De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Um francês de enorme fiabilidade

Porque o talento é um valor suspeito, volátil e nem sempre eficaz, o futebol foi sacralizando conceitos repressivos e até destrutivos; porque os desequilíbrios provocados pela magia dependem muito de inspiração e demais contingências, os treinadores entenderam que deviam dar prioridade a argumentos físicos como força, potência, velocidade e contundência. Serve isto para salientar a importância que o tempo concedeu a quem assume como tarefa não permitir que os outros joguem. Noutros tempos, quando o futebol era mais livre e dava mais relevância à bola, um jogador como Jérémy Mathieu teria mais dificuldades em se impor. Hoje é um futebolista reconhecido, que aborda a competição no máximo da intensidade sem cair nas armadilhas de exageros despropositados e exibe-se nos limites da coragem e do risco. Tal como outros parceiros, sabe que não será recordado como protagonista. Mas é um intérprete com memória do que fez e imaginação depurada para alimentar os últimos sonhos da carreira. Pelo que mostrou de leão ao peito, é um jogador de fiabilidade quase absoluta e um dos melhores defesas-centrais da Liga.

Mathieu é um central que corresponde aos valores que enquadram a função. Tem o espírito pragmático dos defesas, mais vocacionados para a eficácia do que para a arte; aos 34 anos, já travou os ímpetos juvenis de quem sonhou eternizar-se pela grandeza de fantasias magistrais e joga agora com as armas fiáveis de inteligência, regularidade, responsabilidade, liderança e concentração. Em plena veterania e perante desafio menos aliciante (não esquecer que veio do Barcelona), vestiu no Sporting a pele de aluno à procura de enquadramento, como se estivesse a ser avaliado em cada lance; como se em todas as intervenções estivessem em causa a honra e o orgulho como futebolista; como se cada despique, por mais disperso e avulso, tivesse caráter definitivo e do seu êxito dependessem o bem-estar e o futuro dos que lhe são próximos.

A resposta dada a dúvidas e suspeitas levantadas desde que foi contratado pelo Sporting tem sido incrível: antes do início oficial da temporada parecia pouco entusiasmado com a nova etapa em Alvalade (foi enorme aquisição e está a fazer grande época, comprometido a 100% com a causa verde e branca); vimo-lo pesado, lento e distante (é ágil, rápido e atento); dava sinais de ser rude e tosco (tem técnica superior e boa articulação motora); sugeria uma relação estrita com a bola (raramente falha um passe e é exímio executante de bolas paradas). No fundo, Mathieu sabe enquadrar-se com a realidade, sendo a prova viva de que um grande defesa não tem de ser virtuoso segundo parâmetros artísticos. Não pretende ser mais do que é. Mas essa modéstia face ao enquadramento histórico tem implícita a salvaguarda do estatuto e a delimitação do terreno conseguidos como elemento de grandes potências europeias e mundiais (França, Valencia e Barcelona).

Para lá das etapas individuais de afirmação, Mathieu revela excecional entendimento do jogo, que lhe permite integrar-se com perfeição no processo defensivo leonino, principalmente pela cumplicidade revelada com o parceiro do lado. A dupla com Sebastián Coates é a melhor dos últimos tempos e uma das mais notáveis de sempre no Sporting. Há muito que os leões não tinham dois centrais tão articulados, competentes, influentes e zelosos com todos os pormenores inerentes à tarefa; tão precisos e implacáveis a travar adversários e a atacar a bola; tão perfeitos a posicionar-se e a agir em complementaridade face aos interesses da equipa; tão fortes no jogo aéreo e assertivos em situações limite. Até final da época, Mathieu só tem de preservar saúde que lhe assegure presença regular no onze. Com ele, o Sporting é uma equipa muitíssimo mais forte.

Tudo a favor
de Paciência

O golo ao Sporting foi a expressão máxima de sucessivas provas de qualidade

Gonçalo Paciência caminha para o auge da carreira. O talento natural é sempre a principal arma de um jogador mas a confiança do treinador é, por norma, o empurrão definitivo. Em Setúbal sacou de um arsenal inesgotável de argumentos que o levaram de volta a casa mais cedo. Se tiver sorte será um fenómeno e estará no Mundial; mas basta-lhe não ter azar para chegar ao FC Porto e encontrar o seu espaço.

Silas é lufada
de ar fresco

O Belenenses foi uma equipa surpreendente no confronto com o Benfica

Silas começou por ser uma lufada de ar fresco no Restelo e tem prosseguido o efeito com a promessa de vir a engrossar o lote de equipas da Liga com boas ideias. Para lá de aconchegar a alma dos adeptos ("isto é o Belenenses, é um clube grande"), o treinador azul viu confirmada com a águia, pela exibição da equipa, a arrogância das palavras. A julgar pelo arranque, cuidado com o Belém até ao fim da época.

As boas notícias
vindas do Algarve

De Portimão costumam vir, periodicamente, sinais de uma bela equipa

Fabrício foi o expoente máximo da fantástica exibição do Portimonense na vitória sobre o Rio Ave (4-1). No primeiro jogo sem Paulinho e perante uma das melhores formações da Liga, o conjunto de Vítor Oliveira confirmou a ideia de que, sendo muito contingente, é um exército deslumbrante quando as coisas correm bem. O avançado brasileiro já leva 10 golos na época (9 na Liga). Ninguém marca tanto por acaso.

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