Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

Um génio muito para lá dos números

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É muito mais do que a monstruosidade estatística que o suporta. Sim, já pulverizou os números racionais para o tempo em que exerce; marca ao nível dos avançados da primeira metade do século passado, quando a vida era um mar de rosas para os especialistas do tiro e do último toque; invertida a tendência goleadora recessiva das últimas décadas, é presença assídua nos palcos de exigência máxima atuando como extraterrestre em ação permanente, sem quebras de rendimento há mais de 13 anos. Jogador caracterizado por explosões constantes, orientado pelo estímulo do contacto físico, a partir de movimentos da linha lateral para o meio, Cristiano Ronaldo é um fenómeno contra a corrente, talvez mesmo um caso de estudo para as gerações vindouras. Jogador para quem é irrelevante o conceito de tempo e distância (é perigoso nem que esteja a 50 metros da baliza), nunca um avançado oriundo das faixas atingiu a exorbitância de golos que o colocam entre os maiores goleadores de sempre à escala mundial.

Mas CR7 é maior do que o reino invencível dos números escandalosos com que satisfaz a exigência dos pragmáticos, para quem tudo se resume a valores concretos. Ele é o génio que superou todos os obstáculos e contrariou todas as tendências; ultrapassou os limites e fraturou as normas instituídas num passado já longínquo. CR7 é o génio que rompeu o fanatismo ideológico de treinadores que recorrem a todas as armas para não deixarem jogar; ridicularizou defesas sem pudor, a quem qualquer indignidade serve para cumprir a missão; e desmascarou os adeptos para quem todos os meios são válidos desde que se atinjam os fins. Mesmo quando não marca, a interferência no jogo é brutal, como epicentro fatal dos acontecimentos – inspira os companheiros, ameaça os adversários e é quase sempre o protagonista do espetáculo.

As quatro Bolas de Ouro só não são um pormenor porque foram conquistadas em luta com Messi, num escrutínio livre, sem limitações, nos quais todos os futebolistas são elegíveis. Nada que se compare à história distante do mais prestigiado prémio individual do futebol, quando Keegan, Rummenigge, Platini e Van Basten dividiam a glória entre si porque Pelé, Zico, Maradona e Romário não contavam, penalizados pelo pecado original de não serem europeus. As quatro coroações de CR7 acontecem em plena era de La Pulga, inviabilizando nos últimos nove anos (período em que ganha um ou outro) a vitória de gente que nunca atingirá o reconhecimento universal da eternidade: Sivori (1961), Masopust (1962), Denis Law (1964), Florian Albert (1967), Belanov (1986), Papin (1991), Owen (2001) e Fabio Cannavaro (2006), para citar alguns.

CR7 entrou sem bater à porta e nunca revelou desconforto pelo atrevimento que muitos interpretaram como simples má educação; com o desplante dos iluminados invadiu território sagrado em Portugal (dispôs-se logo a dividir o trono de Eusébio), no Real Madrid (a discussão já atingiu o ponto máximo – ele ou Di Stéfano?) e no Mundo (entre os deuses, discute ombro a ombro com Messi, e olha sem complexos para Pelé, Cruyff e Maradona). Quando, aos 18 anos, disse que queria ser o melhor da história, olharam-no com comiseração ("quem julga este miúdo que é?"); hoje todos interpretam o desejo como a obstinada ambição de quem pretendeu e conseguiu alterar a hierarquia histórica dos deuses maiores do jogo. Arrogante, egocêntrico e narcisista, reclamam os seus detratores; vão tarde esses pobres de espírito que procuram denegrir o império de reconhecimento e conquistas construído e consolidado com tantos títulos coletivos e individuais. Aos 31 anos, CR7 é um génio que, ao talento arrasador, juntou a intimidade com a estatística. E, com os números do seu lado, tudo fica mais fácil: pode até sorrir perante as críticas mais disparatadas.

Jonas regressou e foi o melhor

Jonas chegou à Amoreira sem barba, com um sorriso nos lábios e uma clara expressão de felicidade no olhar. Rui Vitória foi claro ao anunciar o sério cuidado a ter com o processo de reintegração do avançado e o momento não era o ideal – o Benfica vencia por 1-0 no Estoril e passava por dificuldades. Nada de relevante: desde que entrou, Jonas foi o melhor em campo. Um regresso que deixou água na boca.

Wilson Eduardo mostrou talento

Wilson Eduardo confirmou a tendência para marcar ao Sporting, clube que o formou mas revelou dúvidas posteriores quanto ao seu talento. O que o bracarense fez em Alvalade, porém, é mais do que o sortilégio de ver um renegado fazer justiça com os próprios pés. Wilson mostrou, afinal, que é um atacante notável (tem velocidade, intuição, frieza, visão, técnica, tiro…), com 6 golos apontados na Liga.

O jogo deixa de ser futebol

A sua utilização confirma a suspeita de que o jogo tem particularidades próprias e é demasiado simples para os devaneios de cientistas que não o entendem. O Mundial de Clubes fez soar as sirenes. Basta seguir o bom senso: se a tecnologia da linha de golo é um avanço civilizacional, o resto é trapézio sem rede. Com aquela loucura, poderemos ter mais verdade desportiva. O jogo é que deixará de ser FUTEBOL.

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