De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Um grande reforço para o leão

Transporta o saber e a arte daqueles que dominam as especificidades do futebol como desporto coletivo mas que o abordam também como forma de exaltação individual - para não deixar cair no esquecimento a definição de Pacho Maturana, o colombiano que muitos consideram o Sacchi dos trópicos. Em Bruno Fernandes coincidem os valores da boa ocupação do espaço; da perfeita noção do tempo; da interpretação do movimento e da automática perceção do engano, arma que trata de reverter a seu favor, elevando-a a uma dimensão estratégica. Sendo ainda muito jovem, o mais impressionante nem é vê-lo jogar com a sumptuosidade de um iluminado; é detetar-lhe a maturidade com que eliminou os desejos adolescentes de glória em nome da sobriedade e da eficácia; é o instinto revelado a partir de conceitos genéricos e a serena assunção de uma liderança que ninguém discute; é a inteligência com que depurou elementos de veterano, limpando do reportório todas as tendências extravagantes da juventude para atingir a plena afirmação, processo do qual só fazem parte virtudes interditas a menores.

BF é um condutor exímio, elegante, articulado, que joga sempre de cabeça levantada; a universalidade do que faz é tão grande que a influência na equipa se torna esmagadora: galga terreno com a bola colada ao pé ou à custa de jogo combinado que alimenta com coerência; aquece ou arrefece a ação mediante os interesses do exército que defende; gosta de ter a bola em segurança mas não se coíbe de correr riscos, em passes curtos ou longos, instantâneos ou demorados, para lançar o pânico junto da baliza adversária. É um médio com gama interminável de soluções, razão pela qual estimula um estilo paciente por natureza - nunca tem pressa, precisamente por saber que a cultura da ansiedade provoca descontrolo, diminui o acerto e provoca falhas desnecessárias. BF sabe que o pontapé para a frente também serve para chegar ao mesmo lugar mas prefere a ingenuidade do passe, do drible, do toque gracioso. É um homem de convicções fortes, para quem a bola continua a ser o centro de tudo.

A grande questão, agora, é saber como vai Jorge Jesus tirar partido de um jogador com características raras no futebol atual e inexistentes no plantel leonino. Para começar, vai ser preciso definir as linhas com que o Sporting se vai coser no futuro, a começar pela dúvida mais premente: Adrien fica ou sai? BF é um artista com mais virtude e soluções técnicas no último terço do campo; uma estrela que, cumprindo no trabalho comum, é capaz de detonar o fogo-de-artifício da imaginação e acrescentar espetáculo ao guião; um criador que junta fantasia ao previsível e assombro à rotina. Perde para Adrien na eficácia dos equilíbrios, nas compensações, nos posicionamentos sem bola, na utilização do corpo nos duelos individuais, em suma, no apoio mais efetivo a quem joga um ou dois metros atrás. Mas iluminará muito melhor os caminhos que levam ao golo, pela diversidade e perfeição técnica, bem como pela facilidade como desempenha o papel de denominador comum dos movimentos de ataque.

Mesmo condicionado por contingências várias, BF é a promessa de um grande reforço para o Sporting e para a Liga. Desde Rui Costa, Deco e até Carlos Martins, num patamar abaixo, que o futebol português não festejava o aparecimento de um médio com visão tão ampla e soluções tão ricas. Já é um enorme futebolista, mas está ainda dependente de situações que lhe fogem ao controlo. Tem a palavra JJ. O treinador sportinguista, conhecido como joalheiro de elite, tem pela frente o desafio aliciante de lapidar um diamante valioso e transformá-lo numa obra-prima da ourivesaria mundial. É cedo para dizê-lo sem reservas mas, se tudo correr sem sobressaltos, BF tem quase tudo o que precisa para vir a ser uma referência a nível planetário.

Seferovic 'só' precisa de golo
Aos 25 anos e enquadrado noutra realidade pode dar o passo que lhe falta

Seferovic encerra dúvida habitual em muitos avançados que chegam ao futebol português: não tem números deslumbrantes, ou seja, não é grande marcador de golos. A julgar pelo que está a mostrar na pré-época benfiquista, porém, tem-se revelado um atacante de todo o espaço ofensivo; que joga e faz jogar; que conhece as regras de cada zona do terreno; e que, se evoluir bem, vai marcar muito golo.

Ricardo Pereira sempre valioso
Se não usufruir do jogador, o FC Porto pode utilizá-lo como grande negócio

Ricardo Pereira debateu-se com o preconceito habitual à volta dos jogadores que chegam aos grandes oriundos de clubes mais modestos. Resultado: o FC Porto contratou-o mas não lhe deu oportunidades. Emprestou-o ao Nice e ele valorizou-se. Agora chamou-o de volta, escolheu-o como lateral-direito mas tudo aponta para que a relevância do jogador seja como potencial grande negócio. Também está bem.

Piccini precisa de Jorge Jesus
É um risco tirar conclusões definitivas a partir das primeiras observações

Piccini não tem sido feliz nos jogos de pré-época. Não é grave porque estamos no princípio de tudo, dá que pensar ao percebermos que é o único lateral-direito disponível. Com quatro atrás revela descoordenação entre o ir e o voltar; com três, menos exposto em termos defensivos, falta-lhe talento para desequilibrar à frente. É aguardar pela evolução e ver o que Jorge Jesus pode fazer para melhorá-lo.

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