Um artista mascarado de lateral
Nunca se deixa pressionar com a bola e tem alternativas permanentes para dar seguimento aos lances; pode não ser perfeito a defender mas cumpre o essencial da tarefa, porque domina toda a cartilha com as regras de marcação e desarme, de posicionamento e ataque à bola – valoriza, por isso, o acerto das diagonais defensivas e a imperiosa necessidade de estabelecer relações de força favoráveis com os adversários diretos. Nem sempre está onde deve, tal a dispersão do seu futebol abrangente e empolgante, mas é rápido a reagir e a manter distâncias de segurança que lhe permitem salvaguardar as costas e não ser passado em drible. Sendo um jogador de processos simples e ideias claras, coerente na matriz técnica e plástica, Miguel Layún diversifica o reportório pelo caminho porque, no mesmo jogo, costuma ser defesa, médio e avançado: acelera, trava, choca, arranca e muda de direção; sabe ter a bola e decide sempre o melhor para a equipa; resolve sozinho mas não tem vergonha de pedir ajuda.
Condenado ao papel secundário de quem vive escondido nas traseiras do palco, o mexicano é um refratário assumido à banalização e ao comodismo. Raros são os laterais no futebol moderno com talento para obrigarem o centro da história a fixar-se onde, por norma, pouco ou nada de relevante acontece. O seu primeiro mérito é assumir protagonismo contra todas as tendências em vigor. Quando os holofotes o apanham é difícil perderem-no de vista, pela superior contribuição no processo criativo; pela perfeição com que atua à esquerda e à direita; atrás, no meio e à frente; pela perpétua consistência nos movimentos de transição ofensiva e defensiva, bem como em ataque organizado. Com tanta qualidade só podia ser um diamante perdido no desarrumado baú do Watford de Quique Flores. Não há outra explicação.
As ações levadas a cabo por todo o terreno são, muitas vezes, curtas-metragens inesquecíveis, muitas delas com finais sublimes, sinal inequívoco do impulso visionário que o empurra para zonas nas quais ajuda a estabelecer diferenças. É esse talento de agigantar-se quando chega ao espaço de definição que o torna diferente e tantas vezes grandioso. Sendo um lateral, pensa e executa como um artista; para quem inicia a viagem na parte mais recatada e sombria da cena, são surpreendentes os argumentos que possui para criar desequilíbrios no espaço de ataque; chega a ser deslumbrante vê-lo em condução segura, levantar a cabeça, analisar a situação e executar com perfeição extraordinária. O golo faz parte do plano e está sempre no horizonte: seja pelo passe criterioso com que solicita os especialistas (leva seis assistências desde o início da época) ou pelos argumentos temíveis como atirador de média distância (e vão três golos apontados).
Sendo um jogador universal, que nunca se perde, seja qual for a zona em que se encontra, é um defesa-lateral com argumentos técnicos, táticos e físicos absolutamente fantásticos, dos melhores que passaram pelo futebol português nas últimas décadas – ou seja, em todos os tempos. Pelo que tem feito ao serviço do FC Porto na presente temporada, não é, não pode ser, um caso efémero de exaltação, cujo êxito se explica pelos fatores aleatórios da sorte e do azar. Não há prémio para a incompetência que dure tantas semanas consecutivas; não é possível que a superação dos limites de qualquer jogador se prolongue por quatro meses ao longo dos quais se tem assumido como grande figura da Liga. Layún está alicerçado em qualidade superior e tem-no demonstrado de um modo claro e sem discussão. É uma pedra preciosa e rara que só precisa de lapidar aspetos mínimos do seu futebol amplo e aglutinador para se lançar à aventura de assumir preponderância estratosférica no próprio futebol mundial.
Brincadeiras à volta de Jonas
O futebol é simples: basta entregá-lo aos jogadores e dar a bola aos melhores
Jonas é um dos mais extraordinários avançados que passaram pelo Benfica nas últimas décadas. Em pouco mais de um ano apontou 42 golos em jogos oficiais e revelou-se estrela à altura da gloriosa história da águia. Por questões físicas ficou de fora uma ou duas vezes e logo surgiu quem visse melhorias no bicampeão só porque um dos craques do plantel não jogou. Brincadeira de mau gosto, já se vê.
Adrien já subiu muitos degraus
Há jogadores a quem basta um clique para atingirem dimensão superior
Adrien está a cumprir época muito importante na sua carreira. Começou por resistir à concorrência (contratação de Aquilani e redução de uma unidade ao trio de médios na zona central); adaptou-se às elevadas exigências táticas de Jorge Jesus e ainda acrescentou a braçadeira de capitão à autoridade de um futebol com implicações na produção coletiva. Aos 26 anos, está a evoluir para um patamar de excelência.
Príncipe Sanchez está de regresso
Os sentimentos distinguem o futebol de outras atividades empresariais
O Boavista perdeu Petit, figura de referência do título, gerador de afeto e reconhecimento eternos entre a família. Para o substituir, a SAD não procurou um treinador qualquer, antes manteve a chama interna acesa no apelo à página mais bela da história – e optou por Erwin Sánchez, o génio do campeão 2000/01. Porque o apoio do povo é decisivo, os líderes apostam nas emoções. Fazem eles muito bem.
