De pé para pé

Rui Dias

Rui Dias

Redator e repórter principal
Rui Dias

Rúben Dias não pode distrair-se

A avaliaçãno de um defesa-central não pode ser descontextualizada da especificidade da função que desempenha. Poucos agregam a esses princípios básicos a excelência técnica imperiosa para entrar na elite. Rúben Dias, por ser jovem e ter muita qualidade, alimenta a ilusão de uma grandeza que, porventura, nunca atingirá nesses moldes grandiloquentes – e não pode perder de vista que muitos se perderam quando aspiraram à glória desprezando o essencial. Ser defesa obriga a abdicar de muitas ilusões, direcionando a paixão pelo futebol ao cumprimento de um talento menos reconhecido: não deixar os outros criar. Essa é a grande arte de quem está obrigado a depurar virtudes técnicas, táticas, físicas e emocionais, para depois as diluir num coletivo que deve articular as diversas contribuições individuais.

Rúben Dias nasceu, cresceu e amadureceu como futebolista guiado por conceitos de eficácia e não de expressão artística na relação com a bola; relativizou a ilusão de um dia ser levado em ombros por truques magistrais e outros devaneios criativos em nome da inteligência com que retira aos outros a hipótese de brilharem. O tempo desempenha papel determinante na calibragem dos mais variados elementos da tarefa, nomeadamente as obrigações assumidas com a equipa e o jogo: tem de crescer depressa e bem, aprimorando os posicionamentos e a entrada aos lances; de influenciar o mais possível a ação dos parceiros que pisam terrenos próximos; de preservar conceitos globais de segurança e equilíbrio; e ainda está obrigado a melhorar a intervenção longe da bola e a depurar as decisões em momentos limite.

Aos 21 anos, porém, precisa de focar-se na moderação dos ímpetos, na correta deteção do perigo e na perfeita gestão da chegada aos lances. Esse, de resto, costuma ser o ponto mais difícil de cumprir na íntegra, embora dele dependa boa parte do seu futuro como jogador. A par da imposição segura como um dos melhores centrais portugueses da última década e meia, Rúben Dias tem cometido exageros nas descargas de agressividade sobre adversários diretos. É excessivo pedir a um adolescente que seja responsável numa atividade interdita a menores mas é legítimo confrontá-lo com a necessidade de retificar a intervenção, sob risco de prejudicar a equipa e transformar-se, ele próprio, num grande projeto incumprido.

Conta Jorge Valdano, génio ideológico de modalidade em que foi campeão como jogador, treinador e dirigente, que Daniel Passarella, central e capitão da Argentina campeã mundial em 1978, se lastimava ao ver defesas bater indiscriminadamente, sem clemência mas também sem sentido. Valdano estranhou a referência e retorquiu: "É preciso ter lata: fala sobre violência um tipo que até escolhia o osso que ia partir aos adversários." Passarella levou a mal e enquadrou a questão, como se reclamasse autoridade moral para falar sobre o assunto: "Queres comparar? Ao contrário destes medíocres que batem por necessidade, eu batia por prazer."

O central benfiquista terá de relativizar o prestígio que atribui ao choque, à intervenção agressiva, à delimitação do espaço e à defesa do estatuto pela via da picardia e da contundência gratuita. Não pode alimentar para sempre o sentimento de impunidade perante algumas grosserias, mesmo que assente a construção como defesa-central nos pressupostos de maturidade precoce, inteligência, liderança, carisma e ampla visão. Num futebol ao qual vão faltando centrais de qualidade superior, tem um papel extraordinário a desempenhar a partir de agora: oferecer futuro à Seleção Nacional. Só atingirá expressão planetária se souber interpretar o que a carreira lhe der; se escutar os mestres e nunca der por concluído o processo de assimilação de competências; se olhar em frente e perceber que, por ora, não há limites ao nível expectável como um dos melhores centrais portugueses de sempre.


Rui Patrício foi
bode expiatório

Para garantir a Champions, o Sporting tinha de derrotar o Marítimo

O erro de Rui Patrício nos Barreiros, mais grave pela raridade do que propriamente pelo peso relativo nas contas finais da Liga, será a referência eterna do 3º lugar. É justo porque já ninguém se lembra de erro tão clamoroso do melhor guarda-redes português; mas não pode servir de bode expiatório de uma atuação que concentrou desgaste físico acumulado e uma falta de atitude desesperante.


Sérgio Oliveira
acima de todos

A lista dos 23 jogadores para o Mundial poderá conter algumas surpresas

Fernando Santos afirmou que há mais do que um jogador sem internacionalizações A no lote dos 35. Rúben Dias será um deles – perante o cenário atual, poucas dúvidas de que assim será. E que outros poderão estar nas mesmas circunstâncias? Um acima de todos: Sérgio Oliveira, cuja época superou os campeões europeus Renato Sanches, André Gomes, Adrien, João Mário, William e até Moutinho.


A grande época
de Cláudio Ramos

O Tondela superou em larga medida as expectativas para a presente época

Cláudio Ramos foi considerado pelos jornalistas de Record o melhor guarda-redes da Liga. Aos 26 anos, importa esclarecer que não se trata de uma proeza avulsa, de um reconhecimento passageiro, de uma felicidade transitória. Há alguns anos que o guardião do templo tondelense está no topo da lista dos melhores guarda-redes portugueses. O sucesso da formação de Pepa começou nele. Sem dúvidas.




15.05.2018
M M