De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Rafa iniciou a viagem para o céu

É uma serpente supersónica, feita de mobilidade constante e movimentos inteligentes. Uma das principais qualidades que revela é saber, cada vez com mais precisão, quando chega a sua hora - nunca tem pressa, nunca mostra ansiedade, tem sempre as emoções sob controlo. Até lá, vai acumulando veneno para descarregar mais à frente. Mesmo nesses momentos de aparente omissão é importante pela forma como se desmarca, como toca e foge, no fundo como cria as condições ideais para que a equipa descubra os espaços que os marcadores deixam vazios na sua perseguição. Atacante de grande coragem no modo como aborda as marcações mais despudoradas, Rafa age como os baixotes para quem o corpo é geografia de fuga e não lugar de colisão (Valdano dixit). Caracterizado por sensações quase todas associadas à vertigem, assenta em qualidade essencial: é senhor de técnica superior, com a qual poupa tempo à execução, princípio básico para tirar todo o partido da rapidez de deslocamento.

Por melhores que sejam as intenções em fazer depressa, dominar mal a bola pode significar a perda de dez metros para dar seguimento à ação - e essa costuma ser a fronteira entre um lance de perigo e outra coisa qualquer. Nem todos quantos possuem as características explosivas de Rafa são capazes de desafiar as leis da mecânica ao ponto de aceitarem a marcha-atrás quando aceleram com a 6.ª engatada. É um futebolista frenético e vigoroso, que cumpre os traços físicos e psicológicos dos craques de baixa estatura (tem 1,68 m). Mais relevante ainda para a definição do jogador que é e das qualidades que tem é o talento de movimentar-se por todo o terreno com o frenesim de avançado e chegar à zona da verdade com a visão de centro-campista. Caracterizado por tremenda tensão competitiva, expressa o orgulho de ser profissional, que o torna comprometido e ambicioso. Há quem saiba aproveitar as autoestradas que levam ao golo e quem conheça os atalhos que conduzem ao mesmo destino. Mas poucos como ele dominam uma coisa e outra.

Rafa é uma peça solta e silenciosa no mecanismo do Sp. Braga de Paulo Fonseca. Mas isso não o impede de, sempre que entra em contacto com os companheiros, ser um maravilhoso multiplicador do rendimento individual dos outros, interferindo assim na dimensão superior do perigo coletivo. Há nele uma paixão irreprimível na procura de ser brilhante e decisivo. É um driblador que domina todos os elementos que compõem a finta: domínio, arranque, mudança de velocidade, travagem e saída para onde manda o instinto - por denotar uma articulação motora incomum, em vez de travá-lo, a bola dá-lhe asas. Não é fácil encontrar, mesmo à escala europeia, quem o supere em muitos dos atributos considerados necessários à vida que escolheu por todo o espaço ofensivo. Está na rampa de lançamento para uma carreira que pode colocá-lo em órbita e levá-lo ao céu - o Manchester United seria um destino de excelência para consegui-lo.

Quando vai direto ao assunto, Rafa tem o atrevimento de um louco e a convicção de um iluminado; reconhece a bola como tesouro comunitário mas sugere que se sente melhor quando a tem nos seus pés; por ser um esplendoroso gestor da velocidade, pouco lhe importa se há muito ou pouco trânsito nas estradas de acesso à baliza contrária. Johan Cruyff costuma dizer que qualquer um sabe jogar futebol se tiver cinco metros para receber a bola e iniciar a ação. Rafa é o fenómeno capaz de inventar um latifúndio a partir de um palmo de terreno, seja onde for e à distância que estiver do objetivo final. Poucos conjugam o talento para alimentar associações curtas de progressão participada e épicas aventuras individuais. Sim, falta-lhe aprimorar o acerto nas tomadas de decisão. Quando atingir o máximo do potencial que possui será um jogador de nível mundial. *

Palavras de CR7 já não enganam

O melhor goleador da história merengue teve declarações polémicas

CR7 confirmou por palavras o que há muito mostrou por atitudes em campo: que não está feliz no Real Madrid e, bem lá no fundo, não se sente totalmente reconhecido no clube. Sim, exagerou na reclamação mas revelou coragem na posição que tomou. Esclarecer a ambiguidade do discurso pode ter amortecido o impacto junto do balneário. Mas não alterou o fulcro do que está em causa: a saída do Bernabéu.

Miguel Silva tem muito potencial

O guarda-redes deve ser avaliado não por um jogo mas por várias épocas

João Miguel Silva foi impressionante com o Sporting, confirmando as qualidades evidenciadas desde que Sérgio Conceição lhe deu a baliza do V. Guimarães: todas as que são comuns a adolescentes com sede de glória (reflexos, coragem, agilidade, sentido de espetáculo…) e outras pouco habituais em miúdos com 20 anos (frieza, sobriedade, eficácia, prudência…). Está ali um grande guarda-redes em potência.

Léo Bonatini tem qualquer coisa

É um tesouro a explorar por equipas com mais ambições do que o Estoril

Léo Bonatini não é um avançado qualquer. Tem a escola de um grande clube do Brasil (Cruzeiro) e chegou à Juventus quando tinha 18 anos. Hoje, aos 21, é um dos melhores marcadores da Liga (13 golos). Por ser muito jovem, está um passo à frente dos parceiros goleadores oriundos de equipas fora da zona europeia: Bruno Moreira (P. Ferreira), Rafael Martins (Moreirense) e André Claro (V. Setúbal).

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