De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Um gestor da arte dos outros

Numa sociedade de aparências e futilidade, o futebol tem acompanhado os novos tempos. As maiores vítimas desse processo são os mais discretos que, por intervenção no jogo e temperamento, são indiferentes à ditadura da imagem, tornando-se mundo à parte das leis de mercado. João Moutinho faz simplesmente o que deve, como se interpretasse a tarefa sem concessões imorais à tresloucada dinâmica das decisões heróicas. Não resolve jogos com truques de magia, antes inspira os companheiros a despertarem de períodos em que se afastam da realidade, caem na sonolência e perdem o fio à meada. JM prefere viver o futebol por dentro. Valoriza a cabina, o treino, o jogo, a camisola, a bola, e nunca se deixou seduzir pelos apelos exteriores de entrevistas, publicidade, marketing e revistas cor-de-rosa. Vive em contracorrente com as necessidades mediáticas que debilitam o mistério do balneário, a união da equipa como se fosse uma família, o orgulho de competir, o sentido de representação e a verdadeira essência do que significa vencer.

JM cuida da equipa e do jogo. Há outros, com soluções artísticas mais ricas, que se expressam avulso com a bola e interferem nos duelos como desequilibradores; são tenores em fato de gala, maestros exuberantes, solistas aplaudidos de pé por plateias rendidas ao talento no estado mais puro que o instinto pode ter. Muito mais do que um operário, JM é futebolista da cabeça aos pés, um gestor da arte dos outros, que interfere na ação de todos e, por consequência, multiplica a produção da equipa. É uma completa enciclopédia no modo como une as pontas dispersas do coletivo e faz despertar em cada um as orientações do treinador; como chama a atenção a desvios comportamentais, a descoordenações, a falhas posicionais, a deslumbramentos ou adormecimentos momentâneos. O reportório de um craque é ilimitado mas todos, como ele, devem desconfiar das musas. Por isso se diz que nunca joga mal.

Em Bruxelas, onde Portugal se testou em larga escala, foi dele o primeiro sinal do que era preciso fazer para mudar: respirar fundo, arregaçar as mangas e começar a trocar a bola com a coerência dos predestinados. Não tirou coelhos da cartola mas tocou a reunir e criou as condições de estabilidade que permitiram aos craques, por fim, serem visitados pela inspiração. JM foi a rede do trapézio da Seleção, o impulsionador moral de um novo futebol que Portugal teve de jogar para sair da Bélgica com bom resultado e, mais do que isso, com a imagem salvaguardada como campeão europeu.

A qualidade individual será sempre a base do futebol mas nada se consegue sem a coordenação de todos os elementos em jogo. É preciso uma ideia, um projeto e cumplicidade generalizada para que tudo se cumpra na plenitude. Dar homogeneidade às diferenças e torná-las solúveis no jogo e na produção criativa é a arte de um jogador que traz equilíbrio, inteligência e harmonia ao eixo central do terreno, onde promove segurança e equilíbrio atrás e dá claridade e soluções à frente. Sendo um elemento congregador, JM contraria a submissão e combate a previsibilidade. Cumpre ordens superiores (as do treinador), segue o senso comum mas defende sempre pontos de vista originais. Assimila o que o treinador concebe mas dá-lhe cunho pessoal. Nunca é ferramenta sem cérebro.

Jogadores como JM não são autossuficientes – ao contrário de outros que precisam apenas da bola para estabelecerem diferenças e aproximarem as equipas das vitórias. Não ganham sozinhos e precisam de uma equipa à volta para atingirem o máximo de si próprios; com eles não há garantia de vitória mas sem eles o futebol não é fiel à sua história; a presença em campo não equivale a dizer que esteja descoberto o caminho para a glória mas sem eles não vamos a lado algum.


Pepe continua
a ser referência

A revolução no eixo central da Seleção começará depois do Mundial

Pepe continua a despertar paixões exacerbadas. Aos 35 anos, é voz corrente que fez muita falta ao Real Madrid e, agora que está em vésperas do Mundial, há algumas potências europeias que procuram resgatá-lo ao Besiktas. O luso-brasileiro costuma ter boa resposta nos grandes palcos e, tem-no mostrado cabalmente, está em excelente condição física. Permanece como referência defensiva de Portugal.


Gonçalo Guedes
é impressionante

É incrível a coordenação motora de alguns jogadores com a bola nos pés

Gonçalo Guedes levou a Ducati para Bruxelas mas a bomba demorou a carburar. O jovem pode jogar no centro mas, para isso, tem de aperfeiçoar alguns movimentos; precisa de enquadramento e de rotinas com quem lhe está próximo. Quando Fernando Santos o pôs nas faixas foi um perigo: se embala é imparável; a velocidade atingida não a perde com a bola; as decisões que toma são sempre contundentes.


Sumptuosidade
de João Mário

Há jogadores para quem a Seleção é refúgio para as agruras do dia a dia

João Mário é um caso de estudo. Não é possível que um jogador com tanto requinte, subtileza e diversidade tática; com visão e técnica tão evoluídas, não se tenha imposto no Inter Milão e tenha demorado até conquistar o seu espaço no West Ham. Vê-lo ao serviço da Seleção será uma forma de recuperar a sumptuosidade com que joga e faz jogar. É sempre bom ver em ação um dos melhores médios europeus.




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