, afinal, executa com precisão.
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