De Pé para Pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Um novo candidato ao título

Que o orçamento mais baixo entre os candidatos ao título – 16 milhões contra 90 do FC Porto e 70 de Benfica e Sporting – utilize armas diferentes e não se dê ao luxo do desperdício é uma inevitabilidade ditada pela correlação de forças; que o faça abordando a Liga com a esperança de conquistá-la, sensação aprimorada na pré-época, é a prova da excelência do trabalho a todos os níveis. Os jogadores do Sp. Braga não são os melhores do Mundo, talvez nenhum deles seja o melhor de Portugal na sua função; mas a construção de um exército de elite obedece a parâmetros cujos valores ultrapassam os conceitos subjetivos de qualidade. Abel Ferreira desenhou uma grande equipa e alicerçou-a nos princípios de um coletivo comprometido, inteligente, talentoso, assente em concentração e que desconhece o significado de palavras como desânimo e resignação.

O Sp. Braga encontrou o lugar idílico onde todos se entendem, remam para o mesmo lado e expressam sentimentos comuns. Um milagre escolheu a equipa de AF para mostrar que o futebol também serve para encontrar paraísos em cenários menos faustosos – como sucede com este conjunto de guerreiros que, há mais de uma década, se tem apetrechado para atingir a glória. Num processo iniciado em 2006 por Jesualdo Ferreira e que chegou até hoje sempre com o presidente António Salvador ao leme, o Sp. Braga estabeleceu um vínculo com a cidade e criou referências ideológicas indestrutíveis; porque os jogadores se assumem como representantes dos adeptos e o futebol serve de vínculo sentimental que recorda a identidade da gente que representa. Os soldados, devidamente enquadrados por estratégia técnica e por linha programática institucional clara, têm conseguido expressar o brio profissional, respeitar o legado de um passado vitorioso e dar futuro à história da camisola que envergam.

É neste surpreendente paraíso, onde todos se expressam na plenitude, que nasceu um conto de fadas em que o futebol é fértil: um clube saudável e organizado que delimitou território entre os grandes; um treinador notável, bem acompanhado, com as ideias no lugar e relação perfeita com o plantel; jogadores de enormíssima qualidade que, juntos, valem incomparavelmente mais do que a soma de todos, cada um por si; massa associativa cada vez mais exigente e orgulhosa, que funciona como suporte humano de todas as ambições.

AF está a credibilizar a obra-prima e, aos poucos, a dar forma ao sonho. Conhece o meio, escolheu os jogadores, tem ideia global precisa e revela o espírito de pedagogo que faz dele um treinador completo, que cumpre os dois fundamentos da profissão: treina e ensina; aceita medir a competência pela evolução dos homens ao seu dispor e construiu, no primeiro ano, o melhor Sp. Braga da história – mais pontos (74), mais vitórias (24), mais golos marcados (74) e melhor diferença de golos (45). A sua proposta não é passível de discussão, daquelas a que os futebolistas aderem só para salvar a pele. Não! É a imagem de um olhar lúcido, convicto de que o título deixou de ser uma quimera.

Para 2018/19, a equipa apresenta um grande guarda-redes (Matheus) e uma dupla de centrais ao nível das melhores da Liga (Bruno Viana e Raúl Silva); apesar de ter perdido André Horta e da birra de Vukcevic, tem médios-centro de fiabilidade absoluta (Fransérgio, João Novais, Claudemir e Eduardo); alas de nível nacional (Ricardo Esgaio e Fábio Martins) e internacional (Ricardo Horta); avançados de topo, a começar por Paulinho, que tem a Seleção no horizonte, mas também Wilson Eduardo, Dyego Sousa e, até ver, Hassan. Desde o Boavista de Jaime Pacheco, em 2000/01, que o futebol português não gerava uma equipa tão forte e ameaçadora ao poder instituído. A hegemonia de FC Porto, Benfica e Sporting está mesmo posta em causa.

Jonas é para
gerir com pinças
Os conflitos nas equipas podem até ser úteis mas não podem ter vencedores e vencidos
Jonas é um génio, para quem a estatística só serve de auxílio às convicções. "Não, não é um génio mas marcou 122 golos em quatro épocas", e todos se rendem aos números. Na última época fez 37 golos, consolidando o estatuto de um dos mais extraordinários jogadores encarnados de sempre. A separação, a suceder, terá de ser gerida com pinças. Se for resultado de um braço de ferro, todos sairão a perder.

Maxi Pereira foi
enorme vendaval
O FC Porto mostrou na final da Supertaça uma condição muito interessante
Maxi Pereira recuperou em Aveiro um protagonismo do qual já estaria provavelmente esquecido. Não foi titular absoluto na época passada e, agora, está pressionado pela contratação de João Pedro. Frente ao Aves foi um vendaval constante pelo flanco direito, com e sem bola, a defender e a atacar. Para sublinhar a extraordinária exibição, ainda fez um golo, em perfeita combinação com Otávio. Melhor era impossível.

Bruno Fernandes
continuará estrela
Há jogadores que não precisam de muito para se mostrarem fundamentais
Bruno Fernandes retomou a influência sobre o Sporting, como se não houvesse fronteira entre a época transata e a presente. Para ser decisivo basta estar lá: faz tudo bem e os companheiros sabem-no tão bem que jogam segundo a cadência e a inspiração do maestro. No 4x2x3x1 de José Peseiro terá o espaço para aplicar a visão, a técnica e o poder desequilibrador. Continuará a ser uma estrela da Liga.

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