De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Um cavalo selvagem indomável

Joaquim Meirim, um dos maiores vultos do futebol português, perdia as estribeiras quando alguém desdenhava a cabeça de qualquer futebolista, agarrado ao argumento de que os treinadores estavam obrigados a treinar homens inteiros e não apenas do pescoço para baixo. Vem isto a propósito de Rúben Ribeiro, protagonista da Liga ao serviço do deslumbrante Rio Ave de Miguel Cardoso, que chegou aos 30 anos longe dos holofotes, sob suspeita de o ter feito pelas fraquezas do espírito. Sabemos hoje que é um laboratório ambulante de perversão. Mais: se o futebol é engano, então ele é o futebol, porque ninguém mente como ele. É um génio que resgata as origens do futebol, vestindo a pele de herói dos companheiros, grau máximo a que um jogador pode aspirar e que o qualifica entre os seus pares.

Os movimentos, os gestos e até o pisar têm as virtudes hipnóticas de um encantador de serpentes. RR agarrou-se à bola porque só com ela podia evitar a derrota social e seguiu o caminho, muitas vezes imune à retórica de quem quis moderar-lhe o espírito de homem livre e puni-lo como futebolista indiferente aos benefícios académicos. A forma como agiu perante muitos daqueles que quiseram acorrentá-lo à linearidade do guião e vergá-lo à lei do mais forte revelou alguns traços da personalidade: a impertinência, a autoestima e a insolência de pensar, ao contrário de outros, que tinha muito pouco a aprender.

É um aventureiro da imaginação, um conversador infinito, com riqueza verbal deslumbrante; um autodidata que só à entrada na veterania adaptou o instinto às recomendações dos melhores treinadores da carreira e aos conselhos de Miguel Cardoso, o mestre que, a julgar pela expressão do futebol apresentado, está a extrair dele o máximo de um talento estratosférico. A habilidade superior, a malícia com que joga e a coragem como guarda a bola; os ziguezagues demoníacos, as deambulações constantes e o futebol tricotado que multiplica por todo o espaço ofensivo; o estilo sedutor, o comando das ações sempre de cabeça levantada e a explosão imparável quando decide ir para a baliza identificam um craque. É daqueles raros fenómenos que, em terrenos armadilhados e sob cabos de alta tensão, tem o desplante de movimentar-se como se estivesse a brincar com os filhos no quintal de casa.

RR é, sem disso ter toda a consciência, um gerador de obras-primas que, assente no que o futebol tem de mais puro e silvestre, está ao nível da última invenção da tecnologia. Tal como sempre acreditou, mesmo quando lhe chamavam louco, é um génio que, de tanto intimidar quem o dirigiu ao longo destes anos, esteve à mercê de treinadores dóceis, compreensivos e tolerantes mas só com futebolistas obedientes, que aceitam ser ferramenta sem cérebro no cumprimento escrupuloso do que está previamente definido. "Quem manda aqui sou eu" é uma frase que, por certo, RR ouviu vezes sem conta até ao momento em que se transformou na reserva espiritual de um futebol que nos foge entre os dedos das mãos.

Num fenómeno de migrações constantes, há quem prefira manter-se junto de quem o entenda e venere. É respeitável que RR tenha preferido ser marechal de exércitos mais modestos, embora fosse preciosa a lição de vê-lo agora triunfar numa grande potência. Se for essa a decisão, como parece, resta saber até que ponto este magistral cavalo selvagem aceitará ser domado e abdicar da liberdade para servir equipas com ambições maiores. O desafio é adaptar o talento superior a outras exigências; é saber se, chegado a um colosso, conseguirá ser igual a ele próprio, com as armas que dele fazem, ao serviço do Rio Ave, um dos três melhores jogadores da Liga 2017/18. Aos 30 anos, RR tem o direito de, mantendo a irreverência que o caracteriza, recusar ser visto como caso perdido para as lutas dos campeões de verdade.


Maestro Pizzi
é fundamental

Os maestros tendem a superar, na orquestra, o peso dos grandes solistas

Pizzi é um jogador especial, que pensa mais depressa, vê mais longe e executa melhor. Na zona onde atua e pelas conexões que desenvolve funciona como denominador comum do coletivo. É quase impossível a equipa jogar bem se ele não estiver nos seus dias. Mas quando atinge o máximo, a conclusão a tirar não tem tanto a ver com ele – nessa altura dizemos, "que bem joga o Benfica". Como em Tondela.

Bruno Fernandes
cada vez melhor

O jogo com o Portimonense foi só nova etapa na afirmação de um craque

Começam a faltar palavras para descrever Bruno Fernandes. Quando chegou foi caro e não servia para grande coisa; quando começou a jogar eram bons sinais mas de curta duração; quando evoluiu para goleador não era para ser levado a sério. Hoje, porém, já ninguém duvida de que é a alma criativa do Sporting e uma enorme figura da Liga. E, a propósito de previsões, aqui fica a minha: vai ser ainda melhor.

O golo como
lição de vida

Moussa Marega e Aboubakar têm os mesmos golos apontados na Liga (12)

Cada golo do maliano, mais ainda ao serviço do FC Porto, é uma lição de vida; é a celebração do êxito sobre a soberba, o preconceito e a ignorância daqueles que, julgando-se donos de toda a verdade, acabam ultrapassados (envergonhados) pelos factos. Afinal, como bem entendeu Sérgio Conceição, Marega tinha potencial para se impor e dar resposta a todas as exigências de uma grande equipa. Sente-se a cada jogo.




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