De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Salvio venceu os profetas da desgraça

O extremo é um mentiroso que utiliza o corpo, da cabeça aos pés, para emitir sinais equivocados aos adversários. Por norma, é um exibicionista, um excêntrico, um extravagante com soluções exclusivas que, por ser tão vaidoso, adora ver-se ao espelho e sentir o efeito que provoca à volta; é raro, entre os melhores, que algum reconheça existir outro melhor e mais bonito do que ele. Mas extremo também pode ser um altruísta na forma como coloca as armas pessoais e intransmissíveis ao serviço da equipa, realizando-se em dar protagonismo aos outros em nome da glória coletiva. Muitos fenómenos goleadores na história do futebol tiveram o amparo determinante de alas que lhes proporcionaram números de exceção.

Toto Salvio tem tudo o que é preciso para triunfar nos flancos: talento, velocidade, paciência e regularidade para persuadir companheiros e intimidar adversários. Não desequilibra só por mentira e aceleração; não apenas pela fácil conexão ao golo mas por todas as razões que o afastam de características que podem ser nocivas e um entrave à sua afirmação. É um extremo com inteligência lógica, para alimentar o senso comum e deslumbrar com a execução perfeita do que estávamos à espera que fizesse, e com inteligência criativa, pelo assombro de invenções geniais que desestabilizam a rotina e nos levam a acreditar que o futebol pode mesmo ser uma expressão de arte.

É um especialista da vida que escolheu, na direita avançada do palco. Não quer dispersões: tem uma vocação, que depurou com o tempo, enriqueceu com a experiência e consolidou com o sucesso obtido na carreira, e dela não abdica. Sendo um extremo, não se sente confortável em trocar de flanco (ao contrário de Nani, Quaresma ou Carrillo); nunca lhe passou pela cabeça jogar na zona central (Gaitán, Otávio e Rafa preferem atuar onde se sentem mais importantes), seja mais atrás (fazendo de João Mário, Pizzi e Alan) ou mais à frente (como Bernardo Silva, Markovic e Gonçalo Guedes). Orienta-se pela linha lateral para dar equilíbrio e zelar pela segurança mas, principalmente, para criar ruturas de trás para a frente.

Enquanto os jornais relatavam movimentações levadas a cabo pelo próprio Luís Filipe Vieira para negociar eventual transferência, Salvio lançou um enigma em forma de gargalhada. Era o que lhe mereciam as notícias vindas a público sobre a saída da Luz. Sabe-se hoje, porque ele o disse, que o negócio com o Monaco esteve por um fio, sinal de que a liderança encarnada olhou mais para a parte económica e menos para a desportiva; que valorizou fatores como a lesão grave e o excesso de extremos no plantel em detrimento da certeza de que o craque poderia voltar a ser o mesmo. Toto decidiu ficar, jurando amor ao clube, ao mesmo tempo que evidenciou o orgulho pela profissão que abraçou e a convicção de que voltaria a ser o mesmo futebolista. Indiferente ao eventual encaixe, Rui Vitória resolveu a permanência de acordo com a sua visão técnica e tática: deu-lhe a titularidade, confiou no seu talento, resistiu aos solavancos do regresso e acreditou no êxito da aposta.

Como em casos semelhantes, a ignorância, o despudor e a leveza opinativa conduziram a imagens distorcidas provocadas por quem negou a esperança em nome do apocalipse. O cenário chegou ao limite da sentença definitiva: não tinha condições físicas e anímicas para voltar. É verdade que as primeiras aparições depois da lesão não foram animadoras. Mas porque lhe faltavam rotinas, confiança, ritmo, coragem, convicção… Hoje, contra profetas da desgraça e vampiros do mérito alheio, Salvio reencontrou-se com o jogador de outros tempos, isto é, um sublime extremo-direito do futebol europeu e mundial. Prova de que o melhor negócio envolvendo jogadores deste calibre nem sempre é o dinheiro que fazem ganhar: é usufruir do seu talento ilimitado.


O espetacular
golo de Brahimi

Depois de um período complicado marcou um golo fabuloso ao Arouca

Brahimi é um jogador extraordinário, muito vulnerável a fragilidades emocionais que o diminuem em demasia. O seu futebol mágico e genuíno encanta pela raridade e pelas diferenças que vai estabelecendo sempre que a inspiração o visita – e visita muitas vezes. Reapareceu em todo o esplendor e reagiu como se fosse uma vítima, quando a vítima foi o FC Porto que teve de viver largos meses sem o seu génio.


Rui Patrício no
topo da Europa 

É o exemplo de como evolui um grande guarda-redes de uma grande equipa

Rui Patrício está entre os candidatos à ‘Bola de Ouro’ e essa é uma distinção que honra o jogador, enaltece o futebol português e credibiliza a Liga. Mais do que ser o guarda-redes campeão da Europa, é preciso hierarquizar as razões: Patrício é uma das explicações da vitória no Europeu e não um mero beneficiário da grande conquista. É cedo para enquadrá-lo com a história. Para já, aos 28 anos, é o melhor do ano.


Raphinha pode
ser uma estrela

Chegou ao futebol português pela mão de Deco e continua a mostrar talento

Raphinha tem 20 anos e está a confirmar as indicações que o trouxeram para Portugal e para o V. Guimarães: o futuro será brilhante. É um jogador íntimo da bola, com facilidade em associar-se ao golo e em convencer a equipa de que só tem a ganhar permitindo-lhe o protagonismo. Sendo esquerdino, tem preferência em jogar pela direita, embora o seu habitat seja o campo todo. Não devemos perdê-lo de vista.





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