Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

Um craque indiferente ao mercado

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Não corresponde aos anseios televisivos dos truques geniais ou de golpes de magia que fazem levantar as plateias: Manuel Fernandes limita-se a ser perfeito em tudo quanto pensa e executa. É um enorme jogador, que cumpre os requisitos da variedade exigida nas funções que desempenha em todos os postos do meio-campo e, em cada um deles, acrescenta-lhe soluções surpreendentes. Não comete erros por dispersão, por má avaliação da distância, por errar passes simples ou por fazer uma finta a mais – é um fabuloso centro-campista que resolve qualquer situação delicada por intuição mas também pela sensibilidade com que armazenou o conhecimento assimilado pelo tempo.

Era um miúdo e jogava como se fosse um homem feito; está a entrar na veterania e revela o entusiasmo juvenil de quem ainda sente paixão e prazer pelo futebol. Impõe-se por inteligência tática superior; simplicidade de processos; sentido de segurança e uma técnica sublime na qual são evidentes os resíduos não tóxicos de uma habilidade fora do comum. Uma das suas vantagens é o talento superior revelado na forma como domina as chaves coletivas do jogo e o modo como corresponde aos três grandes valores que definem o seu conhecimento: o espaço, o tempo e a boa interpretação do engano.

Poucos como ele no futebol europeu são tão perfeitos e completos naquele serviço de apoio aos companheiros. Só um craque é capaz de acudir a todas as chamadas sem prejudicar a solidez do exército que representa; só um futebolista com ampla visão de jogo e capacidade para interpretá-lo consegue melhorar, a favor dos seus, o que se passa a defender e a atacar; à esquerda, à direita e no eixo central; com e sem bola. É um médio completíssimo, que orienta a manobra atrás, como avançado dos defesas, e à frente, como líbero dos avançados; inflexível a fazer cumprir a lei implacável no processo de recuperação da bola e brilhante no modo como tantas vezes ilumina os movimentos de aproximação à baliza – para quem tanto se empenha na luta por todo o espaço defensivo, as suas aparições em lances de golo chegam a ser fantasmagóricas.

MF tem a autoridade invisível de quem chega aos 31 anos sem recriminar os parcos favores da fortuna. Tomou as opções que quis (algumas incompreensíveis) e ninguém tem o direito de contestá-las; pelo caminho perdeu-se em labirintos de desilusão dos quais nunca foi (nem ele quis ser) resgatado. Fez uma carreira interessante mas dela não recebeu em troca o equivalente ao potencial revelado como um dos mais excecionais jogadores da sua geração. É verdade que nunca se entregou a peregrinações menores mas também não atingiu, como devia, a grandeza dos colossos europeus e mundiais. Cumpriu a designação de "grande futebolista invisível às leis de mercado", seguindo as sábias palavras de Jorge Valdano, mas acrescentou-lhe, ele próprio, a incapacidade para alterar o perfil discreto que o caracteriza.

Ao fim de tantos anos longe dos holofotes, distante dos olhares de quem sempre o admirou, MF recuperou a esperança de ver reconhecido o talento pela via mais nobre: a presença na fase final de um Campeonato do Mundo. Vividas mágoas silenciosas, alimentadas por uma gestão de carreira infeliz, para não lhe chamar outra coisa, tem agora a certeza de que o brilho sem consequências obtido em clubes como Everton, Valencia e Besiktas constituiu indignidade não repetida como estrela maior do Lokomotiv Moscovo. MF não retirou da carreira a glória correspondente ao talento que possui – faltam-lhe títulos (só foi campeão pelo Benfica), presenças na Champions e nos palcos majestosos das grandes competições. A concorrência é fortíssima e até ao Mundial muito pode ainda acontecer. Certo é que a presença no Rússia’2018 reporia justiça sobre um jogador especial, que merecia mais do que obteve do futebol.

Quatro opções para dois lugares

Num abrir e fechar de olhos, o número de laterais-direitos candidatos à Seleção tornou-se quase obsceno. A Cédric, o campeão europeu, juntaram-se Nélson Semedo, João Cancelo e Ricardo Pereira. A tarefa tornou-se a mais concorrida de todas, dificuldade acrescida pela qualidade em causa. Se todos estiverem a 100 por cento na altura do Mundial, a escolha de dois entre quatro será missão complicadíssima.

Bas Dost é um fenómeno

Bas Dost criou expectativa exagerada para a presente época. Em 2016/17 fez 36 golos e o passo seguinte pareceu mais complicado, porque chegou a dividir a titularidade com Doumbia e não parecia capaz de repetir a eficácia do ano anterior. O ponto de situação, no final do primeiro terço da temporada, revela que, afinal, tudo está onde deve: com o especialista a confirmar que é um fenómeno – 10 golos em 17 jogos.

Herrera mudou: agora faz falta!...

Herrera foi sempre um jogador especial, à volta de quem recaiu injustificada desconfiança. Na época passada concedeu pontapé de canto bobo (não foi um penálti ou um autogolo…) com o Benfica e foi crucificado. Sérgio Conceição, homem de ideias fixas, mesmo que sejam contra a maré, recuperou-o. Tornou-se decisivo e mantém-se no centro das atenções. Mas agora é porque está lesionado e faz muita falta.

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