Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

Razões para o sucesso de Rui Vitória

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O futebol é um jogo belo que pobres de espírito e medíocres embruteceram e quase destruíram em nome do pragmatismo; é também um jogo primitivo que os revolucionários têm violado segundo fundamentos filosóficos e científicos desajustados da realidade. Uns assumem que todos os meios são legítimos para ganhar, os outros sustentam complexos de superioridade na pretensiosa argumentação com que sonham transformar um jogo simples numa qualquer operação da NASA. Rui Vitória prova que não é preciso extremar posições para ter sucesso e ser reconhecido na sua profissão. É um excelente treinador por tudo o que fez até ao momento, perfeito para os grandiosos interesses do clube que representa.

RV começou por revelar sintonia com o Benfica; prosseguiu com a aprendizagem de uma realidade desconhecida, traduzida na dimensão laboratorial que o Seixal atingiu; mostrou vastas virtudes como treinador de topo, a principal das quais ser um especialista dos jogadores à sua disposição; orientou o discurso com palavras milimétricas e o trabalho por sentido de justiça irrepreensível; definiu comportamento mais próximo do senso comum do que propriamente de decisões surpreendentes, vocacionadas para ‘mind games’ que outros utilizam como vantagem nem sempre confirmada. RV encontrou a medida certa para as exigências de um grande clube e interpretou a paixão exacerbada de uma família imensa, depositária de gloriosa história com mais de 100 anos; calibrou o comportamento entre conceitos que são seus e as necessidades de quem o contratou, e foi desenhando imenso império de conquistas e afetos.

Deitou-se à estrada, encarou as tremendas dificuldades do caminho e nunca se queixou; não ofendeu adversários e foi campeão nacional em duas épocas consecutivas. O futebol não resolve os problemas desta sociedade em avançado estado de decomposição mas, por oferecer felicidade a vidas cada vez mais condicionadas por pragas como desemprego, fome e corrupção, é uma saída para quem pretende transformar a derrota social em vitórias esporádicas, efémeras mas arrebatadoras. Por isso, sendo uma atividade eminentemente lúdica, não é de estranhar que o homem deposite na defesa do símbolo que traz ao peito a convicção, a força, o empenho e a coragem que rejeita nas causas verdadeiramente importantes para a sua subsistência. Num meio que atingiu clima belicista inaudito, RV é uma bandeira de paz em pleno campo de batalha; sendo trave-mestra do exército benfiquista, com quem assume compromisso total e indiscutível, não contribui para o incêndio que lavra no futebol português. Em dois anos vimo-lo sempre racional, inteligente, educado e elegante no que fez e disse.

Fácil agora é reduzir o conteúdo de saber e perícia da condução à ideia de que tinha os melhores jogadores, embora muitos tenham estado, ao mesmo tempo e durante largos meses, na enfermaria. Quando venceu o título com o recorde de pontos na Liga (88), foi porque teve sorte; repetiu a proeza, em temporada na qual dirigiu a melhor equipa do campeonato, e está sob acusação de o Benfica não ter praticado futebol deslumbrante. Para lá de ter passado uma vida a aperfeiçoar conhecimentos táticos, físicos e comunicacionais, RV tem sido notável na valorização do balneário. Basta não nos distrairmos para percebermos que a gestão foi minuciosa no reconhecimento de que ali habita uma família heterogénea, composta por gente de origem, formação e interesses distintos, cuja felicidade e bem-estar são postos à prova a cada instante. A cabina está para o futebol como o quartel, o dormitório ou o convento para a vida comum. É o local sagrado onde nascem os mais diversos impulsos emocionais. Na Luz, RV tem-nos todos sob controlo. E isso sentiu-se ao longo de toda a época.

Enorme Luisão repôs a verdade

O desfasamento entre opinião do povo e realidade às vezes dá mau resultado

Luisão já se acomodou entre as maiores figuras da história encarnada. O tetra apanha-o como grande jogador e notável capitão, em época na qual foi confrontado com a ignorância, a estupidez e o desrespeito de quem lhe sentenciou o fim. A idade (36 anos) não ajuda a defendê-lo; mas o que fez em toda a temporada não deixou dúvidas: é a peça mais importante da equipa e o seu melhor defesa-central.

Peso esmagador de maestro Pizzi

Os números são impressionantes: 51 jogos, 4.160 minutos e 13 golos

Pizzi está feito um chefe de orquestra de nível estratosférico. O seu futebol aglutinador e abrangente marca os ritmos; aquece e arrefece mediante as circunstâncias; alimenta o senso comum, gera a surpresa e dimensiona o engano ao estado coletivo. No Dragão, à 10.ª jornada, viu o quarto amarelo, sinal de que viveu no limite mais de 2/3 da época. Prova de que o plantel tem mais limitações do que parece.

Menos Jonas mas decisivo

A ausência dos grandes jogadores constitui limitação difícil de superar

Jonas é o melhor da Liga, o mais talentoso e decisivo, quem mais interfere na produção coletiva. Iniciou a época em dificuldade, passou a maior parte do tempo a recuperar de grave lesão e o seu regresso foi gerido com pinças. Mesmo atuando aos bocados e sem continuidade foi determinante no tetra. Para um génio do futebol, 18 golos em 27 jogos até parece estatística irrelevante. Tomara muitos consegui-la.

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